Globalização

 

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em out. 2016

 

            A ideia de uma globalização designa o processo de integração em escala mundial da economia de mercado, das relações e interações humanas, relações econômicas, políticas e culturais entre nações, como consequência da velocidade sempre crescente dos meios de transporte e comunicação sendo, neste último caso, principalmente através das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC’s). A globalização não é apenas um fenômeno de natureza econômica, mas política, tecnológica, cultural. Os diferentes aspectos do processo de globalização são analisados por Santos (2002): a globalização econômica e o neoliberalismo, a globalização social e as desigualdades, a globalização política e o Estado-nação, a globalização cultural ou cultura global, globalização hegemônica e contra-hegemônica, os graus de intensidade da globalização além de uma perspectiva do futuro da globalização. A ideia de globalização evoca a noção de um mundo único, uma aldeia global, um mundo sem fronteiras, de integração da economia mundial, de onde resultam expressões como: cultura mundial, civilização mundial, governança mundial, economia mundial, cidadania global.

 

Disponível em : Blog História e Geografia

Acessado em : 28/09/2016

 

 

            Os protestos de rua de um país são vistos com facilidade pelos telespectadores de outro país. “Globalizaram-se as instituições, os princípios jurídico-políticos, os padrões socioculturais e os ideais que constituem as condições e produtos civilizatórios do capitalismo” (IANNI, 1995, p.47-8 apud VICENTE, 2009, p. 128). Anthony Giddens fala de um mundo em transformação, que afeta tudo o que fazemos, e que estamos sendo empurrados para uma ordem global cujos efeitos se fazem sentir mas que ainda não compreendemos na sua totalidade. E neste processo de transformação a globalização está por trás, inclusive, da expansão da democracia: “[...] vivemos numa época em que a democracia está a estender-se a todo o mundo [...] Temos de democratizar ainda mais as estruturas já existentes e de o fazer de forma a responder às exigências da era global” (2006, p. 17).

 

Disponível em: Slideshare, slide 9

Acessado em: 28/09/2016

 

            Do ponto de vista do expansionismo econômico a globalização não é algo novo. Na História verificamos processos semelhantes como na fase do colonialismo com a hegemonia de Espanha e Portugal na era das grandes descobertas dos séculos XVI ao XVIII, ou o imperialismo do fim do século XIX e início do século XX com a hegemonia da Inglaterra e dos Estados Unidos até chegar aos processos de transnacionalização e globalização do final do século XX. Nos dias atuais podemos mencionar a criação de organizações internacionais como a ONU (Organização das Nações Unidas), Banco Mundial, FMI (Fundo Monetário Internacional) e a UE (União Européia) como um resultado direto desse processo de globalização.

            De mogo geral vemos como a aceleração e ampliação do processo de expansão do capitalismo de forma globalizada vem se desenvolvendo há séculos (SUNKEL, 1999).

 

A situação presente, todavia, possui um ingrediente extra que é a revolução tecnológica contemporânea. É certo que os períodos de grande expansão econômica internacional também foram sempre precedidos de grandes transformações tecnológicas, o que não é diferente no presente processo. A atual globalização, entre outros fatores, foi fortemente impulsionada pela revolução nas comunicações, em especial na constante evolução tecnológica da computação (PEREIRA NETO, 2003, p. 58-59).

 

Disponível em: Slideshare, slide 76

Acessado em 28/09/2016

 

            Anthony Giddens (2006) destaca como hoje o processo de globalização é marcado pela informação digital, inclusive financeiramente. Um dinheiro que não raro só existe como informação digital e que serve de base às transações econômicas que são operadas no mercado financeiro de vários países. Milhões e bilhões de dólares são movimentados diariamente. Um volume de transações financeiras inabitual para o mercado comum: “É um aumento maciço em relação aos finais da década de 1980, sem falarmos de anos mais distantes. O valor do dinheiro que temos no bolso, ou nas nossas contas bancárias, muda de momento a momento, de acordo com as flutuações registadas nestes mercados” (2006, p. 22). Vivemos hoje em dia a era da mundialização do capital, usando o termo francês para globalização (mondialisation): um processo de internacionalização do capital produtivo como um conjunto dos processos que tecem relações de interdependência entre as economias nacionais, incluindo aí as importações e exportações de bens e serviços, entradas e saídas de investimentos do capital financeiro ou, ainda, de mundialização das operações do capital (CHESNAIS, 1994 e 1995).

 

Em vez de usar o termo “globalização” e, portanto, de fazer referência à “economia” de modo vago e impreciso, parece então desde já preferível falar em “globalização do capital”, sob a forma tanto do capital produtivo aplicado na indústria e nos serviços quanto do capital concentrado que se valoriza conservando a forma dinheiro. Pode-se então dar mais um passo, aquele que consiste em falar de “mundialização” em vez de “globalização” (CHESNAIS, 1995, p. 5).

 

            Milton Santos (2000) destaca que as atividades hegemônicas do mundo globalizado estão todas fundadas na técnica e na tecnociência. Há 150 anos era usado o Código Morse como meio de comunicação. Hoje esse sistema foi substituído pela tecnologia dos satélites que permite localizar qualquer pessoa, usando um GPS, por exemplo. A globalização foi favorecida pelo casamento entre a ciência e a técnica, mas um casamento que é condicionado pelo mercado: a ciência e a técnica passam a produzir aquilo que interessa ao mercado e não a humanidade em geral. O mundo da técnica promoveu uma maior fluidez e rapidez nas relações sociais. Mas uma fluidez que não é para todos, mas para os agentes que têm a possibilidade de utilizá-la. E a “compartimentação dos territórios ganham esse novo ingrediente [...] tudo hoje está compartimentado; incluindo toda a superfície do planeta” (SANTOS, 2000, p. 84). É dessa forma que se potencializa a força das grandes empresas em detrimento de outras, que são forçadas em suas formas “de ser e agir” a adaptar-se ao “epicentro” das empresas hegemônicas. “Com a globalização, o uso das técnicas disponíveis permite a instalação de um dinheiro fluido, relativamente invisível, praticamente abstrato” (SANTOS, 2000, p. 100).

            Do ponto de vista econômico se fala hoje em dia em uma economia mundial ou de uma economia globalizada, onde as economias nacionais são rearticuladas no seio de um sistema de transações e processos que operam em nível internacional. Transformações importantes ocorridas a partir da década de 1970 na conjuntura política, econômica e social propiciaram o avanço da globalização com a expansão de empresas transnacionais : a chamada transnacionalização. Uma nova economia se afirmas estimualda pela ideia de um mercado livre global onde “as empresas, corporações e conglomerados transnacionais adquiriram preeminência sobre as economias nacionais” (IANNI, 1995, p.46 apud VICENTE, 2009, p. 127). “A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista” (SANTOS, 2000, p. 23). Passamos da micro para a macro economia, das regras de gestão privada para o estabelecimento de políticas econômicas que são definidas e redefinidas por instituições internacionais.

            Naturalmente há os defensores e opositores do fenômeno da globalização. Dentre seus defensores, Thomas Friedman acredita que “a globalização representa a substituição natural de um sistema decadente implantado no transcorrer dos anos em que o mundo viveu a polarização estabelecida entre o capitalismo e o socialismo” (apud VICENTE, 2009, p. 128). Um avanço que tende a ganhar força com o desenvolvimento de novas tecnologias do sistema produtivo, seja através da computação, da internet, da fibra ótica, por exemplo.

            O processo de globalização facilitou a afirmação de um conjunto de ideias neoliberais (REIS, 1997; VICENTE, 2009). O neoliberalismo ganhou força com o modelo de uma nova economia de mercado global ou, mais exatamente, um mercado livre global, onde as empresas e corporações transnacionais ganham proeminência sobre as economias nacionais. Ganha força a recomendação de redução do Estado no desempenho de certas funções que é um componente central da ideologia neoliberal e procura se tornar hegemônica, baseado na necessidade de conceber e operar a máquina do Estado tornando-a simultaneamente mais eficiente e menos onerosa. Thomas Friedman estabelece como alicerces do processo de globalização, do seu ponto de vista, nos seguintes itens:

 

a) Defesa parcial da noção Estado-nação, uma vez que no processo de implantação da globalização ainda é necessária a presença do Estado.

b) A relação entre Estado-nação e mercados globais tende a restringir as ações dos Estados, com a consequente delimitação de sua atuação, pois os centros econômicos mundiais adotam medidas que têm de ser incorporadas pelos países defensores desse processo da globalização. A propensão, portanto, seria chegar ao fim dos Estados nacionais.

c) A tendência caminha no sentido de estabelecer o equilíbrio entre o poder dos Estados e as liberdades individuais, ou, se preferir, colocar no mesmo patamar o individualismo e o poder coletivo. Aqui, Friedman apela, mais uma vez, para as novas tecnologias e as facilidades de mobilização social criadas (apud VICENTE, 2009, p. 130-131)

 

Disponível em: Slideshare, slide 24

Acessado em 28/09/2016

 

 

            Existem também as críticas a esse modelo e visão de mundo, que consideram a ideia de globalização como a fonte de inúmeros problemas, e não leva em consideração questões como a heterogeneidade, a fragmentação, a desigualdade, a exclusão, a dominação, a exploração, as diferenças ideológicas e das relações humanas, entre outras. Os oponentes da globalização estimam que a globalização seria antes geradora de inquietações, de desgates do meio ambiente, de uma competitividade desumana. Entre os seus críticos, estão aqueles que apontam para o fato de que a globalização tende a aumentar ainda mais as desigualdades sociais, fazendo com que a concentração da riqueza mundial esteja cada vez mais nas mãos de poucos, aumentando a situação de pobreza e miséria social.

 

A dinâmica tecnológica e econômica que se afirma como parte das tendências novas da globalização não autorizam qualquer otimismo no que se refere à sua eventual contribuição para melhorar esse quadro de desigualdade. Ao contrário, o que temos com ela, mesmo nos países economicamente mais avançados, são o aumento da desigualdade social, níveis inéditos de desemprego, a "nova pobreza", o aumento da violência urbana (REIS, 1997, p. 49).

 

            Vive-se o imperativo do mercado globalizado. A globalização conduz a uma nova espécie de darwinismo econômico e social, no qual cada ser humano é chamado a mostrar suas competências e onde sobrevivem apenas os mais fortes, por meio de uma seleção natural. O mercado é intransigente com os que não são competitivos: caso não consigam se adaptar ao meio, sofrerão a marginalização e a exclusão social.

         Dentre os críticos do processo de globalização podemos destacar Milton Santos, autor da obra: Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. O livro do Milton Santos tem como objetivo principal discutir o atual processo de globalização, abordando questões que trata da constituição da globalização: quais indivíduos de fato esta atual globalização beneficia? É possível dar novos rumos a atual história social no período da globalização? Milton Santos entende a globalização como algo perversa na forma como está: “fundada na tirania da informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos espíritos e na violência estrutural, acarretando o desfalecimento da política feita pelo Estado e a imposição de uma política comandada pelas empresas” (2000, p. 15). A obra de Milton Santos é bastante extensa e merece uma reflexão mais detalhada sobre as questões analisadas pelo autor. Veja a este respeito o texto em nosso website: Uma outra globalização é possível?

            Utilizando os conceitos de monocultura da escala dominante e monocultura do produtivismo capitalista Boaventura de Sousa Santos (2007) critica a ideia de que tudo se torna global e homogêneo em função de uma escala dominante, representada hoje pela globalização, criando a ausência do particular e do local e de que o que vale nesse processo é o crescimento econômico e a lógica produtivista do sistema capitalista. Propondo como alternativa o que ele chama de ecologia da “transescala”, defende que é preciso ir além da escala dominante trabalhando entre as escalas locais, globais e nacionais; e a ecologia das produtividades que busca recuperar e valorizar sistemas alternativos de produção como as cooperativas operárias, a economia solidária, entre outras, que a ortodoxia capitalista desacreditou ou ocultou.

 

 

Referências Bibliográficas

 

CHESNAIS, F. La mondialisation du capital. Paris: Syros, 1994. (Collection Alternatives Economiques).

____. A globalização e o curso do capitalismo de fim-de-século. Traduzido do francês por Catherine Marie Mathieu. Economia e Sociedade, Campinas, (5):1-30, dez.1995. Acessado em 28/07/2016.

GIDDENS, Anthony. O mundo na era da globalização. Tradução de Saul Barata. 6. ed. Lisboa : Editorial Presença, 2006.

PEREIRA NETO, Hildebrando. Estado, Sociedade e Democracia: um novo contrato social para um novo estado social. Desenvolvimento em questão, vol. 1, n. 2, p. 55-71, jul./dez. 2003. Acessado em 16/07/2016.

REIS, Fábio W. O nacional e o social em tempos globais. In: GERSCHMAN, S.; VIANNA, MLW., (orgs). A miragem da pós-modernidade: democracia e políticas sociais no contexto da globalização [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1997, p. 43-52.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Globalização e as Ciências Sociais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2002.

____. Renovar a Teoria Crítica. E reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo, 2007.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

SUNKEL, Osvaldo. Globalização, neoliberalismo e a reforma do Estado. In: BRESSER PEREIRA, L. C.; WILHEIM, Jorge; SOLA, Lourdes (Orgs.). Sociedade e Estado em transformação. São Paulo: Editora Unesp, 1999.

VICENTE, Maximiliano Martin. A crise do Estado de bem-estar social e a globalização: um balanço. In: ____. História e comunicação na nova ordem internacional [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009 p. 123-146. Acessado em 26/07/2016.