Espiritualidade e Política

por Alexsandro M. Medeiros

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            O website Consciência Política aborda a Ciência Política sob seu aspecto multidisciplinar, interdisciplinar, transdisciplinar e transpessoal. Isso significa que a Política aqui é considerada a partir de sua relação multifacetada com as diferentes áreas do conhecimento humano, como a Filosofia, Economia, Psicologia, História e tantas outras áreas do conhecimento, como também aborda a realidade das relações humanas a partir de uma perspectiva integral que entende que o ser humano é algo muito mais do que um simples corpo material, mas inclui uma dimensão psíquica e espiritual que precisa ser levada em consideração sob pena de mutilarmos a realidade na qual vivemos. Tal visão compreende que a “espiritualidade e a política são duas realidades fundamentais da vida [...] ‘No âmbito do interpessoal, no reino de como tu e eu nos relacionamos com o outro como seres sociais, não há áreas mais importantes do que as da espiritualidade e da política’” (OCAÑA, 2016, p. 3).

            Nenhuma ideologia, nenhum sistema político, ordem econômica ou social estará completo e poderá solucionar os grandes problemas que afligem a humanidade enquanto não abordar a realidade humana sob este aspecto integral e transpessoal. A política tal como é entendida hoje, quase que exclusivamente do ponto de vista materialista, precisa completar-se pelos caminhos do espírito. De certo modo concorda-se com Ottaviani (2015, p. 516), quanto este afirma que não basta a reforma das estruturas políticas se esta não for acompanhada de uma visão espiritual “alicerçada num árduo processo da constituição de si enquanto sujeito ético, apoiada ou não em alguma crença religiosa”. E mais adiante: “nenhuma reforma política será suficiente, nenhuma estrutura de poder será honesta e eficaz, se os atores dessa nova e promissora peça não forem mudados ou transmutados” (OTTAVIANI, 2015, p. 521). O conceito que preferimos adotar aqui é o de espiritualidade, ou seja, a justiça social só será possível de ser alcançada quando homens e mulheres trabalharem em prol de sua evolução espiritual (do ponto de vista individual e coletivo).

            Uma visão ampliada da política, que inclui o aspecto espiritual do ser humano e na qual se baseia nossa compreensão, não se funda apenas em pressuposições teóricas e religiosas, mas procura fundamentos científicos e filosóficos que nos permitam pensar a realidade em sua dimensão além da realidade material, que aqui chamamos de espiritual.

            Por isso esta abordagem estaria incompleta se não incluísse uma reflexão em torno do tema da espiritualidade tematizado sob outros enfoques que, embora não necessariamente políticos, são fundamentais para a compreensão da vida em sociedade em toda sua complexidade. Por isso o website inclui uma seção sobre Espiritualidade e Ciência e Espiritualidade e Filosofia, que completam nossa visão de mundo e se liga de forma sinérgica à Ciência Política.

            Além disso essa visão de mundo amplia os horizontes para se pensar a Política e as políticas públicas que afetam diretamente a vida em sociedade considerando a necessidade de pensá-las igualmente a partir da dimensão espiritual. Por isso o site também apresenta seções específicas dedicadas à análise da espiritualidade a partir de políticas públicas como a educação, saúde, meio ambiente, onde estão presente discussões que envolvem a Educação e Espiritualidade, Saúde e Espiritualidade, Meio Ambiente e Espiritualidade.

            Algumas personalidades inspiram-nos a buscar aproximar esse tema que envolve espiritualidade e política. Mahatma Ghandi, Martin Luther King Jr., além de filósofos e pensadores como Platão, Sócrates, Henri Bergson e Pietro Ubaldi.

            Suas teorias e exemplos de vida devem inspirar não apenas o cidadão de bem, mas também todo aquele que se dispõe a governar e administrar uma cidade. Deve inspirar em cada um de nós o senso do dever, de justiça social, de luta pela transformação da sociedade e “a autêntica finalidade da política, que consiste na busca do bem comum do próprio país e da humanidade” (BAGGIO, 2004, p. 37).

            Inspirados em seus exemplos de vida o cidadão de bem, que pretende fazer da política uma missão, “procura tomar decisões que criam condições para que cada cidadão, e a comunidade como um todo, realize o desígnio de que é portador, a sua missão na história” (BAGGIO, 2004, p. 38). Obedecendo, como Sócrates, a sua própria consciência, o cidadão de bem “vive em contínua atitude de escuta da voz que fala dentro dele, num constante diálogo interior com ela. Por esse hábito de diálogo consigo mesmo, ele aprende a dialogar também com os outros, e os ajuda a descobrir a voz que fala dentro deles” (id., ibidem, p. 38).

            O compromisso do cidadão de bem – que Baggio (2004) chama de o político da unidade, em alusão ao Movimento Político pela Unidade – é com a máxima: ama ao teu próximo como a ti mesmo; ou “Tudo aquilo que quereis que os outros vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas”. (Mt 7,12). Ampliando a máxima do amor ao próximo e analisando sob o prisma da fraternidade, Lubich (2001, p. 8) – em discurso realizado na Câmara Municipal de Trento/Itália –, pondera que a fraternidade é necessária em todo lugar e, inclusive, na política:

também os políticos são chamados a colocá-la em prática e a sentir-se irmãos entre si, antes mesmo da paixão pelo próprio partido, antes das escolhas que distinguem as diversas opções. O amor fraterno une e ilumina as decisões a serem tomadas e torna as pessoas mais aptas a atingir o objetivo final da própria política, que é o bem comum.

            Um bom governante não é o astuto, que visa seus próprios interesses e se pratica o bem o faz apenas de forma superficial e com objetivos eleitorais. Um bom governante procura usar o poder espiritual que há dentro de si para fazer o bem de forma desinteressada e amorosa. Também não “basta adquirir técnicas de governança. É preciso adquirir a sabedoria para governar e isso passa necessariamente pelo governo de si mesmo, campo aberto para o exercício da espiritualidade” (OTTAVIANI, 2015, p. 521).

            Um governante sábio é alguém que pensa as políticas públicas sob um ponto de vista espiritual e, por isso, pensa a educação, a saúde, o meio ambiente, de forma integral, e não vê oposição entre Saúde e Espiritualidade, Educação e Espiritualidade, mas sim uma consequência lógica e necessária da vida, porque pensa uma espiritualidade centrada na defesa dos direitos humanos, na defesa dos direitos das minorias e de todas as pessoas, sem discriminação de raça ou gênero, na defesa da vida.

 

Espiritualidade versus Religião

            Propositalmente utiliza-se o termo Espiritualidade e Política, ao invés de Religião e Política e, por isso, se faz necessário algumas palavras para explicar essa distinção conceitual. Utiliza-se o conceito de espiritualidade ao invés de Religião por ser um conceito mais amplo e “[...] por incluir também formas não religiosas de lidar com as dimensões profundas da subjetividade” (VASCONCELOS, 2008, p. 315).

Lukoff (1992), por exemplo, distingue religiosidade de espiritualidade, definindo a primeira como adesão a crenças e a práticas relativas a uma igreja ou instituição religiosas organizada, e a segunda como a relação estabelecida por uma pessoa com um ser ou uma força superior na qual ela acredita [...] Worthington, Kurusu e McCullough (1996) definem uma pessoa religiosa como aquela que possui crenças religiosas e que valoriza, em alguma medida, a religião como instituição. Já uma pessoa espiritualizada é aquela que acredita, valoriza ou tem devoção a algum poder considerado superior, mas não necessariamente possui crenças religiosas ou é devoto de alguma religião institucionalizada (apud FARIA; SEIDL, 2005, p. 381).

            De modo geral, a espiritualidade é um aspecto necessariamente presente na religião, mas a religião não está, necessariamente, presente na espiritualidade.

            Quando se fala em espiritualidade não está se referindo a uma religião específica, mas a uma necessidade de vivência existencial que procura uma relação com algo que transcende a realidade, considerando-o sagrado, independente de rótulos religiosos. Neste sentido, qualquer religião que tenha a característica do sagrado e do transcendental é entendida aqui como uma prática espiritual: seja cristã, espírita, hindu, islâmica, umbanda etc.

Disponível em: Blog Oculto Revelado (Acessado em 05/11/2015)

            Cervantes (2015), “define a espiritualidade como experiência de sentir que fazemos parte de algo maior e mais profundo que nós mesmos, algo que nos liga a tudo e a todos, que nos leva a ver todos os seres humanos como irmãos e ao planeta como a casa comum que temos de cuidar” (apud OCAÑA, 2016, p. 4).

 

Referências Bibliográficas

BAGGIO, Antonio Maria. Espiritualidade da Unidade na Política. Tradução de José Maria de Almeida. ABBA – Revista de Cultura, São Paulo, Vol. VII, n. 3, pp. 35-46. Acesso em 30/10/2017.

CERVANTES, Cristóbal. Espiritualidad y política. Kairós, 2015.

FARIA, Juliana Bernardes de; SEIDL, Eliane Maria F. Religiosidade e enfrentamento em contextos de saúde e doença: revisão de literatura. Psicologia: Reflexão e Crítica, vol. 18, n. 3, p. 381-389, 2005. Acessado em 07/11/2015.

LUBICH, Chiara. A Fraternidade no horizonte da cidade. Tradução de José Maria de Almeida. ABBA – Revista de Cultura, São Paulo, Vol. VI, n. 3, pp. 7-17, 2001. Acesso em 30/10/2017.

OCAÑA, Emma. Espiritualidade e Política. Fundação Betânia, 2016.

OTTAVIANI, Edelcio. Espiritualidade e política: considerações sob um ponto de vista filosófico. Revista Pistis & Praxis, Teologia Pastoral, Curitiba, v. 7, n. 2, p. 513-530, mai./ago. 2015. Acesso em 29/10/2017.

VASCONCELOS, Eymard Mourão. Espiritualidade, educação popular e luta política pela saúde. Revista APS, v. 11, n. 3, p. 314-325, jul./set. 2008. Acesso em 29/10/2017.