Aristóteles

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em 2015

atualizado em set. 2017

            Aristóteles foi um grande filósofo grego, que nasceu em 384/383 a.C., em Estagira, na Macedônia. Filho de Nicômaco, que fora médico do rei Amintas, foi discípulo de Platão e conviveu com seu mestre por um longo período, desde os 18 anos quando foi para Atenas, na escola criada por Platão: A Academia. "Foi precisamente na Escola de Platão que Aristóteles amadureceu e consolidou a própria vocação filosófica de modo definitivo, tanto que permaneceu na Academia por vinte bons anos" (REALE; ANTISERI, 2003, p. 188). Nesse período estudou, entre outras coisas, os filósofos pré-socráticos, que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. Somente depois da morte de Platão é que Aristóteles se retira da Academia, talvez descontente com os rumos que esta teria tomado e passa a desenvolver com certa independência suas próprias ideias. “Desgostoso com a escolha de Spêusipos, representante de uma tendência do platonismo que lhe repugnava – a de transformar a filosofia em matemática, Aristóteles deixou a Academia” (ARISTÓTELES, 1985, p. 5 – apresentação de Mário da Gama Kury).

            Aristóteles fez parte da corte do rei Filipe, da Macedônia, em 343 a. C., para encarregar-se da educação de seu filho Alexandre – posteriormente Alexandre, o Grande –,

ou seja, do personagem destinado a revolucionar a história grega e que estava então com treze anos de idade. Infelizmente, sabemos pouquíssimo sobre as relações que se estabeleceram entre os dois excepcionais personagens (um dos maiores filósofos e um dos maiores políticos de todos os tempos), que o destino quis ligar (REALE; ANTISERI, 2003, p. 189).

            Assim que Alexandre assumiu o trono, Aristóteles perdeu seu cargo como mestre e em 333 a. C. voltou para Atenas onde fundou sua própria academia, o Liceu, com a ajuda do rei Alexandre, “alugando alguns prédios próximos a um pequeno templo sagrado dedicado a Apolo Lício, de onde provém o nome ‘Liceu’ dado à Escola” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 189). Em alguns anos, fez da sua escola um centro de estudos sistemáticos e filosóficos e, por dar aulas enquanto caminhava pelas redondezas do Liceu, a escola de Aristóteles ficou conhecida como peripatética (do grego peripatós, "passeio").

            De acordo com José Américo Motta Pessanha – autor da biografia existente na obra de Aristóteles, da Coleção Os Pensadores –, ao contrário da ênfase dada às investigações matemática que ocorria na Academia de Platão, “o Liceu transformou-se num centro de estudos dedicados principalmente as ciências naturais. De terras distantes, conquistadas em suas expedições, Alexandre enviava ao ex-preceptor exemplares da fauna e da flora que iam enriquecer as coleções do Liceu” (apud ARISTÓTELES, 1983, p. IX)

            Aristóteles teve um papel muito importante na biologia, pois foi ele que fez os primeiros estudos e classificação de cada espécie animal. Após estudar, aproximadamente, 50 tipos de espécies, foi o primeiro que dividiu o mundo animal em vertebrados e invertebrados, ou como ele chamava animais de sangue e animais sem sangue.

            A filosofia aristotélica constitui uma visão sistemática e integrada do conhecimento, com a valorização da ciência empírica, da ética e da política. Aristóteles divide o conhecimento da seguinte forma: prático (práxis), produtivo (poiesis) e teórico. O conhecimento prático abrange principalmente o estudo da ética e da política.

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As divergências entre o discípulo e o mestre

          Muito embora tenha sido discípulo de Platão, nem todas suas teorias se baseavam nas teorias de seu mestre, ao contrário, chegou a discordar em muitas delas, inclusive aquela que é o eixo central da filosofia de Platão, a saber, a Teoria das Ideias. Para justificar seu posicionamento Aristóteles teria chegado a afirmar que “o verdadeiro discípulo é aquele que consegue superar seu mestre”, ou então que ele, Aristóteles, era amigo de Platão, mas era “mais amigo da verdade”. Entre elas podemos destacar a rejeição da visão platônica dos dois mundos (sensível e inteligível), tendo em vista a dificuldade de explicar a relação entre ambos (Cf. Metafísica I, caps 6 e 9; XII e XIV).

            Divergindo da Teoria das Ideias e do dualismo platônico que dividia a realidade em dois mundos: o mundo sensível e o mundo inteligível, a teoria aristotélica é mais realista que idealista, embora Aristóteles não negue a natureza do inteligível, inserindo o dualismo entre o inteligível e o sensível, na realidade empírica.

            Reale e Antiseri (2003, p. 187) destacam ainda, dentre as diferenças entre Platão e Aristóteles:

1) o abandono da componente místico-religioso-escatológica (ao menos nas obras que nos chegaram, porque, nas publicadas, também Aristóteles se servia do mito como expressão de verdades religiosas); 2) o escasso interesse pelas ciências matemáticas e, ao contrário, a viva atenção pelas ciências naturais e empíricas; 3) o método sistemático em vez do dialético-dialógico.

            No campo da Ética e da Política Aristóteles apresenta tanto convergências quanto divergências com as teorias de seu mestre Platão. Para Aristóteles, o homem é um animal político, que necessita estar inserido em uma cidade enquanto sociedade política, pois, para ele, a única forma de realização da natureza humana é na vida sociedade. E é sobre suas contribuições no campo da política que iremos agora concentrar nossa atenção.

 

A Política em Aristóteles: o zoon politikon

            Dentre as características da natureza política humana a partir do pensamento de Aristóteles encontramos o conceito de animal político (Zoon Politikon), um animal racional que fala, pensa e que, além disso, tem necessidade natural de conviver em sociedade. Pode-se afirmar que a política aristotélica rejeita a tese liberal moderna de que o indivíduo é mais importante do que a família ou a sociedade. Aristóteles entende que a cidade tem precedência sobre cada um dos indivíduos, pois, isoladamente, o indivíduo não é autossuficiente, já a falta de um indivíduo não é determinante para a vida da pólis (cidade). Ademais o indivíduo só pode se desenvolver em sua capacidade racional plena em meio a vida em sociedade. Por isso Aristóteles afirma que o todo deve necessariamente ter precedência sobre as partes e o Estado deve ser superior ao indivíduo.

            Dessa forma, não só o fundamento da existência do homem só pode ser pensado na sociedade como, na ordem natural das coisas, uma vez que o todo deve ser colocado, forçosamente, antes das partes, o Estado se coloca antes da família e antes de cada indivíduo, pois o bem comum é superior ao bem individual, a coletividade suplanta o particular. Com efeito, a “[...] família é o núcleo do Estado e precede-o cronologicamente, porém na ordem lógica acha-se primeiro o Estado” (MONDOLFO, 1967, p. 270).

O Estado tem, por natureza, mais importância do que a família e o indivíduo, uma vez que o conjunto é necessariamente mais importante do que as partes. Separem-se do corpo os pés e as mãos e eles não serão mais nem pés nem mãos (...) a prova de que o Estado é uma criação da natureza e tem prioridade sobre o indivíduo é que o indivíduo, quando isolado, não é auto-suficiente, no entanto, ele o é como parte relacionada com o conjunto (POLÍTICA – Livro I, I, 11).

            Para Aristóteles a política visa um fim que é útil e bom para o homem e para a sociedade pois, conforme a concepção aristotélica que vê o mundo como uma ordem cosmológica e teleológica, não há nada que a natureza crie e não vise o fim, uma finalidade, e cuja finalidade da vida humana se dá na pólis, ou seja, na cidade. Vale ressaltar as diferenças entre os habitantes da pólis (cidade) que segundo Aristóteles dividiam-se em duas espécies de seres humanos: os que vegetam em tribos amorfas e selvagens ou formam imensos rebanhos em monarquias de proporção monstruosas, e os que se encontram harmoniosamente associados em cidades (pólis); os primeiros nasceram para ser escravos, de sorte que os últimos pudessem dar-se ao luxo de gozar um modo mais nobre de vida.

           Aristóteles propõe que a característica essencial do ser humano é a vida em comunidade, e que almejar o bem e a felicidade só é possível sob a organização da comunidade, por isso nosso ponto de partida, a primeira grande característica do animal político: viver em comunidade, e percebe-se que comunidade está envolvido diretamente com a política, vale lembrar que pode ser designado também como sociedade e estado.

            A vida em uma comunidade política é uma tendência natural que as pessoas têm de se agruparem e ninguém pode ter garantido seu próprio bem sem a família e sem alguma forma de vida comunitária. Ademais Aristóteles diz que os indivíduos não se associam somente para viver, mas para viver bem: dos agrupamentos das famílias formam-se as aldeias e do agrupamento das aldeias forma a cidade cuja finalidade é a felicidade dos seus cidadãos.

Disponível em: Observatório Tecnológico (Acessado em 29/03/2016)

 

            Aristóteles pensa a comunidade como associação dos seres humanos, sendo a associação humana mais básica a família, e a comunidade tem que ser entendida como uma associação que os seres humanos possuem e que os mesmos fazem parte. Então, o animal político para Aristóteles é naturalmente o homem para além da sua condição animal, que existe para se dedicar a vida em comunidade, e nessa ideia Aristóteles está valorizando a coletividade o que nos conduz a três ideias iniciais do nosso ponto de partida: o centro da reflexão de Aristóteles é a comunidade e não o indivíduo; os seres humanos são sociáveis por natureza, isto é, são levados a viver em comunidade por sua própria natureza; e aqueles que não vivem em comunidade “ou são deuses ou são animais”, ou seja, ou estão acima ou abaixo do que é ser humano.

            Se o homem existe naturalmente para a vida em comunidade, a consequência direta disto é que somos também criados para agir politicamente, ou seja, para participar sempre da vida que compartilhamos com os outros, com nosso mundo externo, na família, na escola, no bairro, na cidade, no país, enfim, em qualquer lugar no qual nos associamos e pertencemos.

            Aristóteles vincula ainda a política com a virtude e o bem, sendo a virtude algo que deve ser atingida pela organização e ação coletiva da comunidade, não sendo possível pensar em ser feliz sem ser virtuoso sozinho.

Disponível em: Slideshare, slide 10 (Acessado em 29/03/2016)

 

            Aristóteles propõe também uma análise analítica de como o estado é constituído, ele parte da análise das partes em direção a um todo que é propriamente o estado, a vida social realizada em sua forma mais plena. Para se constituir o estado é necessário corretas distinções, sejam elas entre o estadista e o estado, entre um rei e seus súditos, entre um chefe de família e sua casa, entre senhores e escravos.

          Por fim é de Aristóteles, a clássica divisão dos governos em três principais: a monarquia (governo de um só); a aristocracia (governo de poucos); a república (governo de muitos); sendo que para cada forma justa de governo existe uma forma degenerada: a monarquia pode degenerar-se em tirania; a aristocracia em oligarquia; a república em demagogia

Partindo do princípio de que o fim do Estado é facilitar o alcance do bem comum, tanto Platão quanto Aristóteles dividem as constituições possíveis (ou seja, as possíveis formas de governo) em duas categorias: justas e injustas. Afirmam que ocorrem três formas de constituições justas e outras tantas injustas. Constituições justas são aquelas que servem ao bem comum e não só aos interesses dos governantes. Estas são a monarquia, isto é, o comando de um só que cuida do bem de todos; a aristocracia, isto é, o comando dos virtuosos, dos melhores, que cuidam do bem de todos sem se atribuir nenhum privilégio; a república ou politia, isto é, o governo popular que cuida do bem de toda a cidade. Ao contrário, constituições injustas são aquelas que servem aos interesses dos governantes e não ao bem comum. São elas: a tirania, ou seja, o comando de um só chefe que persegue o próprio interesse; a oligarquia, ou seja, o comando dos ricos que procuram o bem econômico pessoal; a demagogia a toda a diferença social em nome da igualdade (MONDIN, 1980, p. 121).

            Está é a base da classificação que irá nos oferecer também Políbio (200-120 a.C.): formas de governo monárquica, aristocrática e popular, as quais podem degenerar-se em outras três formas perniciosas de governo como o despotismo, a oligarquia e permissividade, respectivamente (POLÍBIO, 1985).

 

Referências Bibliográficas

ARISTOTELES. A política. 15. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1988.

____. Política. Trad. por Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1985.

____. Tópicos; Dos argumentos sofísticos. seleção de textos de José Américo Motta Pessanha ; tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W.A. Pickard. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. Vol. 1

MONDIN, B. Introdução à Filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. Tradução de J. Renard. São Paulo: Paulus, 1980.

MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo: historia da filosofia greco-romana. Tradução de Lycurgo Gomes da Mota. 2.ed. São Paulo: Mestre Jou, 1967. vol. II.

POLÍBIO. História. Brasília: UnB, 1985, Livro VI, §§ 299-300, pp. 328-331.

REALE, Giovanni. Aristóteles. História da filosofia grega e romana. Tradução de Henrique C. L. Vaz e Marcelo Perine. Nova edição corrigida. São Paulo: Loyola, 2007. vol. IV.

REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia. Filosofia pagã antiga, v. 1. São Paulo: Paulus, 2003.

 

Bibliografia sobre Aristóteles

 

Mário da Gama Kury (ARISTÓTELES, 1985, p. 6) ressalta como uma das principais fontes biográficas de Aristóteles o livro V da Vida dos Filósofos, de Diógenes Laércio “que viveu na primeira metade do século III d.C. mas usou fontes muito antigas, hoje perdidas”.

Apesar da importância de Aristóteles no campo da política, ele era um “meteco”, ou seja, um estrangeiro na cidade de Atenas e por isso nunca poderia participar da política ateniense. Aristóteles jamais poderia se envolver com a práxis política porque não possuía nem os direitos e nem as prerrogativas de um cidadão.