Existencialismo

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em mar. 2017

 

            Uma das principais correntes da filosofia contemporânea é a corrente do existencialismo. Abbagnano (2007, p. 402-406) destaca que, por existencialismo, costuma-se indicar um conjunto de correntes filosóficas cuja marca comum é a análise da existência entendida como o modo de ser do próprio homem Para o existencialismo a existência é o único fundamento do real, portanto, a existência é o ponto de partida da reflexão filosófica. A filosofia deve refletir sobre o homem no mundo, sobre o ser-no-mundo. A filosofia tem uma função eminentemente prática. O existencialismo destaca o valor da pessoa, da existência, da liberdade; acentua mais a vivência do que o ser; a existência é mais importante que a essência; insiste na autonomia do indivíduo. E a existência é o lançar-se contínuo às possibilidades sempre renovadas.

 

Disponível em: Slideshare, slide 11

Acesso em 25/02/2017

 

            Com o existencialismo, o racionalismo sofreu uma crise e passou por profundas transformações, que terão importantes consequências para a filosofia do período contemporâneo. Entre alguns dos autores representantes desta corrente temos o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (cujo pensamento veremos apenas brevemente, já que suas obras não lidam diretamente com a política, mas com problemas religiosos tais como a natureza da fé, a instituição da fé cristã, a ética cristã e a teologia) e o filósofo francês (ao qual será dedicada uma seção especial, basta clicar no link) Jean-Paul Sartre.

         Reale e Antiseri (2005, p. 216-217) destacam alguns pressupostos que identificam a corrente de pensamento existencialista:

 

1. O existencialismo se apresenta como uma manifestação da crise do hegelianismo, através do pessimismo de Arthur Schopenhauer, o humanismo de Feuerbach, na filosofia de Nietzsche e nas obras literárias de Dostoiewski e Kafka;

2. Suas raízes se encontram no pensamento de Kierkegaard, cujas ideias se difundiram na Alemanha com um sentido trágico da existência e uma lúcida consciência da radicalidade do mal e do nada;

3. O existencialismo tem na fenomenologia sua raiz próxima, entendido como análise da existência humana com o mundo das coisas e o mundo dos homens;

4. O existencialismo se expressa tanto filosoficamente quanto na literatura, sobretudo com Sartre, Simone de Beauvoir e Gabriel Marcel.

 

Entre os representantes mais destacados do existencialismo tem-se:

 

Imagem Disponível em:

Slideshare, slide 5

Acesso em 25/02/2017

 

 

Dinamarca: Soren Kierkegaard

Alemanha: Martin Heidegger e Karl Jaspers

França: Sartre, Simone de Beauvoir, Gabriel Marcel, Maurice Merleau-Ponty e Albert Camus

Rússia: Chestov e Berdjav

 

 

 

Soren Kierkegaard

 

            Para os historiadores da filosofia, Kierkegaard é considerado o pai do existencialismo, cujo pensamento nasceu principalmente das experiências de sua própria existência. Reale e Antiseri (2005, p. 223) destacam que a filosofia existencial Kierkegaard é um verdadeira teologia experimental ou uma autobiografia teológica que se desdobra em uma imponente literatura e Marilena Chauí (apud KIERKEGAARD, 1979, p. 10) reforça como a filosofia exisntecial de Kierkegaard surge da luta de sua própria consciência, intensa e exigente, e não de uma existência em geral, mas da de sua própria existência. É o próprio filósofo que afirma que a sua obra gira em torno de sua subjetividade e singularidade, o eu, existencialmente falando, existir como indivíduo. O singular é o singular-homem e para Kierkegaard, a verdadeira realidade é o existente, o singular, em oposição a um certo universalismo e idealismo abstrato do ser humano. Foi essa ênfase na existência concreta do indivíduo que fez com que Kierkegaard se afastasse cada vez mais do hegelianismo “cuja influência estendia-se a todos os setores intelectuais e até mesmo à teologia protestante, que estava impregnada de seu racionalismo” (CHAUÍ apud KIERKEGAARD, 1979, p. 11). O filósofo dinamarquês se lança contra o sistema hegeliano em favor do indivíduo pois na sua análise Hegel ignorava completamente em seu sistema a existência concreta do indivíduo. E Marilena Chauí (apud KIERKEGAARD, 1979, p. 16) acrescenta: “Kierkegaard combateu a filosofia hegeliana como um sistema que esvazia a existência humana de todo caráter concreto, dissolvendo-a em puros conceitos racionais”. Se para Hegel a espécie é superior ao indivíduo, Kierkegaard inverte essa relação e considera o homem, enquanto espírito – o indivíduo – superior a espécie.

            O pensamento de Kierkegaard é marcado pelo subjetivismo, pela ênfase na experiência pessoal, considerada como o que dá autenticidade à filosofia e pelo sentimento do trágico e da angústia. Para Kierkegaard, a filosofia deve se ocupar com o existente concreto e não somente com conceitos, como por exemplo, o conceito de homem, em geral, pois a nossa existência não é, em absoluto, um conceito. É preciso compreender a existência humana. Kierkegaard considera a existência como o reino do devir, do vir-a-ser, do contingente; é o reino da liberdade. O homem é o que ele escolhe ser, assim, o modo de ser da existência é a possibilidade: o homem é o que se torna. “A noção de ‘escolha’ constitui uma das idéias fundamentais da filosofia de Kierkegaard. Ela seria o próprio núcleo da existência humana” (CHAUÍ apud KIERKEGAARD, 1979, p. 17). Um exemplo disto nos é dado através da obra Diário de um Sedutor (CHAUÍ apud KIERKEGAARD, 1979, p. 17) em que “o personagem central penetra no mais fundo abismo da paixão, ‘escolhendo’ viver a existência amorosa em todas as suas contradições”.

            Ao desenvolver seu pensamento a partir de sua experiência íntima e pessoal no transcurso de sua filosofia vão se agregando aspectos de sua existência.  O filósofo vive momentos de profunda depressão, uma amargura sem limites.  Porém, esta energia negativa se transforma em inspiração para a produção literária que aborda temas diversos da existência humana, sendo um deles a liberdade.

            A existência é liberdade, é poder-ser, é possibilidade: de escolher ou não escolher, de ficar paralisado ou fazer-se. A existência é liberdade e, consequentemente, angústia, angústia da livre escolha entre as mais diversas possibilidades e ainda: “A angústia caracteriza a condição humana: quem vive no pecado, se angustia pela possibilidade do arrependimento; quem vive, tendo-se libertado do pecado, vive na angústia de nele recair” (REALE; ANTISERI, 2005, p. 233). O tema da angústia é tratado na obra O conceito de angústia (KIERKEGAARD, 1968), de 1844.

            O filósofo entende que não existe qualquer predeterminação relativa ao ser humano. Tal indeterminação e liberdade conduzem o homem a uma angústia constante e cada ação leva a uma decisão como um ato arriscado. O homem está sempre por fazer-se, ele é artífice de si mesmo, mas a sua existência, no existencialismo cristão de Kierkegaard, foi recebida de Deus e a mais alta realização que o homem pode efetuar de si é tornar-se aquele eu que é por vocação diante de Deus. A religião sempre foi para Kierkegaard uma fonte de inspiração e um espaço de reflexão e existência. É na religião, ou mais especificamente na ideia de Deus, que surge uma palavra chave: o amor. É por amor que Deus deve decidir-se eternamente a agir, mas como seu amor é a causa, seu amor deve também ser o fim. Segundo Kierkegaard, “Deus encontra sua alegria em vestir ao lírio com mais esplendor que Salomão” (apud CANCLINI, 1956, p. 59).  O amor de Deus não somente ensina, mas também leva a um novo nascimento do discípulo, passando do não ser ao ser, pois “o fazer nascer pertence a Deus cujo amor é regenerador” (CANCLINI, 1956, p. 68).

            A filosofia de Kierkegaard assume ainda um caráter socrático do autoconhecimento – não há outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade, o aprofundamento da subjetividade – e o exame concreto do homem religioso historicamente situado – o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduo diante da verdade cristã. Kierkegaard considera Sócrates como precursor da filosofia da existência. Das influências que recebe parte de um conceito amplamente utilizado por Sócrates, o conceito de ironia – tema da sua Dissertação de 1841 onde escreve o conceito de ironia relacionada a Sócrates – e reconhecia sabedoria na ignorância socrática – “Tudo o que sei é que nada sei” –, renunciar a todo saber curioso para ser simplesmente ignorante diante de Deus. Segundo Álvaro Valls (apud KIERKEGAARD, 1991, p. 9), Kierkegaard “a si mesmo se denominava, com alguma ironia, o ‘mestre da ironia’ (pois a dissertação lhe deu o título de ‘Magister’)”. Cabe ressaltar que o conceito de ironia em Sócrates diz respeito ao método com o qual o filósofo grego: “Encarna a pergunta sem resposta. Chega à dialética [o método do diálogo], mas não desenvolve a dialética da idéia (o que só começará com Platão...)” (VALLS apud KIERKEGAARD, 1991, p. 9). Sócrates, grosso modo, plantava a dúvida em seu interlocutor sobre um determinado conceito, do qual se acreditava ter a verdade e demonstrava que na realidade não se sabia coisa alguma e, tampouco, Sócrates chegava a uma conclusão definitiva em seu diálogo deixando na maioria das vezes uma pergunta sem resposta. Sobre a dissertação kierkegaardiana, Valls (apud KIERKEGAARD, 1991, p. 10) afirma ainda que esta expõe o método irônico kierkegaardiano.

            Por fim e não menos importante em sua teoria, Kierkegaard determina três estágios essenciais na existência humana: o religioso, o ético e o estético. O estágio superior é o religioso pois a fé que o apoia é uma relação pessoal, unicamente subjetiva, relacionada com Deus. E é somente através da fé que ele pode superar a angústia de sua indeterminação e liberdade. E é somente através da religião (da fé), que o homem pode amenizar sua angústia, resultado de sua própria existência. A nossa angústia resulta do reconhecimento da finitude e da morte e, por isso, é preciso ir além da filosofia, é preciso chegar à teologia, pois somente a fé nos dá garantias de nossa sobrevivência; mas uma fé que não busca essa garantia através da razão e sim que simplesmente obedece cegamente a algo que está além do nosso entendimento, como na história de Abraão, no Velho Testamento, a quem Deus ordena que sacrifique seu filho Isaac. Abraão não pede razões, não busca entender a ordem de Deus, simplesmente obedece, porque tem fé. A questão do significado da fé é tratada principalmente na obra Temor e tremor (KIERKEGAARD, 1979), de 1843.

 

Quando Deus exige de Abraão o sacrifício de seu filho Isaac, Abraão, dentro do nível ético, está diante da necessidade de cometer uma transgressão absolutamente proibida. Abraão não tem saída a não ser pelo salto do ético ao religioso. Em outros termos, Abraão deve saltar para a fé, aceitando o absurdo da exigência divina e concordando com uma suspensão do ético, em favor do religioso. Em tais situações críticas, a escolha que o indivíduo sente-se obrigado a fazer independe de quaisquer critérios racionais, isto é, as regras gerais e universais não podem ajudá-lo (CHAUÍ apud KIERKEGAARD, 1979, p. 17).

 

            No estágio ético, o homem deve orientar o seu comportamento por normas universais. Esse estágio ético se situa numa posição inferior ao religioso e acima do estético. No estágio estético, o homem busca fugir da angústia por meio do prazer, ignorando o próprio eu (VÁSQUEZ, 2003, p. 286), como é o caso do personagem da obra Diário de um Sedutor, citada mais acima. Comparando um estágio com o outro, Marilena Chauí (apud KIERKEGAARD, 1979, p. 17) afirma que um contrasta com o outro pois o modo de vida ético instaura-se no terreno do dever e de regras universais.

 

            Reale e Antiseri (2005, p. 237) nos oferecem um esquema com um resumo da filosofia existencial de Kierkegaard:

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução de Alfredo Bossi. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

CANCLINI, Arnoldo. Fragmentos Filosóficos. Buenos Aires: Imprensa Metodista, 1956.

KIERKEGAARD, Soren. Diário de um sedutor; Temor e tremor; O desespero humano. Introdução de Marilena de Souza Chauí. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).

____. O conceito de angústia. São Paulo: Hemus, 1968.

____. O conceito de ironia: constantemente referido a Sócrates. Apresentação e Tradução de Álvaro L M. Valls. Petrópolis: Vozes, 1991.

REALE, G.; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: 5: do romantismo ao empiriocriticismo. São Paulo: Paulus, 2005. (Coleção História da Filosofia).

VÁSQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. 24. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.