Filósofos Brasileiros

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em mar. 2017


 

            A filosofia no Brasil, naturalmente, é um movimento recente e podemos dizer que de alguma forma tem uma raiz aristocrática. Nos tempos de colônia o pensamento filosófico no Brasil estava restrito aos poucos senhores ricos sendo, portanto, um privilégio de alguns. Esses poucos que detinham o conhecimento da filosofia a adquiriam por intermédio dos Jesuítas e por isso recebiam uma educação humanista e escolástica. Neste contexto conhecer filosofia era antes uma questão de status e sinal de grande cultura e conhecimento das ideias em voga na Europa.

            No século XIX a filosofia foi “trazida” para o Brasil através daqueles que se mudaram para a Europa com o objetivo de receber uma formação superior. Sabemos que a nossa elite enviava os filhos para a Europa para estudar Teologia ou Direito. Os que faziam Teologia voltavam comprometidos com o tipo de filosofia que a Igreja lhes impunha, impedidos, portanto, de ir além do que interessasse à religião. Os que estudavam Direito, por outro lado, voltavam entusiasmados e desejosos de expor seus conhecimentos e muitas vezes enfeitiçados por algum pensamento filosófico em vigor lá do outro lado. Nas Escolas de Direito, portanto, compartilhavam seu saber e tratavam de expandir estas formas de pensar e filosofar. Sendo Bacharéis, passou esta prática a ser chamada filosofia jurídica bacharelesca. São representantes desta filosofia: Clóvis Bevilacqua, Farias Brito e outros.

            O século XX até o ano de 1914, quando tem início a primeira grande guerra, é tão somente uma continuidade do século de XIX em termos de pensamento no Brasil. Poucos são as “novidades” importadas da Europa, bem como poucos são os movimentos internos de renovação do nosso pensamento. O único deles é a crescente importância atribuída aos estudos sociológicos, que fazem com que os jovens voltem-se para os problemas e pensamentos pátrios.

            O positivismo, ao lado do ecletismo, foi o pensamento que dominou a mentalidade brasileira neste período. Mas estas correntes não foram as única que se fizeram presentes. Considerando que a mentalidade brasileira parece ser mais voltada para questões práticas e problemas concretos do que que para as questões mais abstratas, uma das correntes filosóficas adotadas em nosso país foi o pragmatismo de William James e John Dewey. Mas lado do pragmatismo podemos acrescentar a esta lista de “filosofias importadas” o intuicionismo bergsoniano e o neotomismo.

            É válido ressaltar ainda a Escola de Recife como uma recepção de ideias originais. A Escola do Recife, longe de se constituir em simples exibição de ideias estrangeiras, as selecionou e combinou livremente a partir de “coordenadas” nacionais. A Escola do Recife desenvolveu-se em quatro fases distintas, sendo a primeira, de simples participação no surto de ideias novas, a segunda, de uma busca de posição própria, seguidas de apogeu e declínio. A Escola do Recife consistiu de uma orientação filosófica progressiva, que não impedia a cada um investigar por sua conta e ter ideias próprias. A Escola do Recife abriu ao nosso pensamento jurídico novos horizontes; lançou as bases para a abordagem da sociologia como disciplina independente e trouxe à luz toda a problemática da historiografia brasileira.

 

 

O positivismo no Brasil

 

            A maior influência no início do século XX no Brasil foi, sem dúvida, a influência positivista. As linhas do positivismo brasileiro têm como princípios de identidade e distinção:

 

1) um positivismo ortodoxo e dissidente que tinha como escopo principal preservar a doutrina de Auguste Comte em sua pureza original em pensadores como: Miguel Lemos, Teixeira Mendes e Pereira Barreto, sendo o seu período de maior atividade aquele liderado por Miguel Lemos (1854/1916), que instituiu Igreja Positivista do Brasil, e Teixeira Mendes (1855/1927).

2) uma corrente política de inspiração positivista cuja popularidade inicial pode ser atribuída a Benjamim Constant.

3) um republicanismo totalitário, de inspiração comteana: tornou-se a corrente política dominante no país e teve início com a ação do grupo rio grandense liderado por Júlio de Castilho (1860/1903).

4) um positivismo na formação da elite militar: circunscrito ao período inicial da República, de tendência totalitária, “o chamado tenentismo tinha, embora incerto e confuso, um fundo anti-parlamentar e anti-partidário; sua ala direita evoluiu para uma espécie de fascismo, ao passo que a esquerda descambava francamente no comunismo” (Antônio Paim, 1984).

5) o neopositivismo no Brasil, através de pensadores como Amoroso Costa, Teodoro Ramos e Miguel Almeida, sendo a obra mais representativa a de Pontes de Miranda. Enquanto as principais figuras estrangeiras do neopositivismo eram matemáticos, físicos, biólogos, o pensador brasileiro interessava-se antes de mais nada pelo direito; a mensagem liberal parece ser o fio condutor que atravessa toda a obra do jurista que enxergou no movimento patrocinado pelo Círculo de Viena, a possibilidade de preservar o humanismo e dar ao liberalismo nada menos que fundamentos científicos irremovíveis.

 

            Nesse contexto vale destacar o pensamento de Miguel Lemos que, ao lado de Teixeira Mendes, é o maior nome do positivismo religioso no Brasil. É curioso notar que a sua adesão ao positivismo se dá precisamente através do littreismo que nega o positivismo religioso. 

            Seu primeiro contato com o pensamento de Comte foi em 1874 através do livro Sistema de Filosofia Positiva, onde, Miguel Lemos, encontrou uma filosofia dotada do mesmo caráter de certeza peculiar às ciências já constituídas e abrangendo em sua coordenação os fenômenos políticos e sociais. Após a leitura do Sistema de Filosofia Positiva  lê o livro biográfico de Littré sobre Comte. Fator que determina o seu repúdio às últimas obras de Comte e a rejeitar a religião da humanidade, entregando-se completamente às ideias de Littré. Nessa fase seu pensamento é caracterizado pelo ardor cívico, vê na filosofia que adotara as bases de uma política racional, inspirador do lema “ordem e do progresso”. Miguel Lemos conheceu Littré em uma viagem que fez à Paris em 1877 e logo se desencantou com ele, por considerá-lo um “filósofo de gabinete” e sem nenhuma ação social.

            Impressionado com as ideias de um outro discípulo de Comte, Pierre Laffite, Miguel Lemos renuncia ao littreismo e se converte à religião da humanidade, adotando assim o positivismo religioso. Miguel Lemos foi um ardente e apaixonado defensor da pureza das ideias comteanas, o que faz dele um defensor ortodoxo do positivismo. Esse entusiasmo ortodoxo faz dele o maior divulgador do positivismo no Brasil. Tendo recebido o grau de aspirante ao sacerdócio da humanidade, assumiu, ao retornar ao Brasil, a presidência da sociedade positiva do Rio de Janeiro, transformando-a, logo em seguida, na primeira Igreja Positivista do Brasil. Organizou a ação positivista segundo as regras traçadas por Comte no seu Manifesto Inicial da Sociedade Positivista de Paris, atendendo assim as necessidades essenciais da doutrina: formar crentes, desenvolver o culto, organizar o ensino, e modificar a opinião por meio de intervenções oportunas nos negócios públicos.

            Já Tobias Barreto pode ser considerado um ardoroso crítico do positivismo no Brasil, mas do positivismo como um todo mas sim em função do seu empenho em prol do restabelecimento da metafísica. Tobias Barreto se opõe a aspiração positivista, cuja aceitação implicava na rejeição não apenas da metafísica, como da própria religião tradicional.

 

 

Outras correntes de pensamento

 

            Após a primeira grande guerra surge um movimento diferente dos até então ocorridos que é o movimento modernista. Se bem que é ainda um movimento preso ao passado colonial, contudo é uma tentativa de superar essa situação e conquistar uma independência do pensamento nacional. Tupy or not tupy eis o lema desse movimento que tinha por meta criar uma coisa bem nossa, bem brasileira e nos libertar assim do nosso complexo de inferioridade. Tupy or not tupy é uma frase do irreverente Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade.

            Vale destacar aqui também a fundação em 1918 da União Maximalista, e em 1922 a fundação do partido comunista, que teriam papel fundamental na difusão das ideias anarquistas e marxistas no país.

Outra vertente do pensamento filosófico brasileiros diz respeito ao movimento católico brasileiro do século XX do qual Jackson de Figueiredo é seu renovador e expressão da reação católica contra as ideias socialistas que se acentuariam logo depois da primeira grande guerra. Não fora um filósofo no sentido restrito da palavra, mas um pensador profícuo que orientava sua atividade para a ação católica. Condensador das três tendências que se vinham desenvolvendo: o materialismo, o espiritualismo e o ceticismo, ultrapassando todas por meio da Síntese Católica. O catolicismo era para ele a visão inesperada da verdade, da ordem, da paz, da valorização completa do homem.

            Admirador declarado de Farias Brito, sem contudo ser seu discípulo, seu pensamento foi bastante influenciado pelo espiritualismo deste. Farias Brito seria responsável pela primeira etapa no caminho de sua conversão. Jackson de Figueiredo foi um homem a procura da verdade. Seu pendor para as extremas, ora para o negativismo integral, ora para o dogmatismo absoluto, é o índice claro de sua busca. Tinha horror a qualquer tipo de relativismo.

 

 

Referências Bibliográficas

 

PAIM, Antônio. História das idéias filosóficas no Brasil. 3. ed. São Paulo: Convívio/INL, 1984.