Pietro Ubaldi

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em mai. 2017

 

            Pietro Ubaldi (1886-1972) foi um pensador italiano, místico e espiritualista, que escreveu um total de 24 obras onde expõe toda a sua visão filosófica, teológica e científica sobre o mundo, destacando-se como um grande pensador cristão do século XX. Embora não seja um filósofo e nem um cientista no sentido restrito da palavra, suas teorias estão repletas de questões científicas e filosóficas que se interligam diretamente com seu pensamento religioso, sobretudo o cristianismo, que serve de base e fundamento. Dentre suas obras destacam-se aquelas que são intituladas de a trindade teológica – na expressão de José de Amaral, biógrafo de Ubaldi: A Grande Síntese (1935), Deus e Universo (1951) e O Sistema - Gênese e Estrutura do Universo (1959).

            Ubaldi não chegou a escrever um livro específico sobre Política, mas no conjunto de suas obras aparecem vários capítulos que versam sobre temas como o Estado, o Chefe de Estado, o Capitalismo e o Comunismo, a Propriedade Privada e muitos outros. Primeiramente vamos fazer uma breve digressão de modo geral sobre o seu pensamento para, depois, abordar os aspectos mais políticos de sua obra.

            No livro Grandes Mensagens (GM) – o primeiro livro de sua extensa obra –, encontramos uma exposição de José Amaral (apud UBALDI, GM, p. 30-207) intitulada Pietro Ubaldi e o Terceiro Milênio dividida em três partes: a primeira que trata da vida de Pietro Ubaldi na Itália (UBALDI, GM, p. 30-85); a segunda que trava da vida de Ubaldi no Brasil (UBALDI, GM, p. 85-150); e uma terceira parte que trata das obras e das reencarnações de Ubaldi (UBALDI, GM, p. 150-185). É com base nessa leitura que iremos abordar alguns aspectos biográficos.

            A primeira etapa de sua missão ocorreu na Itália, onde escreveu a primeira parte do conjunto de suas obras, ao todo 10 obras mais Grandes Mensagens. Na Itália Ubaldi atuou como professor de inglês depois de fazer um concurso onde foi aprovado e nomeado para o Liceu Tomaso Campailla, em Módica, na Sicília, no sul da Itália. Um ano depois, em 1932, fez novo concurso para o mesmo cargo e foi removido para a Escola Média Estadual Oraviano Nelli, em Gúbio, no norte da Itália onde trabalhou durante 20 anos, vivendo em um quarto humilde de uma pensão, em razão do voto de pobreza franciscana que faz ao longo da vida, abandonando inclusive a fortuna que recebera por parte da família.

            A parte italiana da obra de Ubaldi é composta por: Grandes Mensagens (GM), A Grande Síntese (GS), As Noúres, Ascese Mística, História de um Homem, Fragmentos de Pensamento e de Paixão, A Nova Civilização do Terceiro Milênio, Problemas do Futuro, Ascensões Humanas e Deus e Universo. Este último é a linha divi­sória entre as duas obras: a italiana e a brasileira.

            A segunda e última etapa da sua missão ocorreu no Brasil, onde foram escritos os demais livros, dos 65 aos 85 anos, a partir de 1951 quando aqui esteve para concluir sua missão. Inicialmente Ubaldi veio ao Brasil para um série de palestras e conferências e foi só em 1952 que ele se mudou definitivamente para este país. Ubaldi desembarcou no porto de Santos no dia 8 de dezembro com sua esposa, filha e duas netas. O próprio Ubaldi ressalta que possuía uma instintiva atração pelo Brasil embora não pudesse imaginar que aqui finalizaria sua missão. Basta lembrar que sua tese de formatura em Direito, quando tinha 24 anos, foi sobre o Brasil: Emigração Transatlântica, especialmen­te para o Brasil. E mais de 40 anos depois, aqui estaria em terras tupiniquins. A segunda e última etapa de sua obra escrita no Brasil é composta por: Profecias, Comentários, Problemas Atuais, O Sistema, A Grande Batalha, Evolução do Evangelho, A Lei de Deus, A Técnica Funcional da Lei de Deus, Queda e Salvação, Princípios de uma Nova Ética, A Descida dos Ideais, Um Destino Seguindo Cristo, Pensamentos, Cristo.

 

 

Algumas particularidades da vida de Ubaldi

 

            O filósofo grego Sócrates, através da pena de Platão, falava do seu daimon, que pode de modo geral ser traduzido como “espírito” ou “divindade”, e pode ser associado a um “espírito protetor” ou um “guia de almas”. Essa é uma compreensão que Costa (2001) sugere a partir da obra Fédon de Platão, embora reconhecendo que a forma como Platão utilizou o termo daimon não constitui uma tarefa fácil:

 

cada alma é conduzida por um daímon, que acumula a dupla função de acompanhar cada homem em sua vida e, após a morte, de conduzi-la ao lugar estabelecido pelos deuses. Ainda segundo essa tradição, as almas que conduziram a sua vida da melhor forma possível e que compreendem a situação pós vida, acompanham o seu guia obedientemente, mas, as que se apegaram em vida ao corpo, resistem e são conduzidas a força pelo seu daímon (107 c-d, 108 a-b, cf. 113 d apud COSTA, 2001, p. 103).

 

            De modo similar Pietro Ubaldi escreveu sua obra inspirado no que ele chamou de Sua Voz, uma voz que chegava até ele por caminhos interiores e íntimos, manifestando-se “como uma audição interior de conceitos, num contato tão direto, que estes nem sequer eram formulados em palavras. Sem dúvida era distinta de mim, de minha consciên­cia normal cotidiana, porque me guiava, governava, pregava” (UBALDI, GM, p. 57). Ubaldi chamou de Sua Voz o que posteriormente designou como fontes noúricas ou correntes de pensamentos, que não poderia ser individualizada. Foi através de Sua Voz que Ubaldi escreveu suas obras, inundado por estas correntes de pensamento que vibram intimamente e poderosamente.

            Os primeiros capítulos de sua primeira grande obra – A Grande Síntese – foram ditados por Sua Voz em 1932 e até 1935 foram escritos todos os 100 capítulos que a compõem. A obra seguinte – As Noures – de 1936, explica o processo de recepção de A Grande Síntese, ou seja, como Ubaldi entrou em sintonia com Sua Voz que o inspirou. Amaral (apud UBALDI, GM, p. 73) pondera que

 

O fenômeno inspirativo sempre existiu e continuará exis­tindo. Ele abrange literatos, poetas, cientistas, filósofos, santos, gê­nios da arte, da pintura, da escultura, da música etc. O inspirado se sintoniza com as esferas mais elevadas e através da intuição capta as revelações, das quais o mundo necessita e se beneficia para o seu avanço espiritual

 

            A serenidade com que Ubaldi se colocou diante da morte também nos remete a Sócrates. Como afirma Peixoto (2010, p. 664):

 

nenhum pensador se deparou com a questão da morte de forma mais serena do que esse filósofo [Sócrates]. Sócrates pensou e discutiu a morte enquanto esperava o cumprimento de sua pena: a própria morte. Mesmo nos instantes em que se aproximava dela não se desesperou, mas manteve-se sereno, lúcido e crítico. Sua atitude diante da morte foi uma atitude filosófica, porque se ocupou em compreender o seu sentido.

 

            Assim também Ubaldi se colocava de forma serena diante da morte e chega a falar no assunto com certa felicidade, pois como ele mesmo afirma em entrevista a José Amaral,

 

Para o homem espiritual a morte tem um sentido comple­tamente diverso do comum [...] Para mim a morte é libertação, é vida melhor e maior, é juventude, é plenitude, é ir ao encontro de uma existência imensa, cada vez mais rica. Como se pode então deixar de olhar para tudo isto, com um sentido de felicidade? (UBALDI, GM, p. 138).

 

            Já próximo de sua morte, Ubaldi permanecia sereno, como sempre fora, e até feliz por ver aproximar-se o término de sua missão na Terra. Ubaldi não se assustou diante da possibilidade da morte, ao contrário de muitos de nós, mas recebeu-a de “braços abertos”. 1972, aos 85 anos, foi o último ano de vida de Ubaldi na Terra “daquele servo de Cristo, que recebeu de Suas mãos dez talen­tos e multiplicou por outros dez” (UBALDI, GM, p. 140).

 

 

Uma política de bases espiritualistas

 

            Como o propósito deste website é articular a Ciência Política em seu aspecto multidisciplinar, interdisciplinar, transdisciplinar e transpessoal, julga-se relevante a exposição das ideias de Pietro Ubaldi para uma compreensão do homem como animal político de bases espiritualistas. Iniciaremos com sua primeira grande obra – A Grande Síntese (GS) –, que como o próprio nome sugere, consiste de uma síntese do saber humano onde são abordados temas de diferentes ramos do conhecimento científico, filosófico, religioso, moral e social, embora limitando-se, aqui, a enfatizar principalmente os aspectos do seu pensamento que dizem respeito diretamente à política.

            Dentre os capítulos de A Grande Síntese que abordam diretamente o fenômeno político, podemos destacar:

 

Capítulo 76: Cálculo de Responsabilidades

Capítulo 79: Lei do Trabalho

Capítulo 86: Conclusões – Equilíbrios e Virtudes Sociais

Capítulo 90: A Guerra – A Ética Internacional

Capítulo 91: A Lei Social do Evangelho

Capítulo 92: O Problema Econômico

Capítulo 93: A Distribuição da Riqueza

Capítulo 94: Da Fase Hedonística à Faze Colaboracionista

Capítulo 95: A Evolução da Luta

Capítulo 96: Concepção Biológica do Poder

Capítulo 97: O Estado e sua Evolução

Capítulo 98: O Estado e suas Funções

Capítulo 99: O Chefe

 

            Vamos tentar aqui fazer uma síntese das ideias presentes nestes capítulos, sem necessariamente seguir a ordem aí disposta. De início é preciso considerar as bases espiritualistas e evolucionistas do pensamento de Ubaldi, sem o que seu pensamento não pode ser compreendido, ou seja, que a realidade material não é a única existente. A esta é preciso acrescentar uma realidade espiritual, que evolui ao longo das eras e dos tempos, com o objetivo de alcançar a perfeição do espírito, tendo no Evangelho de Cristo seu mais importante guia, uma espécie de farol luminoso, cuja compreensão significará a realização do Reino de Deus na Terra: “o Evangelho, que colocamos no ápice da evolução das leis da vida” (UBALDI, GS, p. 132). Além das leis e da justiça humana existe uma outra, divina, invisível, eterna e em seu processo evolutivo o ser adquiri a liberdade de escolha, de obedecer ou não a lei, mas que também é acompanhada de responsabilidade, relativa ao grau de evolução. Um mesmo ato pode ter valor e significado diverso de acordo com os tipos humanos existentes e, por isso, o grau de responsabilidade também é relativo, vinculado ao nível evolutivo.

            Existe uma Lei maior que não é apenas moral, mas que tem consequências para a vida social e comunitária cuja expressão máxima, em nosso mundo, se reflete na Boa Nova do Evangelho. Entre outas coisas essa Lei diz que “a cada um será dado segundo suas obras”, por isso é fácil compreender que existe um senso de responsabilidade para as ações humanas, diretamente vinculado a existência dessa Lei. O princípio da evolução que não é apenas material como pensou Darwin, mas igualmente espiritual, equaciona o problema da responsabilidade com os princípios de bem e mal. A evolução é um trabalho que deve ser realizado individual e coletivamente. Tal é o objetivo da vida, a sua função mais alta. Através da compreensão do fenômeno evolutivo é possível entender também como, uma vez reconstruído o passado, é possível calcular com uma certa precisão lógica e pelo princípio universal de causalidade, os fatos presentes e aqueles futuros, tanto do indivíduo quanto da coletividade.

            Avançando um pouco mais na compreensão social do pensamento de Ubaldi, é preciso salientar como este apresenta uma concepção orgânica do universo onde as forças sociais correspondem a uma espécie de “alma coletiva” que em último grau corresponde ao Estado. A concepção orgânica do universo se desdobra em um conceito orgânico do Estado, como um organismo biológico coletivo, que evolui ao longo das eras, passando pela Idade Média, quando ainda não havia o Estado, até passarmos pela Revolução Francesa e chegarmos ao século XX. “Imaginai a força de um povo que se tornou organismo!” (UBALDI, GS, p. 143). Cada homem, mulher, jovem, criança, idoso são partes essenciais desse organismo e por isso, inevitavelmente devem se considerar como irmãos. Não se pode agredir a ninguém sem agredir a si mesmo e o organismo. Nesse entendimento, indivíduo e Estado se fundem de forma orgânica, mas sem anulação da identidade e da individualidade.

 

Este é o organismo situado no centro do organismo social, concentrador de poder dirigente de todas as funções de um povo. Compreendido dessa maneira como poder, ele é o órgão motor psíquico promotor e coadjutor das maturações biológicas, individuais e sociais, que vimos. Sua função é de formar o homem, de estimular as ascensões humanas; sua meta mais alta é criar no campo do espírito (UBALDI, GS, p. 139)

 

            Os fenômenos sociais correspondem, por analogia, aos fenômenos biológicos. E em certo sentido é a mesma analogia da sociedade como um organismo do sociólogo Émile Durheim (2005) que encontramos em sua obra As Regras do Método Sociológico – inclusive vale ressaltar o conceito sociológico de consciência coletiva de Durkheim embora seja preciso ressaltar que seria preciso uma análise mais detalhada para ver até que ponto é possível estabelecer esta comparação. Para Ubaldi a sociedade humana equivale a um imenso organismo, sustentada por leis e equilíbrios de modo similar. Um imenso organismo com diferentes órgãos sociais (Estado, família, Igreja) cada um com sua função específica para o funcionamento do todo. E a própria História da humanidade deve ser entendida a partir de um funcionamento orgânico, uma realização progressiva de metas individuais e coletivas que se vão realizando dentro de um ciclo de nascimento e morte das civilizações, ciclos de maturação e esgotamento, de renascimento das civilizações como dos indivíduos.

            A sociedade constitui uma forma orgânica que alcançou maior maturidade com o surgimento do Estado. Durante a Idade Média a existência era mais individualizante até chegar na modernidade a um ciclo de conquistas mais coletivas. A partir da modernidade, “Não se concebe mais o indivíduo isolado, mesmo se for santo, numa fuga mística da companhia humana, mas o indivíduo fundido nela em colaboração fecunda” (UBALDI, GS, p. 141).

            Ao Estado compete as funções econômica e produtiva, social e moral, não como um poder central dominador como nas antigas monarquias, mas como um cérebro (função orgânica) de seu povo. O Estado é um organismo ético que deve absorver todas as atividades em função do principal objetivo que é a evolução da humanidade, dando-lhes conteúdo moral e social.

            A primeira e mais importante função do Estado é ser instrumento de evolução. O Estado é o órgão base das ascensões humana e educar para este fim é a sua primeira tarefa substancial.

 

Pela altitude e intensidade com que tiver sabido educar, mede-se o valor de um governo. A pedra de toque de uma religião, filosofia, sistema político, é determinada pela quantidade de luz que tiverem sabido fixar na alma humana: reside na medida em que tenham conseguido tornar o homem melhor (UBALDI, GS, p. 143)

 

            A teoria social ubaldiana apresenta um sistema que pretende ser universal, sem preconceitos exclusivistas de casta, nação ou raça e aceita fraternalmente qualquer tipo de crença, sem condenar nenhuma, desde que sincera e voltada para o bem. Endereça-se a todos os povos, de todos os tempos, de todas as nações. É uma visão universal que não se impõe ou antepõe este ou aquele sistema político, mas que pretende incluir todas as concepções políticas sãs, igualmente sinceras, que ajudem os povos a realizar o seu progresso individual e coletivo.

            Tanto os povos quantos os indivíduos – afirma Sua Voz na mensagem de 1931 –, têm responsabilidade nas transformações históricas, e seguem um curso lógico, “um encadeamento de causas históricas que, se são livres nas premissas, são necessárias nas consequências”.

 

 

Referências Bibliográficas

 

COSTA, Valcicléia Pereira da. O “daimon” de Sócrates: conselho divino ou reflexão? Cadernos de Anais da ANPOF, n. 1, p. 101-109, 2001. Acesso em 02/04/2017.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2005.

PEIXOTO, Adão José. Sócrates, a filosofia e a questão da morte. Fragmentos de Cultura, v. 20, n. 9/10, p. 663-682, set./out., 2010. Acesso em 02/04/2017.

UBALDI, Pietro. A Grande Síntese – síntese e solução dos problemas da ciência e do espírito. 18. ed. Tradução de Carlos Torres Pastorino e Paulo Vieira da Silva. Fraternidade Francisco de Assis, 1997. (Obras completas de Pietro Ubaldi, vol. 2).

____. Grandes Mensagens e Pietro Ubaldi e o III Milênio. 6. ed. Tradução de Clóvis Tavares. (Obras completas de Pietro Ubaldi, vol. 1).