Auguste Comte

por Alexsandro M. Medeiros

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            Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (1789-1857) foi o fundador do Positivismo. Em sua vida acadêmica recebeu influências de cientistas como o físico Sadi Carnot, o matemático Lagrange (de quem posteriormente Comte inspirou-se para vir a abordar os princípios de cada ciência segundo uma perspectiva histórica) e o astrônomo Pierre Simon Laplace. O fator mais decisivo para sua formação foi, porém, o estudo do Esboço de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano, de Condor­cet (1743 - 1794), ao qual se referiria, mais tarde, como “meu imediato predecessor” e que levou Comte a desenvolver sua famosa “Lei dos Três Estados” como veremos mais adiante. A obra de Condorcet traça um quadro do desenvolvimento da humanidade, no qual os descobrimentos e invenções da ciência e da tecnologia desempenham papel preponderante, fazendo o homem caminhar para uma era em que a organização social e política seria pro­duto das luzes da razão: ideia que iria se tornar um dos pontos fundamentais da filosofia de Comte. Mas sua maior influência foi de Saint Simon.

 

Saint-Simon era cuarenta años mayor que Comte y ejerció sobre el joven secretario uma influencia decisiva [....] Era tan marcada la influencia que los primeiros ensayos de Comte parecieron simples transcripciones de las ideas de Saint-Simon, de modo que Augusto se vio en la necesidad de alejarse de su mentor para alcanzar un estilo próprio (VELÁZQUEZ, 2006, p. 29).

 

            Sobre Saint-Simon, Comte escreveu em uma carta de 1818:

 

Pela cooperação e amizade com um desses homens que vêem longe nos domínios da filosofia política, aprendi uma multidão de coisas, que em vão procuraria nos livros; e no meio ano durante o qual estive associado a ele meu espírito fez maiores progressos do que faria em três anos, se eu estivesse sozinho; o trabalho desses seis meses desenvolveu minha concepção das ciências políticas e, indiretamente, tornou mais sólidas minhas idéias sobre as demais ciências (COMTE, 1978, p. VI).

 

            Menos de uma década depois Comte separou-se de Saint-Simon, em razão deste discordar das ideias de Comte em sua publicação intitulada Planos de Trabalho Científico Necessários à Reorganização da Sociedade.

            Logo em seguida Comte começa a elaborar as lições do Curso de Filosofia Positiva (1826). Alguns dos maiores nomes da época freqüentavam suas aulas, como o fisiólogo Henri­ Marie de Blainville (1777-1850) e o psicólogo Jean-Étienne Esquirol (1772-1840). Sofrendo, porém, sério esgotamento nervoso, que chegou ao ponto de uma tentativa de suicídio, viu-se obrigado a interromper seu trabalho. Ao recuperar-se de seu esgotamento nervoso publicou sua primeira grande obra o Cours de philosophie positive, constituída de seis volumes e publicada entre 1830-1842 (acesse a obra complea do Cours no original na seção Autores e Obras: Auguste Comte). E em 1844 Comte publica o Discours sur l’esprit positif, obra que procura explicar numa linguagem mais simples o Curso editado em seis volumes. Posteriormente vieram: Sistema de Política Positiva, em 4 vols, (1851-1854) – Système de politique positive; Catecismo Positivista, (1852) – Cathéchisme positiviste; Appel aux conservateurs (1855); Synthèse subjective (1856). Não menos importante foram as influências de amigos e admiradores, como o filósofo John Stuart Mill (1806-1873) e o dicionarista Littré (1801-1881), seu entusiasmado discípulo.

            A partir de 1846 toda sua vida e obra passaram a ter um sentido religioso. Comte desliga-se do magistério e dedica-se mais às questões espirituais, abandonando o catolicismo e fundando o que ele viria a chamar de a Religião da Humanidade. No entanto, “A passagem do Positivismo ‘filosófico’ para o ‘religioso’ produziu dissensões ou ‘deserções’, como a indicada por Giddens a respeito de Stuart Mill” (GIDDENS, 2000, p. 223 apud LACERDA, 2009, p. 324) e posteriormente do próprio Littré.

            Comte também é conhecido por suas ideias no campo das ciências sociais. Considerado o “pai da Sociologia”, por ter sido um dos primeiros a defender o estudo dos fenômenos sociais como o mesmo rigor e método das ciências da natureza. A princípio Comte denominou “Física Social”, é um vocábulo criado por ele no seu Curso de Filosofia Positiva. Posteriormente passou a chamar de Sociologia, como a ciência que procura estudar e compreender a sociedade, para organizá-la e reformá-la depois. Acreditava que os estudos das sociedades deveriam ser feitos com verdadeiro espírito científico e objetividade.

            Os últimos anos da vida de Comte transcorreram em grande solidão e desencanto, sobretudo por ter sido abandonado por Littré. Como dissemos, seu mais famoso discípulo não concordava com a ideia de uma nova religião. Comte morreu em Paris a 5 de setembro de 1857.

 

Disponível em:

http://cursa.ihmc.us/rid=1HZ4735TQ-QNR0JT-QHN/Auguste%20Comte.cmap

Acessado em 03/02/2016

 

A Lei dos Três Estados

 

            A filosofia da historia – primeiro tema da filosofia de Comte – pode ser sintetizada na sua célebre lei dos três estados: todas as ciências e o espírito humano, “assim no indivíduo como na espécie”, desenvolvem-se através de três fases distintas: a teológica, a metafísica e a positiva (COMTE, s/d; COSTA, 1987; FÉDI, 2008; GRANGE, 1996; LACROIX, 2003; REALE, 1981; RIBEIRO JÚNIOR, 2006). O primeiro estágio é preparatório, o segundo transitório, o terceiro é o estágio definitivo da razão humana.

            Baseado nas ideias do filósofo Condorcet (1743-1794), sobretudo o estudo do Esboço de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano, no qual baseou todos os seus escritos a partir de 1818, Comte desenvolveu a “Lei dos Três Estados”. Segundo Codorcet, a civilização se move de forma progressiva segundo leis naturais, e a observação filosófica do passado pode prever e determinar cada época. As invenções da ciência e da tecnologia fariam o homem caminhar para uma era em que a organização social e política seriam produtos das luzes da razão. Baseando-se em Condorcet, porém reconhecendo que era necessário um aperfeiçoamento em sua teoria, Comte formula a Lei dos Três Estados. Observando a evolução intelectual da humanidade, Comte percebe que esta evolução passa por três estados teóricos diferentes: o estado teológico ou fictício (§§ 3-8)[1], o estado metafísico ou abstrato (§§ 9-11) e o estado científico ou positivo (§§ 12-16).

 

 

            No primeiro, os fatos observados são explicados pelo sobrenatural e a imaginação desempenha papel de primeiro plano. Diante da diversidade da natureza, o homem só consegue explicá-­la mediante a crença na intervenção de seres pessoais e sobrenaturais. O mundo torna-se compreensível somente através das idéias de deuses e espíritos. O estado teológico apresenta ainda subdivisões, períodos sucessivos: o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo. No Fetichismo atribui-se “[...] a todos os corpos exteriores uma vida essencialmente análoga à nossa” (§ 4), por meio de uma força energética, além da adoração dos Astros. No Politeísmo a vida é retirada dos corpos exteriores e “transportada a diversos seres fictícios, habitualmente invisíveis, cuja intervenção ativa e contínua se torna daí por diante a origem direta de todos os fenômenos exteriores e mesmo em seguida dos fenômenos humanos” (§ 5). Já no Monoteísmo a razão unifica os deuses (§ 6). A fase teológica monoteísta representa a transição para o estado metafísico.

            No segundo, o estado metafísico, já se encontram as ideias naturais, mas ainda há a presença do sobrenatural: fala-se de “força física”, “força vital”, “natureza”. “As especulações dominantes conservaram no estado metafísico o mesmo caráter essencial de tendência ordinária para os conhecimentos absolutos: apenas a solução sofreu nele notável transformação, própria a tornar mais fácil o surto das concepções positivas” (§ 9). A metafísica ainda procurou explicar a natureza íntima dos seres, a origem e o destino das coisas, substituindo as forças sobrenaturais por concepções abstratas, originando a ontologia. A metafísica, tanto quanto a teologia, procura explicar a “natureza íntima” das coisas, sua origem e destino últimos, bem como a maneira pela qual são produzidas. Ademais, “[...] a metafísica surge da decomposição da teologia: são as mesmas preocupações, ao pesquisar os temas absolutos, e o mesmo método de raciocinar: apenas se substituem os deuses pelas abstrações” (LACERDA, 2004, p. 65). Na perspectiva comteana, o estado metafísico se caracterizaria fundamentalmente pela dissolução do teológico: a argumentação, penetrando nos domínios das ideias teológicas, traria à luz suas contradições inerentes e substituiria a vontade divina por “ideias” ou “forças”.

            No terceiro, ocorre o apogeu do que os dois anteriores prepararam progressivamente. Os fatos são explicados segundo leis gerais de ordem inteiramente positiva. Bacon, Galileu e Descartes são os fundadores da filosofia positiva. O conhecimento positivo caracteriza-se pela previsibilidade: “ver para prever”. O “espírito positivo” instaura as ciências como investigação do real, do certo, do indubitável, do útil. A visão positiva dos fatos abandona a considera­cão das causas dos fenômenos (procedimento teológico ou metafísico) e torna-se pesquisa de suas leis, entendidas como relações constantes entre fenômenos observáveis.

            O estágio científico ou positivo é caracterizado: 1) pela subordinação da imaginação à observação; 2) relativismo; 3) previsão racional; 4) crença na invariabilidade das leis naturais. Pelo primeiro podemos dizer que a eficácia científica resulta da conformidade das ideias com os fatos observados. “A pura imaginação perde então de modo irrevogável a sua antiga supremacia mental e subordina-se necessariamente à observação, de maneira a constituir um estado lógico plenamente normal [...]” (§ 12), embora Comte não negue que a imaginação possa desempenhar um papel importante no desenvolvimento da ciência  exercendo “[...] nas especulações positivas, um papel tão capital como inesgotável, para criar ou aperfeiçoar os meios de ligação, quer definitiva, quer provisória” (§ 12). Pela segunda característica, o estado de positividade racional renuncia ao conhecimento absoluto uma vez que só temos acesso ao conhecimento pela observação e que a imperfeição dos nossos sentidos nos impedem de conhecer todas as existências reais, que nos escapam completamente. Todas as nossas especulações dependem da nossa existência individual e estão também subordinadas ao conjunto da progressão social, daí a impossibilidade de pensar um tipo de conhecimento absoluto (§ 14). Por fim, o positivismo não se confunde meramente com o empirismo: o “[...] genuíno espírito positivo se acha tão afastado, no fundo, do empirismo como do misticismo” (§ 13). Os fatos propriamente ditos fornecem, por assim dizer, o material do conhecimento. Mas a verdadeira ciência não é formada por simples observação mas inclui a previsão racional: “ver para prever”. “[...] o genuíno espírito positivo consiste em ver para prever, em estudar o que é, a fim de concluir o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais” (§ 15), que é a crença na ideia de que as leis da natureza são invariáveis e por isso podem ser conhecidas em qualquer época ou lugar.

            Em sua obra Comte nos oferece ainda os diversos sentidos e significados que pode assumir a palavra “positivo” (§§ 30-33) e que definem a filosofia positiva.

 

Considerada, em primeiro lugar, em sua acepção mais antiga e mais comum, a palavra positivo designa o real em oposição ao quimérico: neste sentido, convém plenamente ao novo espírito filosófico, que fica assim caracterizado pela sua constante consagração às indagações verdadeiramente acessíveis à nossa inteligência, com a exclusão efetiva dos impenetráveis mistérios com que se ocupava sobretudo a sua infância (§ 31).

 

            “[...] um segundo sentido muito próximo do precedente, mas, entretanto, distinto, este termo fundamental indica o contraste entre o útil e o ocioso” (§ 31), quer isto dizer que nossas especulações devem visar sempre o melhoramento contínuo de nossa condição individual e coletiva, e não apenas uma curiosidade estéril. “Conforme um terceiro significado usual, esta feliz expressão é empregada freqüentemente para qualificar a oposição entre a certeza e a indecisão” (§ 31) ao invés de se ater a debates intermináveis como era costume antigamente. “Uma quarta acepção ordinária, demasiadas vezes confundida com a precedente, consiste em opor o preciso ao vago” (§ 31), ao invés de conduzir a opiniões vagas, seja apoiada na autoridade sobrenatural ou não, deve-se buscar uma precisão compatível com a natureza dos fenômenos. E por fim uma quinta acepção, quando se emprega positivo, como contrário do que é negativo, o que significa organizar, e não destruir (§ 32).

            Ao definirmos o termo “positivo” com base na obra do próprio Auguste Comte estamos, de alguma forma, evitando certas ambiguidades que podem surgir a partir dos diferentes significados que o termo “positivismo” assumiu ao longo dos anos. Com efeito, há uma grande polissemia a respeito do termo positivismo não raro atribuindo ao filósofo francês ideias que ele não propagou e, em alguns casos, até deturpando seu pensamento. “Em um esforço para elucidar esses diferentes sentidos, Peter Halfpenny escreveu um opúsculo chamado Positivism and Sociology (HALFPENNY, 1982), em que identificou 12 sentidos para a palavra ‘Positivismo’” (apud LACERDA, 2009, p. 327-328). Sem falar nas variedades de vertentes que assumiu o positivismo ao longo dos anos como, por exemplo, o positivismo lógico e o neopositivismo do Círculo de Viena; e o positivismo jurídico ou juspositivismo de Hans Kelsen. Remetemos o leitor ao artigo de Gustavo Lacerda (2009) para uma análise e discussão dos diferentes significados da palavra “positivismo” e as várias correntes teóricas daí resultantes, bem como para um resgate do real sentido do positivismo comteano. Pois, com efeito, “[...] não deixa de ser irônico o fato de que [...] muitas das críticas feitas ao pensamento que se atribui a Comte são, na verdade, compartilhadas pelo mesmo que é criticado” (LACERDA, 2009, p. 340).

 

Do simples ao complexo

 

            Comte tentou uma classificação das ciências baseada na hipótese que as ciências tinham se desenvolvido a partir da compreensão de princípios simples e abstratos, para daí chegarem à compreensão de fenômenos complexos e concretos. A classificação das ciências vincula-se à filosofia da história. Ao traçar o mapa do desenvolvimento histórico do espírito, em sua caminhada para a apreensão da realidade, Comte mostra que a evolução de cada ciência obedece à periodização dos três estados, mas que essa periodização não se faz ao mesmo tempo em todos os domínios: o estado metafísico de uma ciência como a física, por exemplo, não é contemporâneo do estado metafísico da biologia.

 

 

            As ciências se classificam de acordo como a maior ou menor simplicidade de seus objetos respectivos. Assim as ciências haviam se desenvolvido a partir da matemática, da astronomia, da física, e da química para atingir o campo mais complexo da biologia e finalmente da sociologia.

 

As matemáticas possuem o maior grau de generalidade e estudam a realidade mais simples e indeterminada. A astronomia acrescenta a força ao puramente quantitativo, estudando as massas dotadas de forças de atração. A física soma a qualidade ao quantitativo e às forças, ocupando-se do calor, da luz, etc., que seriam forças qualitativamente diferentes A química trata de matérias qualitativamente distintas. A biologia ocupa-se dos fenômenos vitais, nos quais a matéria bruta é enriquecida pela organização. Finalmente a sociologia estuda a sociedade, onde os seres vivos se unem por laços independentes de seus organismos (COMTE, 1978, p. XIII).

 

            De acordo com Comte, a última disciplina, a Sociologia, não somente fechava a série mas também reduziria os fatos sociais a leis científicas, e sintetizaria todo o conhecimento humano, como ápice de toda a ciência. A sociologia seria “o fim essencial de toda a filosofia positiva”. Seu conceito de uma sociedade positiva está no seu Système de politique positive ("Sistema de Política Positiva"). Uma sociologia entendida por Comte no seu sentido mais amplo, incluindo uma parte essencial da psicologia, toda a economia política, a ética e a filosofia da história. A Sociologia, como todas as demais ciência deve ter uma utilidade prática: “[...] da mesma forma que a Astronomia auxiliava – e ainda auxilia – a arte da navegação, ou que a Física auxilia a Engenharia, ou que a Biologia ilumina e orienta a Medicina, a Sociologia deve iluminar e orientar a atividade política” (LACERDA, 2004, p. 74). Ademais,

 

[...] Comte estava preocupado com a resolução das crises sociais e políticas, e acreditava que o caminho consistia no conhecimento dos fatos sociais e políticos. Esse conhecimento somente pode ser adquirido ao se submeter a sociedade a um estudo rigoroso/pesquisa científica. Por esse motivo, toma como tarefa urgente desenvolver a chamada “física social” ou Sociologia científica (SILVINO, 2007, p. 280).

 

            O conhecimento das leis e dos fenômenos naturais e sociais é necessário para que possamos não apenas entender o seu funcionamento mas também prever possíveis futuros acontecimentos. Como vimos a verdadeira ciência não é formada pela simples observação empírica mas inclui a previsão racional: “ver para prever”. “[...] a lei é necessária para prever, e a previsão é necessária para agir sobre a natureza, fornecendo ao homem o domínio sobre esta última – ‘ciência, logo previsão; previsão, logo ação’” (COMTE, 1988 apud SILVINO, 2007, p. 280).

            Da mesma forma como através da Física é possível estudar, observar e prever os fenômenos físicos da natureza, a Sociologia, como “física social”, através do raciocínio, da observação e da experiência ajudaria a compreender os fenômenos sociais.

 

Sociedade, Moral e Religião

 

            “Augusto Comte se inserta en el mundo intelectual en una época en que las preocupaciones y los estúdios sobre la sociedade y los fenómenos sociales habían alcanzado certa madurez” (VELÁZQUEZ, 2006, p. 29). Mas a posição de Comte não foi uma posição revolucionária como a de Karl Marx (1818–1883) com relação ao principal problema social de sua época: o crescimento do proletariado industrial. Comte considerava que todas as medidas sociais deveriam ser julgadas em termos de seus efeitos sobre a classe mais numerosa e mais pobre. Acreditava também que os proletários (e as mulheres) pudessem abrandar o egoísmo dos capitalistas e que uma ordem moral humanitária poderia abolir todos os conflitos de classe. Os capitalistas deveriam ser moralizados e não “eliminados”: a propriedade privada deveria ser mantida, o que faz de Comte, aos olhos de muitos, um conservador.

            A reforma das instituições – terceiro tema básico da filosofia de Comte – tem seus fundamentos teóricos na sociologia que ele concebeu. A sociologia conduzi­ria à política, cumprindo-se, assim, o desígnio que Comte sempre se propôs de fazer da filosofia positivista um instrumento para a reforma intelectual do homem e, através desta, a reorganização de toda a sociedade. No seu modo de ver, a Revolução Francesa destruiu as instituições sociais do homem europeu e impunha-se, consequentemente, estabelecer uma nova ordem. A Revolução era necessária porque as antigas instituições sociais e políticas eram ainda teológicas, não correspondendo, portanto, ao estado de desenvolvimento das ciências da época. Mas a Revolução não ofereceu os fundamentos para a reorganização da sociedade, por ter sido negativa e metafísica em seus pressupostos. A tarefa a ser cumprida deveria, portanto, ser a instauração do espírito positivo na organização das estruturas sociais e políticas. Para isso, era necessária uma nova doutrina capaz de formular os fundamentos da sociedade e desenvolver as atividades técnicas cor­respondentes a cada uma das ciências, tornando-as bem comum.

 

Como outros autores clássicos da Ciência Política ou da Sociologia, desde sempre Augusto Comte preocupou-se com a aplicação prática de suas elaborações, como recentemente lembrou Angèle Kremer Marietti (2003). Ocorre que, filósofo das ciências, tinha como preocupação também constituir a nascente Sociologia do mesmo estatuto epistemológico e “científico” que as demais ciências previamente constituídas, isto é, conjunto de proposições abstratas baseadas na observação de um tipo de fenômeno; além disso, exigia que fosse uma ciência geral da sociedade, isto é, aplicável a todas as sociedades, independentemente de local ou época – o que, por outro lado, impunha que todas as sociedades então conhecidas estivessem abrangidas por suas teorias (LACERDA, 2004, p. 63).

 

            Comte advoga, portanto, não apenas a superioridade doutrinária do espírito positivo em relação à filosofia e a religião, mas também a superioridade social do positivismo como base possível de verdadeira transformação e superação da crise moderna. Além de destacar a insuficiência do espírito teológico e metafísico sobre as questões sociais Comte advoga que o estado presente é resultado necessário de um conjunto de uma evolução anterior, de modo que se deve apreciar racionalmente o passado no exame atual dos negócios humanos e que as principais dificuldades sociais não são apenas políticas, mas morais (§ 44).

 

(ver COMTE, s/d)

 

            O espírito positivo é social porque o homem só pode ser considerado dentro da Humanidade e todo seu desenvolvimento é devido à sociedade. O indivíduo deve ligar-se profundamente a toda espécie, a existência coletiva, passada e futura, pois só o bem público pode assegurar a felicidade privada. E só o espírito positivo pode, portanto, desenvolver o instinto social, contrariamente ao espírito teológico-metafísico, pois o espírito positivo é diretamente social.

 

O conjunto da nova filosofia [positiva] tenderá sempre a fazer sobressair, tanto na vida ativa como na especulativa, a ligação de cada um a todos, sob uma série de aspectos diversos, de modo a tornar involuntariamente familiar o sentimento íntimo da solidariedade social, convenientemente estendida a todos os tempos e a todos os lugares (COMTE, s/d, § 56).

 

            A teoria sociológica comteana divide-se em duas partes: a Estática (apresentada no volume II da Politique) e a Dinâmica (apresentada no volume III da Politique). A primeira analisa os elementos permanentes da sociedade como a religião, o governo, a linguagem, a família, a propriedade e todas as instituições ou ordem de fatos que existem em todas as sociedades, ao passo que a segunda examina as formas como as sociedades se desenvolvem e evoluem ao longo do tempo. A ideia fundamental da estática é a ordem; a da dinâmica, o progresso. Para Comte, a dinâmica social subordina-se à estática, pois o progresso provém da ordem e aperfeiçoa os elementos permanentes de qualquer sociedade como os já mencionados: religião, família, propriedade etc.

            Os anseios de reforma intelectual e social de Comte, contudo, não se limitaram a uma política e se desenvolveram no sentido da formulação de uma religião da humanidade. Isso aconteceu nos últimos quinze anos de sua vida, quando estabeleceu os princípios fundamentais dessa nova religião. A reforma intelectual e social proposta por Comte estava diretamente relacionada com uma moral e uma religião. Com efeito,

 

[...] como diria nas obras da maturidade, todos seus esforços foram no sentido de constituir um novo Poder Espiritual, substituto da decaída e há muito retrógrada Igreja Católica, adequado ao período crescentemente positivo da Humanidade, capaz de “reorganizar a sociedade sem deus nem rei” (LACERDA, 2004, p. 73).

 

            Poder Espiritual que não se confunde com os dogmas então vigentes da religião dominante do cristianismo, mas cujas concepções gerais sobre a realidade seriam o resultado de dados obtidos cientificamente, em torno de questões tanto cosmológicas quanto relativas à humanidade. Nesse sentido, a filosofia positiva comteana adota como projeto um humanismo no sentido mais forte e rigoroso da palavra, tomando o homem como “medida de todas as coisas” e é este humanismo que funda a nova religião positivista.

            Comte chegou inclusive a formular um calendário, cujos meses receberam nomes de grandes figuras da história do pensamento, como Descartes, Galileu Newton, entre outros; o calendário tinha também seus dias santos, nos quais se deveriam comemorar as obras de Dante, Shakespeare, Adam Smith, Xavier de Maistre e outros. Comte redigiu ainda um novo catecismo, cuja ideia central reside na substituição do Deus cristão pela Humanidade.

            No website Positivism é possível encontrar uma versão do calendário positivista elaborado por Auguste Comte, editado pelo autor em 1849 conforme o site: première édition du calendrier positiviste, avril 1849 (Correspondance générale, t. V, p. 293-294).

 

O positivismo no Brasil

 

            O positivismo exerceu grande influência sobre intelectuais brasileiros (SOARES, 1999), entre eles: Benjamin Constant, um dos criadores da sociedade positivista do Brasil; Miguel Lemos, que fundou a Igreja Positivista do Brasil no Rio de Janeiro; e o movimento republicano, que apoiou-se nas ideias positivistas para formular suas ideologia de ordem e progresso.

            As primeiras manifestações do positivismo no Brasil datam de 1850. Em algumas teses de doutorado era já possível encontrar ideias de inspiração comteana e na obra, As Três Filosofias, de Luís Pereira Barreto, em que este aponta o positivismo como doutrina capaz de substituir a influência intelectual exercida pela Igreja Católica.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva; Discurso sobre o espírito positivo; Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo; Catecismo positivista. Traduções de José Arthur Giannotti e Miguel Lemos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os pensadores)

____. Discours sur l’esprit positif. Avec chronologie, introduction et notes par Annie Petit. Paris: Libraria Philosophique J. Vrin, 1995.

____. O Espírito Positivo. Porto: RES-Editora, s/d.

COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 1987.

FÉDI, L. Comte. São Paulo: Estação Liberdade, 2008.

GIDDENS, A. Augusto Comte e o Positivismo. In: _____. Em defesa da Sociologia. Ensaios, interpretações e tréplicas. São Paulo: UNESP, 2000.
GRANGE, J. La philosophie d’Auguste Comte. Science, politique, religion. Paris : PUF, 1996.

HALFPENNY, P. Positivism and Sociology: Explaining Social Life. London: G. Allen & Unwin, 1982.

LACERDA, Gustavo B. Augusto Comte e o “positivismo” redescobertos. Revista de Sociologia e Política, vol. 17, n. 34, p. 319-343, out. 2009. Acessado em 03/02/2016.

____. Elementos estáticos da teoria política de Augusto Comte: as pátrias e o poder temporal. Revista de Sociologia e Política, n. 23, p. 63-78, nov. 2004. Acessado em 03/02/2016.

LACROIX, J. A Sociologia de Augusto Comte (O fundador da Sociologia). Curitiba: Vila do Príncipe, 2003.

REALE, G. História da Filosofia. O Positivismo. São Paulo: Paulus, 1981.

RIBEIRO JÚNIOR, J. Augusto Comte e o Positivismo. Campinas: Edicamp, 2006.

SILVINO, Alexandre M. D. Epistemologia Positivista: Qual a Sua Influência Hoje? Psicologia: Ciência e Profissão, vol. 27, n. 2, p. 276-289, 2007. Acessado em 03/02/2016.

SOARES, M. P. O Positivismo no Brasil. 200 anos de Augusto Comte. Porto Alegre: UFRS, 1999.

VELÁZQUEZ, Christian. Augusto Comte, fundador de la Sociología. Elementos: Ciencia y Cultura, vol. 13, n. 63, p. 27-31, jul./sep. 2006. Acessado em 03/02/2016.

 

 


[1] Utilizamos aqui como referência o número do parágrafo que corresponde a cada tópico, ao invés do número da página do livro, o que permite a consulta à obra independente de sua edição (COMTE, 1995; COMTE, s/d).