Hannah Arendt

 

            Filósofa judia, aluna do filósofo alemão Martin Heidegger, se exilou nos Estados Unidos na época da segunda guerra fugindo da Alemanha. Nesse período Hanna escreve As origens do totalitarismo, onde analisa as características do regime nacional-socialista e stalinista.

 

            O século XX viu surgir em sua História, a despeito de toda luta pela democracia e pela liberdade e direitos individuais, várias formas de regimes totalitários que de diferentes maneiras procuraram submeter os indivíduos e a própria sociedade ao poder do Estado: são os Estados Totalitários, como o fascismo (na Itália, com Benito Mussolini), o nazismo (ou o nacional-socialismo na Alemanha, com Adolf Hitler) e o stalinismo (na Rússia, com Josef Stálin).

            Mussolini chegou ao poder em 1922, quando foi nomeado primeiro-ministro e defendia a prioridade do Estado diante do indivíduo. “A palavra ‘fascismo’ vem do italiano ‘fascio’ e quer dizer um feixe amarrado por cordas. Esta imagem resume bem a ideologia do fascismo. Nesta visão, o Estado funciona como a amarra que mantém a unidade do feixe” (SELL, 2006, p. 127). Sobre o Fascismo, Noberto Bobbio escreveu uma obra intitulada Dal fascismo alla democrazia (Do fascismo à democracia), traduzida para o português, que aprofunda o debate em torno do regime fascista: sua origem, os acontecimentos que conduziram à gênese e à afirmação do fascismo, sua ideologia, a difusão da resistência contra o regime, sua queda e a instauração da democracia constitucional, além de alguns personagens ligados ao regime. “O modo pelo qual Bobbio reconstrói a natureza do regime e da ideologia fascista, isto é, do programa italiano da antidemocracia, oferece um parâmetro para a análise comparativa de muitos fenômenos análogos” (Michelangelo Bovero, prefácio à edição brasileira apud BOBBIO, 2007)

            Em 1932 Hitler chegou ao poder como líder do “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães” e, como no fascismo, acreditava que o Estado precede o indivíduo e tinha também um componente racial, defendendo a ideia da superioridade da raça ariana diante de outras raças. Antes do fascismo e do nazismo, a Rússia viveu no começo do século também um período marcado por revoluções, culminando em 1917 com a Revolução Russa que deu origem a União Soviética, mas foi só em 1924 que Stalin chegou ao poder e nele permaneceu até 1953, liderando um processo acelerado de industrialização, expropriação das propriedades camponesas utilizando-se do poder estatal.  

 

                                                   

            Foi sobre estes dois últimos que Arendt concentrou boa parte de suas reflexões e, segundo a filósofa, o totalitarismo é um fenômeno político que busca a dominação total, a expansão mundial, tendo como instrumentos de ação a ideologia e o terror, ou seja, o uso de uma determinada forma de conhecimento e o uso da violência sem limite para a realização de seus fins políticos.

            Em As esferas pública e privada Arendt pretende realizar uma genealogia da ação política sublinhando a oposição entre a esfera daquilo que é comum (koinon) aos cidadãos - a esfera pública da política - e a aquilo que lhes é próprio (idion) ou do domínio da casa (oikos) - a esfera privada. As origens da ação remontam à polis grega, espaço de ação política, através da pluralidade de opiniões.

            Em A Condição Humana, Hannah Arendt tematiza os três conceitos fundamentais que constituem a gênese da sua antropologia filosófica: trabalho, produção e ação. Quanto ao trabalho, ele é necessário à sobrevivência biológica e efetiva-se na atividade do animal laborans, o qual a partir de um estádio primitivo de existência vivia isolado dos outros seres humanos regendo-se apenas pelos ditames fisiológicos da vida animal. Em relação à produção, ela é o estádio do homo faber que produz objetos duráveis (técnicas) partilhando o seu saber de fabrico com outros homens. Já a ação é a característica matricial da vida humana em sociedade. Os homens agem e interagem uns com os outros no seio de uma vida política em sociedade. Só a ação é a única característica da essência humana que depende exclusivamente da contínua presença de outros homens. Arendt enquadra o trabalho (labor) e a produção (work) no domínio da esfera privada, enquanto a ação está exclusivamente no plano da esfera pública (política). O privado é o reino da necessidade. O público é o reino da liberdade. A ação (política) nunca é equivalente a um trabalho necessário à sobrevivência biológica ou à produção técnica. A ação é uma atividade comunicacional mediada pela linguagem da pluralidade de opiniões no confronto político e efetivada através da retórica.

            Também nessa obra Arendt procura demonstrar a inversão no mundo contemporâneo entre a esfera pública e privada. Diferente do mundo grego, onde a esfera pública tinha claramente uma importância maior, no mundo atual predomina a esfera privada e por isso, no pensamento de Arendt, não há espaço para a “ação”, pois esta acontece predominantemente no espaço da política (SELL, 2006).

 

 

Referências Bibliográficas

 

BOBBIO, N. Do Fascismo à Democracia: os regimes, as ideologias, os personagens e as culturas políticas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

SELL, Carlos Eduardo. Introdução à Sociologia Política: política e sociedade na modernidade tardia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.