John Maynard Keynes

por Alexsandro M. Medeiros

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            John Maynard Keynes (1883-1946) foi um economista britânico que defendeu uma política econômica de Estado intervencionista, se opondo a ideia de que os mercados livres ofereceriam automaticamente empregos aos trabalhadores e defendeu o modelo em torno do qual os governos devem usar medidas fiscais e monetárias para mitigar os efeitos adversos dos ciclos econômicos como a recessão e a depressão. Embora Keynes tenha rejeitado o capitalismo liberal de tipo “laissez-faire”, ele não era um anticapitalista e na realidade queria encontrar um meio de salvar este modelo de organização política e econômica, propondo um capitalismo regulado, ou uma espécie de liberal-socialismo, em que “[...] as disfunções do mercado fossem supridas pela intervenção do Estado, por meio tanto de políticas públicas quanto de naturezas normativas imprescindíveis para a construção de um ambiente institucional favorável às tomadas de decisões dos agentes econômicos” (FERRARI FILHO, 2006, p. 233). Além disso, podemos considerar o keynesianismo como “[...] uma doutrina ativista, que preconiza a ação do Estado na promoção e sustentação do pleno emprego em economias empresariais” (CARVALHO, 2008, p. 571 – grifo do autor). Suas ideias serviram de influência para a macroeconomia moderna, tanto na teoria quanto na prática. Ao contrário da escola conhecida como “Novos Clássicos” que entendem que os comportamentos coletivos seriam a soma de comportamentos individuais e que nada “[...] poderia ser explicado ‘cientificamente’ em economia se não pudesse ser reduzido aos seus fundamentos microeconômicos” (CARVALHO, 2009, p. 92), Keynes se destaca por sua habilidade de pensar políticas macroeconômicas e defender a macroeconomia como uma disciplina autônoma.

            Keynes estudou no famoso Colégio Eton e recebeu uma bolsa para estudar no King’s College, da universidade de Cambridge, onde estudou Economia, muito provavelmente por influência de seu pai John Neville Keynes, que foi secretário da Universidade de Cambridge, e escreveu uma obra intitulada: Escopo e Método de Economia Política (1891). Além da influência de seu pai, Florence, sua mãe, também representou uma forte influência na vida do jovem Keynes, por ser uma pessoa pública, tendo exercido “[...] inúmeros cargos públicos, inclusive o de Prefeito, e na Universidade [de Cambridge]” (SILVA, 1996, p. 6) [1]. No caso de Keynes como figura pública, além de exercer a função de diretor do Banco da Inglaterra, vale destacar também seu papel como membro da Real Comissão de Finanças e Moeda da Índia (SKILDESKY, 1983).

            Vale destacar também a convivência de Keynes com Bertrand Russell e G. E. Moore em um grupo de intelectuais chamado “Bloomsbury Group” (SILVA, 1996). A influência de Moore pode ser percebida não apenas em alguns aspectos do pensamento econômico de Keynes, como também no que diz respeito à ética. Sobre a Ética assim assevera Paulo Fracalanza: “[...] o objetivo da vida humana apontava para a Ética. Nesse domínio bebera da fonte de G. E. Moore, que em 1902 publicara Principia Ethica, obra que exerceu um verdadeiro fascínio sobre Keynes. Moore identificava como questão ética primordial “o que é bom?” e sustentava que apenas com o concurso da resposta a essa questão, a dimensão moral que indagava sobre “como devemos nos comportar” poderia ser adequadamente respondida” (2010, p. 204).

            Mas foi no campo da economia que John Maynard Keynes efetivamente se destacou, dando origem ao que se pode chamar hoje do keynesianismo, em oposição a outras escolas do pensamento econômico como a escola econômica clássica, o marxismo-leninismo ou o monetarismo de Milton Friedman.

 

Disponível em: “escuelas económicas

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            Embora Keynes não seja estritamente um filósofo, Ricardo Crespo (2005) acredita que é possível apontar alguns pressupostos de sua filosofia diluídos em sua obra, incluindo aí uma teoria do conhecimento, uma antropologia, uma ética, uma metafísica implícita em suas obras e de forma mais candente sua teoria econômica propriamente dita.

 

Para el profesor Crespo, Keynes resulta ser un filósofo realista, marcadamente empirista (nominalista), y muy pragmático, lo cual explica que no haya en él especulación sobre lo real en cuanto tal. Existen cosas independientes, incluso hay universales, cognoscibles por intuición; pero inducción y analogía son mera agrupación por similitudes, distinción de clases. Y aun esto no siempre es posible. La realidad no es cuantificable o mensurable de manera completa; existen diferencias cualitativas irreductibles, que sin embargo, son a veces susceptibles de conocimiento probable (WIDOW, 2007, p. 580).

 

            Como já dissemos é no campo da Economia que vamos encontrar as principais contribuições de John Maynard Keynes, principalmente no campo da Economia Política e da macroeconomia.

 

(LARA, 2010)

 

            Para Fernando Filho a preocupação com a natureza dos problemas econômicos: economias empresariais, monetárias, instabilidade de preços e a regulação do capitalismo por parte do Estado estiveram presentes no pensamento de Keynes “desde o primeiro livro, Indian Currency and Finance, escrito em 1913, até o último artigo, “The Balance of Payments of the United States”, publicado em junho de 1946, após sua morte” (2006, p. 214).

            E embora a obra que tornou Keynes mundialmente famoso tenha sido The Economic Consequences of the Peace, publicado em 1919, sua obra mais influente para os estudiosos é A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de 1936 (KEYNES, 1985), e que é marcada por dois fatores principais como aponta Chick: “Todos os livros são produtos de sua época e lugar. E a época e lugar que servem de base a Teoria Geral são extraordinários. A época, o início da década de 1930; o lugar Cambridge. Ambos influíram na forma e no conteúdo do livro” (1993, p. 7). E segundo Paulo Fracalanza esta obra marca,

 

[...] o nascimento da macroeconomia, campo de especulação científica dedicado a interpretar as relações de agregados estatísticos como, entre outros, o volume de emprego, a composição da demanda efetiva e a taxa de juros, na tentativa de compreender o (mau) funcionamento do sistema econômico. Keynes pretendia tornar inteligíveis — no contexto da crise de 1929 e na contramão da doutrina hegemônica à época — as razões para o desemprego da força de trabalho e os remédios para debelar esse flagelo (2010, p. 200).

 

            Para Fernando Carvalho (2008) o último capítulo da obra Teoria Geral se propõe refletir sobre pelo menos dois grandes problemas: a concentração excessiva de renda e riqueza cujo remédio seriam uma espécie de imposto sobre grandes fortunas e uma espécie do que talvez poderia se chamar de hoje de responsabilidade fiscal, ou seja, os gastos do Estado deve se dar de forma proporcional a provisão de bens públicos; o outro grande problema seria a questão do emprego/desemprego cujo diagnóstico estaria de alguma forma relacionado com a disposição de consumidores e investidores privados em gastar tanto quanto necessário até atingir o limite de produção de sua capacidade.

 

[...] no caso do problema da concentração excessiva de renda e riqueza, a saída preconizada pela doutrina keynesiana se dá através da ação do Estado. A doutrina keynesiana, como argumentado acima, define um posicionamento político, a defesa do pleno emprego como objetivo maior da política econômica, e uma abordagem estratégica, onde a ação do Estado deve se dar na direção do estímulo à demanda privada através de políticas macroeconômicas, como as políticas fiscal, monetária e de rendas (CARVALHO, 2008, p. 573-574).

 

            Além disso, podemos dizer que Keynes rejeitou a ideia de que uma economia de mercado conduz automaticamente ao pleno emprego ou de que o livre funcionamento do mercado leva a economia ao equilíbrio e é esta visão que abre espaço para uma política econômica com a intervenção do Estado exatamente para alcançar uma situação de pleno emprego. Keynes rejeita não apenas a ideia de “mão invisível” de Adam Smith como a política do “laissez faire, laissez passer” do liberalismo econômico clássico.

 

En el modelo Keynesiano se establece que la renta y el empleo deben determinarse conjuntamente a partir del volumen de demanda global existente. Para mantener el volumen de renta y empleo debe de invertirse la diferencia entre la renta y el consumo, es decir el ahorro; de esta manera se identifica a la inversión como un multiplicador del empleo, pero si la inversión privada no es suficiente para alcanzar el nivel de ingreso de pleno empleo, entonces el Estado debe intervenir, a través del gasto público, para “llenar ese vacío” (PRIMERA, 2013, p. 127).

 

            De modo geral, podemos agrupar as teses centrais da economia de Keynes em pelo menos sete proposições, seguindo o pensamento de Fernando de Carvalho (2009): 1) a tese da não-neutralidade da moeda; 2) o conceito de liquidez; 3) o reconhecimento da conexão entre moeda, prêmio de liquidez e preço dos ativos; 4) o que Keynes denomina como “estado de confiança”; 5) a tese de que o “estado de confiança” é um determinante central da produção e do emprego em uma economia empresarial; 6) a relação entre demanda privada e nível de atividade; 7) o problema da estabilidade global[2].

            Embora Keynes não tenha produzido uma obra específica sobre a questão do método, alguns autores procuram fazer uma análise da obra Teoria Geral considerando a questão metodológica subjacente ao pensamento do economista britânico, como: Carabelli (1988), Chick (1993), Souza (2003). É preciso considerar entretanto que esta posição não é unânime e muitos autores consideram que não há nenhuma questão metodológica na obra de Keynes.

            Esta obra teve uma grande influência, apesar de pouco duradoura, na política econômica norte americana durante a segunda guerra mundial cujo resultado deu aos Estados Unidos o status de superpotência, como afirma Albert Hirschman que a doutrina econômica exposta por Keynes na obra de 1936 “[...] obtuvo su primer gran éxito en la adquisición de influencia sobre la política económica de una gran potencia en Estados Unidos, en el curso y como resultado de la recesión de 1938. Esa influencia se reforzó notablemente durante la Segunda Guerra Mundial” (2014, p. 312).

            Ainda segundo Albert Hirschman a difusão do keynesianismo pós segunda guerra se deve principalmente a dois fatores como a formação de um núcleo de keynesianos no E.U.A., concomitante à vitória militar deste país o que resultou também em uma vitória política e econômica em nível mundial dando aos E.U.A. um lugar de liderança que facilitou a difusão das ideias keynesianas.

            No Brasil a obra de Keynes tem sido recebida com grande atenção pelos teóricos da economia e em nosso país “[...] um dos primeiros expoentes do pensamento keynesiano, apesar de suas poucas referências explícitas a Keynes, foi Celso Furtado” (CARVALHO, 2008, p. 571). A obra de Celso Furtado Formação Econômica do Brasil seria, de acordo com Fernando Carvalho, uma aplicação da abordagem macroeconômica tal como formulada e proposta por Keynes. Além disso duas escolas desenvolvem na atualidade linhas de pensamento e reflexão com base nas teorias de Keynes: o Instituto de Economia da UNICAMP e o Instituto de Economia da UFRJ, além de outros centros acadêmicos e institutos que abrigam pesquisadores keynesianos, tendo que destacar neste cenário a Associação Keynesiana Brasileira (AKB)[3] que tem como um de seus objetivos, precisamente, congregar e reunir e mapear a existência de pesquisadores keynesianos.

 

Disponível em: Blog Historia del Mundo Contemporáneo

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            Por fim é preciso considerar que para entender o pensamento de Keynes é preciso entender todo o contexto teórico econômico com o qual o economista britânico dialoga, como a economia clássica e neoclássica (Pigou, Cassel) e a tradição marshalliana esposada pelo seu professor e mentor Alfred Marshall e seus sucessores como Robertson e Lavington, com quem Keynes apresenta tanto diferenças como semelhanças (ARTHMAR; BRADY; SALLES, 2010).

 

 

Referências Bibliográficas

 

ARTHMAR, Rogério; BRADY, Michael E.; SALLES, Alexandre O. T. Dos clássicos aos hereges: Keynes e a economia de seu tempo. Revista de Economia contemporânea, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 359-393, maio/ago. 2010. Acessado em 25/11/2015.

CARABELLI, A. On Keynes’s method. Londres, MacMillan Press, 1988.

CARVALHO, Fernando J. Cardim de. Keynes e o Brasil. Economia e Sociedade, Campinas, v. 17, Número especial, p. 569-574, dez. 2008. Acessado em 25/11/2015.

____. O retorno de Keynes. Novos Estudos CEBRAP, vol. 83, p. 91-101, mar. 2009. Acessado em 25/11/2015.

CHICK, V. Macroeconomia após Keynes: um reexame da Teoria Geral. Rio de Janeiro: Florense Universitária, 1993.

CRESPO, Ricardo F. El pensamiento filosófico de Keynes. Descubrir la melodía. Ediciones Internacionales Universitarias: Madrid, 2005.

FERRARI FILHO, Fernando. As concepções teórico-analíticas e as proposições de política econômica de Keynes. Revista de Economia contemporânea, Rio de Janeiro, vol. 10, n. 2, p. 213-236, mai./ago. 2006. Acessado em 26/11/2015.

FRACALANZA, Paulo Sérgio. As lições de Keynes. Novos estudos CEBRAP, São Paulo, n. 88, p. 199-205, dez. 2010. Acessado em 24/11/2015.

HIRSCHMAN, Albert Otto. Cómo se fidundió a Keynes desde Estados Unidos. Revista de Economia Institucional, Bogotá, vol.16, n.30, p. 311-318, jan./jun. 2014. Acessado em 25/11/2015.

KEYNES, J. M. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1985.

KEYNES, M. Ensaios sobre John Maynard Keynes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

LARA, José Manuel. La salida a la crisis de 1929: el keynesianismo. 01/03/2010. Acessado em 25/11/2015

PRIMERA, José Gregorio Petit. La teoría económica del desarrollo desde Keynes hasta el nuevo modelo neoclásico del crecimiento económico. Revista Venezolana de Análisis de Coyuntura, vol. XIX, núm. 1, pp. 123-142, enero-junio, 2013. Acessado em 26/11/2015.

SILVA, A. M. da. Apresentação: Keynes e a Teoria Geral. In: KEYNES, J. M. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Os Economistas, Abril Cultural, São Paulo, 1996.

SKIDELSKY, Robert. Keynes. Nova York: Penguin Books, 1994, 3 vols.

____. John Maynard Keynes: Hopes and Betrayed, 1883-1920. Londres: Mac-Millan, 1983.

SOUZA, M. A. G. de. Método e visão de mundo em Keynes: uma abordagem alternativa. In: CORRAZA, G. (org) Método da Ciência Econômica. Porto Alegre: UFRGS, 2003.

WIDOW, Gonzalo Letelier. CRESPO, Ricardo. El pensamiento filosófico de Keynes. Descubrir la melodía [resenha]. Revista Chilena de Derecho, vol. 34, n. 3, pp. 579-582, 2007. Acessado em 24/11/2015.

 



[1] Sobre a biografia de Keynes, Robert Skidelsky (1994) escreveu três volumes sendo uma referência para aqueles que têm interesse no estudo do pensamento de Keynes. Uma revisão biográfica foi feita por seu sobrinho Milo Keynes (1977) e Adroaldo Moura da Silva (1996) faz uma apresentação da obra completa da Teoria Geral da editora Nova Cultural. Veja também sugestões de leitura e referencial bibliográfico sobre o economista de Cambridge na seção: Autores e Obras: John Maynard Keynes.

[2] Para mais detalhes sobre cada uma destas sete teses, remetemos o leitor para o artigo de Fernando de Carvalho (2009).

[3] “A Associação Keynesiana Brasileira (AKB) [...] tem como objetivo desenvolver o conhecimento da teoria e da economia Keynesiana, entendida como ciência social, mediante: (i) a criação de um fórum científico em nível nacional para o debate das questões de economia Keynesiana; (ii) a promoção, ampliação e fortalecimento do intercâmbio entre os estudiosos da teoria e da economia keynesiana e das disciplinas correlatas, tais como Filosofia, Política, História e Sociologia; (iii) a promoção de encontros, congressos, conferências, cursos e atividades de atualização; e (iv) a divulgação de livros e periódicos relacionados à temática Keynesiana”. Veja mais no site da AKB: http://www.akb.org.br/. Acessado em 25/11/2015.