Karl Marx

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em 2013

atualizado em fev. 2016

 

            Karl Marx (1818-1883) foi um economista, filósofo e sociólogo alemão: “[...] um dos mais brilhantes economistas do século XIX, um sociólogo de incomparável talento e amplitude de conhecimentos e um dos filósofos mais importante de seu tempo” (BORON, 2006, p. 287). Marx publicou em 1848, junto com Friedrich Engels, o Manifesto Comunista: um breve resumo do materialismo histórico e um primeiro esboço da teoria revolucionária que mais tarde ficaria conhecida como marxismo. A publicação do Manifesto foi definida no ano anterior, em 1847, no 2º Congresso da Liga dos Comunistas, “associação internacional dos trabalhadores” conforme nos aponta Jean-Jacques Chevalier (1999, p. 291) e tal como podemos ler no início do próprio Manifesto, cuja redação foi confiada à Marx em colaboração com Engels. Eis como inicia o Manifesto:

 

 

 

Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o Papa e o Czar, Mettemich e Guizot os radicais da França e os policiais da Alemanha.

Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou a seus adversários de direira ou de esquerda a pecha infamante de comunista?

Duas conclusões decorrem desses fatos:

1ª: O comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa;

2ª: É tempo de os comunistas exporem, abertamente, ao mundo inteiro, seu modo de ver, seus objetivos e suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo (MARX; ENGELS, 2005, p. 39).

 

            Em 1867 Marx publicou o primeiro volume da sua obra principal: O Capital. É um livro principalmente econômico que expõe a teoria marxista do valor, da mais-valia, da acumulação do capital etc. Os volumes II e III de O Capital foram editados postumamente por Engels, em 1885 e em 1894 e Karl Kautsky publicou outros textos como sendo o volume IV (1904-1910).

            Marx deixou para a posteridade um grande manancial teórico de reflexões e críticas sobre temas que são de extrema relevância para qualquer sociedade, dentre os quais podemos destacar:

 

[...] uma teoria da sociedade burguesa, do processo de acumulação capitalista e do papel fundamental desempenhado pela economia nessa formação social; uma teoria da exploração; uma teoria do Estado, seu caráter de classe e sua autonomia relativa no capitalismo; uma teoria da revolução e os prolegômenos a uma teoria do estado de transição; e, finalmente, o bosquejo de uma teoria da sociedade comunista, peças estas que constituem um patrimônio de fundamental importância para a reflexão filosófico-política contemporânea (BORON, 2006, p. 318).

 

Marx, o Filósofo: Materialismo Histórico Dialético

 

            Inspirando-se no materialismo antigo (sua tese de doutorado em 1841 tratava sobre o atomismo dos filósofos gregos Demócrito e Epicuro: Sobre as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro) e a partir de uma crítica da economia política, a filosofia de Karl Marx pode bem ser caracterizada como uma filosofia materialista. O materialismo filosófico de Marx procura pensar o homem como o produto do conjunto de todas as suas relações sociais e históricas e, por isso, esta filosofia é também chamada de materialismo histórico. A esta forma de pensar a realidade material sócio-histórica é preciso acrescentar sua dinamicidade, seus antagonismos, as relações de oposição e contradição que caracterizam o movimento da História. Isto é o que se convenciona chamar de materialismo dialético. Por isso a doutrina marxista (ou marxiana como preferem os estudiosos que acreditam que a doutrina marxista subverteu o pensamento de seu idealizador e para distinguir a obra de seu fundador e a tradição teórica de seus continuadores) é conhecida como materialismo histórico dialético: constitui a aplicação da dialética aos fatos históricos.

            Entre as influências presentes em Marx e que contribuíram para o desenvolvimento de suas ideias devemos mencionar o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Ludwig Feuerbach sendo que, posteriormente, Marx irá proceder a crítica de ambos. Do primeiro Marx extrai o conceito e dialética e do segundo o conceito de materialismo, “[...] o qual servirá ao jovem Marx como arma necessária à crítica do Idealismo hegeliano e à formação de seu pensamento” (COSTA, 2010, p. 63) e, posteriormente “[...] no Marx maduro, nas Teses sobre Feuerbach, haverá a crítica ao materialismo humanista feuerbachiano (id., ibidem, p. 63). É na obra A Ideologia Alemã que podemos encontrar “[...] o pensamento do Marx maduro que refutará o hegelianismo especulativo-idealista e o materialismo humanista feuerbachiano” (id., ibidem, p. 69). Com efeito, Marx mas pretende recolocar a dialética hegeliana “sob seus pés” e estima que a realidade seja toda ela material, e não a realidade de um Espírito Absoluto como no idealismo hegeliano: o movimento do pensamento não é senão o reflexo do movimento da realidade material. “Conforme o próprio Marx, enquanto a dialética de Hegel desce do céu à terra, sua dialética vai da terra ao céu (id., ibidem, p. 66). A dialética hegeliana é essencialmente formulada sobre uma base idealista: o mundo é uma sucessão de processos complexos onde a realidade está em constante desenvolvimento, alternando-se entre o ser e o vir-a-ser. Este desenvolvimento é uma evolução descontínua, contradições, indo para uma finalidade determinada: o Absoluto. “Hegel desembarcara no idealismo absoluto, segundo o qual o mundo real não era senão uma realização progressiva da Idéia pura, absoluta, existente desde toda a eternidade” (CHEVALIER, 1999, p. 294).

           

Disponível em: Blog Histo é História

Acessado em 20/02/2016

 

            Marx retoma a lógica hegeliana excluindo, porém, todo o idealismo inerente a filosofia de Hegel e rejeitando aquilo que poderíamos chamar de “a substância mística hegeliana” ou o “misticismo lógico panteísta” em referência ao Espírito Absoluto (VAISMAN, 2006). Marx atribuiu à dialética proposta por Hegel uma interpretação materialista, invertendo sua análise de caráter idealista: não se trata mais de colocar o “Espírito Absoluto” como a ideia que determinaria a realidade, mas esta é determinada pela forma como o nosso ser exprime a sua vida produtiva, naquilo que ele produz e como produz materialmente falando (FAUSTO, 1997; RANIERI, 2011; SAMPAIO; FREDERICO, 2009). Para Marx o “[...] mundo material, perceptível pelos sentidos, era a única realidade; fora dele nada existia” (CHEVALIER, 1999, p. 294). A inversão proposta por Marx é uma inversão de ordem ontológica, como afirma Ester Vaisman: “[...] Hegel supõe sejam os movimentos da idéia nada mais são do que os movimentos gerais das coisas, que ele expõe de modo mistificado, lógico, especulativo. Essa mistificação, logicismo ou especulatividade está em supor que seja do pensamento aquilo que é das coisas, dos seres” (2006, p. 336).

            Em Marx a dialética é um método que permite analisar as relações contraditórias entre as forças sociais em um período histórico dado, permitindo, igualmente, deduzir o movimento da própria História. Para estudar uma realidade objetiva determinada deve-se analisar os aspectos e elementos contraditórios desta realidade e em seu movimento e é neste sentindo que a dialética marxista apenas retoma e amplia a dialética hegeliana.

            É preciso ressaltar que Marx não desenvolveu o pensamento dialético sozinho e teve para isso grandes contribuições de Friedrich Engels. “Ligados numa parceira fraternal, ideológica e intelectual que iniciou-se entre os anos de 1842 e 1844, os pais do materialismo dialético estiveram sempre ligados às causas emancipativas dos operários” (MORAES JÚNIOR, 2012, p. 120). Ademais, foi Engels quem ajudou não apenas intelectualmente, mas financeiramente Karl Marx, após este ter sido expulso da Prússia e da França e se acomodado em Londres. Inclusive foi Engels quem redigiu diversas anotações sobre questões relativas ao materialismo dialético nos últimos anos de vida de Marx. Foi Engels, por exemplo, quem procurou estabelecer as três grandes leis gerais da dialética como: 1) a lei da negação da negação; 2) lei da interpenetração dos contrários; 3) lei da passagem da quantidade à qualidade e vice-versa.

           Enfim podemos dizer que a concepção materialista da História é, portanto, a aplicação do materialismo ao estudo do desenvolvimento histórico das sociedades. Segundo esta concepção, é o ser social que explica a consciência social: na produção social de sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a um grau de desenvolvimento determinado por suas forças produtivas materiais. Se, para Hegel, o sujeito é produto da razão, em Marx, o sujeito é fruto do conjunto das relações sociais de produção e das condições materiais através das quais eles se reproduzem.

 

Dirá Marx que o que os indivíduos são depende não da Razão, mas das condições materiais da produção dos bens necessários à vida. Ou seja, a cada desenvolvimento das forças produtivas, corresponderá novas relações de produção mais avançadas, o que, por sua vez, corresponderá mais adiante a um novo momento de reflexão dos indivíduos sobre sua essência, subjetiva e objetiva, o ser e suas condições de existência (COSTA, 2010, p. 69).

 

            Um grande exemplo disto é o modo como a tecnologia colocou à nu o modo de ação do homem em face da natureza, como ela mudou o processo de produção de sua vida material e, por conseguinte, as relações sociais e as ideias ou concepções intelectuais que daí decorrem. O crescimento da tecnologia mudou as relações sociais e as relações de trabalho, basta pensar no trabalho de um artesão do séc. XVI e o de um técnico em informática do século XXI. Desta forma, adquirindo novas forças produtivas, os homens mudam o seu modo de produção e mudando o modo de produção, a maneira de ganhar sua vida, eles mudam todas as relações sociais.

            A crítica de Marx a dialética hegeliana irá ter consequências também sobre a crítica que Marx faz ao modelo de Estado preconizado pelo seu mestre (Hegel foi professor de filosofia de Marx na Universidade de Berlim).

 

Simplificando um raciocínio bastante mais complexo, diremos que a resposta de Marx se constrói em torno do seguinte argumento: se em Hegel a relação “Estado/sociedade civil” aparece invertida, isso não se deve a um vício de raciocínio, mas obedece antes a compromissos epistemológicos mais profundos cujas raízes afundam no seio mesmo da sociedade burguesa (BORON, 2006, p. 300).

 

            E é para resolver este problema que Marx irá se interessar pela economia política. É preciso ir além do homem abstrato e do idealismo hegeliano. Uma crítica social exige compreender o homem situado historicamente, conjugando e articulando fatores econômicos, sociais, culturais, políticos e ideológicos. E avançando na exploração da anatomia da sociedade civil é que Marx irá lançar mão do instrumental teórico desenvolvido pela economia política culminando com uma radical reelaboração da filosofia política.

 

 

Marx, o Economista

 

            Na teoria marxista, o materialismo histórico dialético pretende a explicação da história das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A dialética hegeliana continha uma série de elementos imprescindíveis para a análise dos pressupostos econômicos empreendidos por Marx.

 

Em primeiro lugar, punha em relevo de modo ameaçador o caráter inerentemente contraditório –e, portanto, provisório– das instituições e práticas sociais existentes. Se, em sua versão idealista, isso podia ser resolvido numa inofensiva dialética das idéias, em sua leitura e reconstrução marxianas, essas contradições têm lugar entre forças sociais e interesses classistas portadores de projetos, valores e ideologias enfrentados (BORON, 2006, p. 305).

 

            Contudo Marx irá reformular radicalmente a concepção dialética hegeliana como frisamos mais acima acentuando as condições históricas em que homens e mulheres criam e recriam as suas próprias condições de existência. E é nesse terreno que a economia aparece como um fator essencial de explicação da densa malha de relações existentes entre a política, o Estado e a vida social. Com efeito, “A produção econômica e a organização social, que dela resulta necessariamente para cada época da história, constituem a base da história política e intelectual dessa época [...] Com essa frase, Engels define o ‘materialismo histórico’” (CHEVALIER, 1999, p. 294 – grifo do autor).

            De acordo a doutrina marxista a sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infraestrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, a base econômica, pela qual os homens produzem os bens necessários à vida; enquanto o edifício em si, a superestrutura, representaria as ideias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc), sendo que esta é determinada pela primeira: a infraestrutura determina a superestrutura, ou seja, as manifestações da superestrutura (política, moral e direito) passam a ser determinadas pelas alterações da infraestrutura decorrentes da passagem de diferentes sistemas econômicos. A infraestrutura econômica é a base sobre a qual se constrói toda a superestrutura jurídica, política, moral, intelectual, ideológica. Por isso Marx vai dizer que não é a consciência que determina o ser social, mas é a realidade social que determina aquela:

 

[...] o mundo de produção da vida material “determina em geral o processo social, político e intelectual da vida”. Um dado modo de produção - o moinho movido a mão, da época feudal – determina necessariamente uma dada estrutura social (ou seja, certa divisão em classes), donde necessariamente certa organização política, jurídica, certos sentimentos e certas idéias: sentimentos-reflexos, idéias-reflexos (CHEVALIER, 1999, p. 297).

 

            Marx não se contentou apenas em denunciar as consequências do Capitalismo burguês (como a extrema pobreza dos operários ingleses da época). Marx procurou analisar as condições que permitiram o nascimento do capitalismo, as leis que guiam as produções do mercado (apoiando-se, inclusive, nos trabalhos dos economistas de sua época, como Adam Smith e David Ricardo) além de propor um novo econômico de modo de produção, que pudesse superar as contradições do modo de produção capitalista: o Socialismo e o comunismo, com o fim das desigualdades e justiças sociais, da propriedade privada e da alienação do sistema capitalista. Contudo,

 

As indicações que Marx nos fornece sobre as características da futura sociedade comunista são amplas e vagas [...] os estudiosos de Marx tendem a concordar que dois elementos são essenciais para entender o modo como ele imaginava a futura sociedade comunista: 1) a abolição das classes sociais; 2) a abolição do Estado (SELL, 2006, p. 65).

 

Disponível em: Blog do Prof. Wagner Fernandes

Acessado em 13/02/2016

 

            Eis uma comparação com base nas ideias que Marx nos deixou do que poderia ser o modelo de sociedade comunista (modo de produção) em comparação com o capitalismo.

            No curso da História o progresso da técnica permitiu o aumento da produção determinando um novo modo de produção: o Capitalismo. O capitalismo surgiu da relação entre o artesão do regime feudal e da aparição da classe burguesa: o desenvolvimento da técnica demandava cada vez mais trabalhadores, mais artesãos, sob a égide de um senhor feudal, e depois do pequeno burguês. O regime capitalista se caracteriza em seguida pelo desenvolvimento contínuo das técnicas de produção. Os preços diminuem e fazem desaparecer as empresas menos rentáveis. Aumenta a classe do proletariado. Uma concentração cada vez maior da riqueza se centraliza nas mãos de poucos.

 

Modos de Produção

 

            As relações sociais são inteiramente determinadas pela produção social (econômica) que Marx dividiu em forças produtivas (condições materiais de produção: objetos, matéria-prima, instrumentos, máquinas) e relações de produção (modo de organização, a partir das condições naturais, para executar a atividade produtiva). A forma pela qual as forças produtivas e as relações de produção são reproduzidas num determinada sociedade constituem o que Marx chamou de modo de produção. Cada modo de produção representa passos sucessivos no desenvolvimento da propriedade privada e do advento da exploração do homem pelo homem. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais: “o moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial”.

            Em cada modo de produção a desigualdade de propriedade, e as relações de produção criam contradições com o desenvolvimento das forças produtivas que provocam um processo revolucionário, com o fim do modo de produção vigente e a ascensão de outro. Marx dividiu da seguinte forma os diferentes modos de produção existentes ao longo da nossa História:

  • Sociedades primitivas: os meios de produção são comuns aos membros de toda sociedade (comuna primitiva); na base econômica não há propriedade privada (não há sentimento de posse).
  • Modo de produção patriarcal: domesticação de animais, agricultura; surgimento da propriedade (propriedade da família); alteram-se as relações de produção e o modo de produção; diferenciação de funções de classe (autoridade patriarcal).
  • Modo de produção escravista: decorrência do aumento da produção além do necessário à subsistência, exploração da força de trabalho (geralmente prisioneiros de guerra transformados em escravos); surgimento da classe dos senhores (proprietários de escravos) e a dos escravos. – feudalismo.
  • Modo de produção feudal: a base econômica é a propriedade dos meios de produção pelo senhor feudal. – senhor feudal – servo.
  • Modo de produção capitalista: produção de mercadorias tendo em vista o valor de troca (venda do produto). – burguês – proletário.

 

            “A correspondência necessária entre as relações de produção e as forças produtivas é fundamental na concepção do materialismo histórico. Daí ser o materialismo histórico uma teoria social” (COSTA, 2010, p. 70). O que os indivíduos são depende das condições materiais de produção e no exercício da atividade produtiva os homens estabelecem relações que são simultaneamente sociais, políticas, econômicas, ideológicas, mas que tem em sua origem relações que são determinadas entre os proprietários dos meios de produção e os proprietários da força de trabalho. Sendo os interesses de uns e outros extremamente contrários e antagônicos a consequência de tais relações é uma só: a luta de classes.

            A partir da análise dos diferentes modos de produção Marx tentou observar na história humana as formas como ocorreram as diferentes mudanças sociais nas sociedades europeias anteriores ao capitalismo. Analisando desde as comunidades primitivas caçadoras e coletoras, até as primeiras relações escravistas, as relações feudais entre os senhores proprietários de terras e os servos que se submetiam ao seu comando, Marx observou que os conflitos sociais estavam ligados sempre à condição econômica dessas sociedades e, por isso, Marx pode afirmar juntamente com Engels no início do Manifesto Comunista que “a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes” (MARX; ENGELS, 2005, p. 40).

 

 

Marx, o Sociólogo: Luta de Classes

 

            A história da humanidade é a história da permanente luta dialética entre opressores e oprimidos (senhores x escravos, nobres feudais x servos, burgueses x proletariados) que tem como base as relações econômicas que se estabelecem nas sociedades humanas ao longo da história. A luta de classes acontece porque os indivíduos que fazem parte de classes sociais distintas possuem também interesses distintos, não raro antagônicos e conflituosos. Se nós considerarmos que as classes sociais correspondem a um grupo de indivíduos que possuem em comum uma mesma situação econômica e o mesmo tipo de acesso aos meios de produção então aqueles que detêm os meios de produção irão querer permanecer na condição de donos dos meios de produção (são os donos de grandes porções de terra, das fábricas, das máquinas que transformam a matéria prima, etc.) ao passo que aqueles que correspondem a uma outra classe social almejam sair da condição de exploração a que são submetidos pelos donos dos meios de produção. A luta de classes reflete este conflito: as diferenças materiais que se instauram no meio social e que submetem a classe social trabalhadora a condições de trabalho muitas vezes desumanas para que o grande capitalista obtenha cada vez mais lucro.

            Para Marx e Engels a base da sociedade são as relações de produção econômica dominada pela ideologia da classe dominante que almeja se perpetuar nessa condição. Por isso faz-se necessário a união e organização da classe trabalhadora em prol de um objetivo comum: o fim da exploração e do capitalismo. Eis como a obra o Manifesto do Partido Comunista termina: “PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!” (MARX; ENGELS, 2005, p. 69). Marx e Engels almejam a mudança das condições sociais da classe trabalhadora e, se esta mudança não fosse possível de ocorrer de forma gradual, deveria acontecer por meio da revolução do proletariado.

            Uma análise da constituição do proletariado em classe a partir de três obras de Marx, a saber, o Manifesto Comunista (onde é analisado a relação entre a burguesia, o proletariado a luta de classes – sendo esta primeira obra escrita em parceria com Engels), O 18 Brumário de Luís Bonaparte (onde é analisado a derrota do proletariado na insurreição de junho de 1848 após um efêmero triunfo 4 meses antes) e As lutas de classes na França de 1848 a 1850 (onde é analisado o processo de luta dos proletários e as condições materiais de sua organização como classe) pode ser encontrada no artigo de Eliel Machado:

 

Em quaisquer das três obras, a formação do proletariado em classe é abordada como possibilidade histórica, mesmo quando Marx e Engels afirmam, no Manifesto, que “a burguesia produz, sobretudo, seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis” (1998: 51). [...] Diferentemente da burguesia que já se constituiu como classe e, mais do que isso, conquistou o poder político da nobreza feudal – uma das melhores expressões deste processo é a Revolução Francesa de 1789 –, o proletariado fez inúmeras tentativas ao longo da história, mas em nenhuma delas teve o mesmo êxito da burguesia que conseguiu transitar do feudalismo para o capitalismo. No caso das revoluções proletárias, apesar de terem derrubado a supremacia burguesia, nenhuma transitou do capitalismo para o socialismo (2011, p. 4)[1].

 

            Ademais, a luta do proletariado não deve se limitar à luta dos sindicatos por melhores salários e condições de vida. Ela deve também ser a luta ideológica para expor as contradições do capitalismo e fazer com que o socialismo seja conhecido pelos trabalhadores e assumido como luta política pela tomada do poder. Para isto é necessário que o proletariado se organize em torno de um partido político, revolucionário, capaz de educar os trabalhadores e levá-los a se organizar para tomar o poder por meio de uma revolução socialista.

            Marx acreditava que a classe trabalhadora poderia pôr um fim às condições de exploração do capitalismo, da mesma forma que os comerciantes ascenderam durante o período feudal para derrubar o poder da nobreza. Para Marx, a revolução do proletário seria inevitável e foi isso o que o levou a acreditar no triunfo do Socialismo e do Comunismo frente ao Capitalismo. Contudo, suas previsões não se concretizaram.

 

Considerações Finais

 

            Apesar das experiências frustradas do socialismo na União Soviética (1917), na China (1949) e das condições atuais do socialismo em Cuba (1959) é preciso considerar que as ideias marxistas trouxeram contribuições importantes para a sociedade:

 

o socialismo serviu como uma forma de os trabalhadores se organizarem e lutarem pelos seus direitos [...] foi um meio muito importante para despertar a consciência política dos trabalhadores [...] o socialismo ajudou a consolidar um valor importante no mundo moderno: o valor da igualdade (SELL, 2006, p. 70).

 

            Ao fazer a crítica do modo de produção capitalista o marxismo chama a atenção para o grande problema das desigualdades e da injustiça social: a forma como os donos do capital se tornam cada vez mais ricos ampliando sua fortuna a partir da exploração da classe trabalhadora, ou seja, o capitalismo, de acordo com Marx é selvagem, pois o operário produz mais para o seu patrão do que o seu próprio custo para a sociedade, e o capitalismo se apresenta necessariamente como um regime econômico de exploração, sendo a mais-valia (basicamente o lucro excedente do trabalho do operariado que é apropriado pelo patrão) a lei fundamental do sistema.

            Marx é um pensador crítico da sociedade que procurou revolucionar não apenas a sociedade, mas as possibilidades políticas do pensamento, a partir de uma interconexão entre teoria e prática. Em Marx a atividade humana é força criativa, simultaneamente sujeito, ator e autor da história, mesmo que o seja sob as circunstâncias que lhe são histórica e socialmente dadas. “Por isso, Marx redigiu, no décimo primeiro aforismo das ‘Teses sobre Feuerbach’, que ‘Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo’” (MARX, 2008, p. 29 apud MORAES JÚNIOR, 2012, p. 126).

 

Referências Bibliográficas

 

BORON, Atilio A. Filosofia política e crítica da sociedade burguesa: o legado teórico de Karl Marx. In: ____. (org.). Filosofia política moderna. De Hobbes a Marx. Buenos Aires/São Paulo: CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales; DCP-FFLCH, Departamento de Ciencias Politicas, Faculdade de Filosofia Letras e Ciencias Humanas-USP, 2006, p. 287-330. Acessado em 11/02/2016.

CHEVALIER, Jean-Jacques. As grandes obras políticas: de Maquiavel a nossos dias. 8. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1999.

COSTA, César Augusto S. da. Premissas conceituais sobre a formação do materialismo de Marx. Práxis Filosófica, n. 31, p. 61-72, jul./dez. 2010. Acessado em 20/02/2016

FAUSTO, Ruy. Dialética marxista, dialética hegeliana: a produção capitalista como circulação simples. São Paulo: Paz e Terra/Brasiliense, 1997.

FERRAZ, Cristiano Lima. Marxismo e teoria das classes sociais. Politeia – História e Sociedade, Vitória da Conquista, vol. 9, n. 1, p. 271-301, 2009. Acessado em 21/02/2016.

MACHADO, Eliel. Proletariado e luta de classes em Marx e Engels. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. Acessado em 21/02/2016.

MARX, Karl. Teses Sobre Feuerbach. In: A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2008. (versão disponível online)

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. 4. reimpressão. São Paulo: Boitempo editorial, 2005. (edição disponível online)

MORAES JÚNIOR, Manoel Ribeiro de. De Marx a Horkheimer: uma história da convergência entre teoria e práxis. Praxis Filosofica, n. 34, p. 119-137, jan./jun. 2012. Acessado em 22/02/2016.

RANIERI, Jesus. Trabalho e dialética. Hegel, Marx e a teoria social do devir. São Paulo: Boitempo, 2011.

SAMPAIO, Benedicto Arthur; FREDERICO, Celso. Dialética e materialismo: Marx entre Hegel e Feuerbach. 2. Ed. Rio de Janeiro: EdUFRJ, 2009.

SELL, Carlos Eduardo. Introdução à Sociologia Política: política e sociedade na modernidade tardia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

VAISMAN, Ester. Marx e a Filosofia: elementos para a discussão ainda necessária. Nova Economia, Belo Horizonte, vol. 16, n. 2, p. 327-241, mai./ago. 2006. Acessado em 21/02/2016.

 

 


[1] Uma discussão sobre a teoria das classes sociais e o processo de constituição do proletariado, a partir de correntes de pensamentos existentes no marxismo e algumas correntes da tradição weberiana, além dos resultados de uma pesquisa realizada com segmentos operários de uma possível “nova geração operária no Brasil” do setor calçadista e automobilístico pode ser encontrada no artigo de Cristiano Ferraz (2009).