Rumo à evolução

29/10/2017 16:49

 

            Como ressaltamos até aqui, existem tipos de personalidades diferentes correspondentes ao grau de entendimento e maturidade de consciência, conquistado por evolução, através das variadas experiências realizadas nas vidas sucessivas, das quais estamos analisando dois tipos, por assim dizer, os extremos: os involuídos e o evoluído.

A diferença entre os dois níveis é esta: que nos planos inferiores prevalece o antagonismo que divide os seres entre si e contra Deus, de modo que a obediência é uma opressão antivital, enquanto nos planos superiores tudo isto desaparece numa unidade que funde os seres entre si e com Deus, numa só vontade dirigida para a mesma finalidade de bem, o que transforma a obe­diência em elemento vital (1988b, p. 15).

            O grande trabalho que as leis da vida têm para realizar no momento presente é fazer ascender o atual biótipo dominante, o involuído, para formas de vida mais adiantadas, com o objetivo de que ele possa entender e praticar a ética do evoluído.

O evoluído não julga que o involuído seja culpado ou mau, mas considera-o um menino a educar, ao qual é útil mostrar, para que ele o saiba, o que melhor lhe convém fazer para seu bem. Cabe aos mais adiantados o dever de ajudar os menos adiantados, não os con­denando, mas indo ao seu encontro com a devida compreensão (1988b, p. 28).

            Ubaldi nos oferece um exemplo tirado dos Evangelhos:

O contraste entre essas diferentes posições biológicas nos apa­rece evidente neste exemplo: quando Cristo foi preso no Getsêma­ne, Simão Pedro puxou da espada e, dando um golpe no servo do sumo sacerdote, decepou-lhe uma orelha. Então, Jesus lhe disse: "Embainha a tua espada; pois todos os que tomam a espada, mor­rerão pela espada. Então, tendo tocado a orelha, a sarou".

Vemos aqui chocarem-se dois sistemas [...] Simão Pedro pretendia usar a força para uma finalidade benéfica, defendendo um justo.  Mas Cristo preferiu praticar um método superior, o do evoluído, o da não-re­sistência e do perdão, para dar este exemplo e ensinar esta lição, avisando ao mesmo tempo do perigo que espera quem desce ao ní­vel do involuído e pratica os seus métodos — o perigo de ter depois de ficar sujeito ao domínio das reações e leis ferozes daquele plano (1988b, p. 31).

            Se existe um tipo de personalidade humana que age obedecendo apenas aos impulsos primitivos, de maneira inconsciente e até descontrolada e, por isso, se torna mecanicamente arrastado pelas forças da Lei, há, porém, um tipo de personalidade mais evoluída que tem consciência de uma vida muito mais vasta e que conhece, em maior ou menor grau, o duplo problema da personalidade e do destino, “isto é, sabe quem ele é e qual é o objetivo particular que ele deve atingir na sua atual vida física, em função dos objetivos maiores de toda a sua evolução” (1988b, p. 41).

            Em nosso mundo estão misturados os biótipos terrestres do nível do involuído e do evoluído e a personalidade humana pode oscilar entre cada um dos dois. Cada indivíduo representa uma personalidade diferente, de acordo com o nível em que se encontra, ao mesmo tempo em que em cada indivíduo estes biótipos coexistem simultaneamente. Não são apenas tipos de personalidade diferentes (de indivíduo para indivíduo), mas também diferentes personalidades, por assim dizer, em uma só. E o mundo está suspenso entre dois mundos:

um debaixo e um acima dele, do primeiro re­cebendo impulsos inferiores, do segundo, impulsos superiores, im­pulsos opostos em luta, que, porém, representam o trabalho criador do amadurecimento evolutivo. Assim, quando em nós surge um impulso, pela sua natureza podemos entender de que nível evolutivo ele chega. As chamadas tentações de pecado, para fazer o mal, perten­cem ao nível inferior, enquanto as boas inspirações de fazer o bem pertencem ao superior. Mas em cada um surgirão com mais poder os impulsos do seu plano biológico e estes vencerão. Assim, com a sua conduta cada um revelará a que plano pertence, quem é e qual é o seu grau de evolução. É claro que, tratando-se de indivíduos em transformação, destinados mais cedo ou mais tarde a mudar de um andar para outro, encontramos em nosso mundo impulsos e condutas de todo o gênero (1988b, p. 58).

            Ocorre, assim, que um indivíduo possa estar em uma fase de transição, de um nível para outro, no qual se mesclam impulsos de níveis diferentes (instintos, inteligência, intuição). Por se tratar de um fenômeno de evolução, representa um contínuo transformismo, e é bem provável que um indivíduo oscile de um nível para outro. É assim que nasce a luta entre o novo e o velho. E assim acontece que um indivíduo não ocupe somente um nível de evolução. Há casos em que os impulsos instintivos dominam e o ser permanece no nível inferior. Mas há outros, em que a inteligência começa a predominar, ora em favor dos instintos (e o ser continua no nível inferior) ora em favor das aspirações do espírito (e o ser se eleva ao nível superior). E há ainda casos em que o espírito vence a matéria, a animalidade, e supera definitivamente os instintos inferiores.

            O maior e mais penoso trabalho que deve ser realizado por cada indivíduo é subir de um nível psicológico para outro, transformando a sua personalidade e afastando-se da dor e do sofrimento.

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