Sobre a Amizade em Aristóteles

12/10/2017 17:24

por Alexsandro M. Medeiros

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            O termo philia, de onde se origina o conceito de amizade, tem uma complexidade semântica grande e ao qual não é nosso intento se debruçar aqui. Ora o termo é traduzido por amor, de onde o sentido da palavra filosofia por vezes entendida como amor à sabedoria, ora o termo é traduzido como amizade, de onde o sentido da palavra filósofo por vezes entendido como um “amigo da sabedoria”. Foi nesse sentido que Pitágoras, interpelado se se considerava um sábio, afirmou que não, mas que era um amigo (philos) da sabedoria (sophia). “A intimidade entre amizade e filosofia é tão profunda que esta inclui o philos, o amigo, no seu próprio nome e, como muitas vezes acontece em toda proximidade excessiva, arrisca não conseguir distinguir-se” (AGAMBEN, 2007, p. 1).

            Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles dedica dois livros ao estudo da philia, da amizade (livro VIII e IX), que tem uma importância significativa para a vida humana, seja do ponto de vista existencial, ético (ARÃO, 2011) e, até mesmo, político (FEITOSA, 2013; RICKEN, 2008). Somente a amizade é capaz de proporcionar ao homem uma relação verdadeira do homem com os outros homens (relação com a ética) e com a comunidade à qual pertence (relação com a política).

          A concepção de amizade está no centro do pensamento ético e político do filósofo grego e possui relação direta com a virtude e a felicidade. Como virtude, a amizade suscita a benevolência, a reciprocidade e o querer bem (ARISTÓTELES, 1999, 1155b 31-2,1156a 1-5; ARÃO, 2011). Como ressalta Gianotti (1996, p. 168):

Há, pois, na philía três traços característicos que são plenamente sublinhados na Ética a Nicômaco. Primeiramente, requer benevolência (eunoia), querer bem o outro e, ao mesmo tempo, querer o bem para o outro. Em seguida, esse relacionamento deve ser recíproco [...] uma amizade não seria louvável se a benevolência não fosse recíproca. Finalmente, mesmo se o bem desejado é apenas aparente, ambos os parceiros devem ter claro este bem querer.

            A amizade é uma virtude extremamente necessária à existência humana a tal ponto que o filósofo estagirita chegou a declarar que “ninguém deseja viver sem amigos, mesmo dispondo de todos os outros bens” (ARISTÓTELES, 1999, 1155a). A amizade é necessária à vida dos homens e “conduz o homem à felicidade, a eudaimonia” (BREA, 2009, p. 70).

 

Os três tipos de amizade para Aristóteles

            Em geral, considera-se pelo menos três os tipos de amizade na obra aristotélica: a amizade por prazer, por interesse e a amizade verdadeira. Todavia, Brea (2009, p. 71) ressalta como o filósofo grego estava ciente da complexidade do tema e de que não se trata da mesma coisa a “amizade entre o escravo e o senhor, outra entre dois irmãos, uma, entre um rico e um pobre, outra entre o amante e o amado, outra aquela que ‘mantém as cidades unidas’ e com a qual ‘os legisladores se preocupam mais (...) do que com a justiça (...)’”.

            Mas aquilo que distingue de fato os diferentes tipos de amizade diz respeito a sua finalidade, ao seu fim. Há amizade que visa o bem e cujos amigos se procuram porque querem bem uns aos outros e essa é a amizade verdadeira (teleia philia), mas há amizades cuja finalidade é o interesse e a utilidade, e outras que são o prazer e aquilo que é agradável. Como pondera Feitosa (2013, p. 121) “Na Ética a Nicômaco Aristóteles define a amizade de três modos: a primeira é justificada como a mais sublime, porque é o tipo de amizade que visa somente à bondade por si mesma, ou seja, busca o bem do amigo por amor ao amigo”. E nas palavras do próprio filósofo grego: “Essa espécie de amizade, pois, é perfeita tanto no que se refere à duração como a outros respeitos, e nela cada um recebe de cada um a todos os respeitos o mesmo que dá ou algo de semelhante. E é exatamente isso o que deve acontecer entre amigos” (ARISTÓTELES, 1999, VIII, 4, 1156b, 33-35).

            Na amizade por prazer e por interesse busca-se a amizade não por aquilo que ela é em si mesma, ou seja, o amor do amigo, mas pela utilidade ou pelo prazer que ela proporciona. Os que amam por utilidade não amam o amigo por si mesmo, mas em virtude de algum bem que possa receber do outro. Os que amam pelo prazer não amam o amigo em si mesmo, mas apenas pelo prazer que a amizade proporciona e que só dura enquanto dura o laço prazeroso que a amizade proporciona. Esse tipo de amizade é comumente encontrada entre os jovens, ao passo que  a amizade que busca a utilidade é mais comumente encontrada entre os velhos, comerciantes e desiguais. Fleitas (2016, p. 35) ressalta como esse tipo de amizade “é mais fácil de ser desenvolvida entre pessoas de condições opostas” (entre uma pessoa pobre e outra rica, por exemplo) e percebe-se “que a amizade baseada na utilidade é apropriada aos homens com propensão para a ambição, porque preferem manter relações de trocas de interesses”.

            Os dois tipos de amizade, onde a amizade existe em razão da utilidade ou do prazer, são consideradas acidentais. No momento em que o amigo perde o encanto proporcionado pelo prazer ou pela utilidade, a amizade acaba. A amizade baseada na utilidade não é duradoura porque “como o que é útil não é permanente, desaparecendo a utilidade desaparece também a amizade” (GOMES, 2010, p. 109). Fleitas (2016, p. 36) reforça a contingência da amizade baseada na utilidade: “os que são amigos por causa da utilidade separam-se quando cessa a vantagem, porque não amam um ao outro, mas apenas o que pode ser vantajoso”. No que concerne a amizade por prazer

nota-se que nos homens os prazeres mudam de acordo com a etapa e/ou circunstâncias de vida e, deste modo, a continuidade destas amizades estão diretamente relacionadas a essa mutabilidade. Sendo, portanto, que a continuidade da amizade fundada no prazer dependerá da existência, ou não, das satisfações recíprocas que deram origem à vinculação (FLEITAS, 2016, p. 37).

            Por isso a amizade que se baseia no prazer é tão contingente quanto a que se baseia na utilidade e a continuidade da amizade que se baseia no prazer depende da permanência do objeto prazeroso ou de que haja prazer recíproco entre os amigos. E nas palavras do próprio Aristóteles: “Sendo assim, as amizades deste tipo são apenas acidentais, pois não é por ser quem ela é que a pessoa é amada, mas por proporcionar à outra algum proveito ou prazer” (ARISTÓTELES, 1999, VIII, 3, 1156a 15-17). E no capítulo IX o filósofo também afirma:

Talvez possamos dizer que nada há de estranho em romper uma amizade baseada no interesse ou no prazer quando nossos amigos já não possuem os atributos de serem úteis ou agradáveis; na realidade éramos amigos desses atributos, e quando eles desparecem é razoável não continuar amando (ARISTÓTELES, 1999, IX, 3, 1165b).

            Só a amizade perfeita é considerada essencial e não acidental e não exclui nem a utilidade e nem o prazer, pois o que é bom também é útil e prazeroso. Como destaca Sousa (2014, p. 14): os homens que não são virtuosos só podem estabelecer relações de amizade pautadas no interesse ou no prazer; e os homens que são virtuosos “podem estabelecer relações de amizade em função do prazer ou da utilidade, da mesma forma que o fazem aqueles que não são virtuosos”.

            É nesse sentido que Aristóteles estabelece uma clara relação entre a amizade e a ética, já que a amizade perfeita possui uma clara função moral e deve inspirar ações virtuosas. Reforçando essa vinculação entre a ética e amizade Fleitas (2016, p. 39) afirma: “Os homens bons o são de forma absoluta por serem virtuosos e a virtude é um hábito, de tal modo que o homem bom deseja o bem tanto para si mesmo quanto para seu amigo em uma relação permanente”.

            A amizade verdadeira (teleia philia) é ainda enriquecida pela natureza dos dois outros tipos de amizade, ou seja, a utilidade e o prazer, como afirma Aristóteles. “A amizade por prazer tem alguma semelhança com esta espécie, pois pessoas boas também são reciprocamente agradáveis. Acontece o mesmo em relação à amizade por interesse, pois as pessoas boas também são reciprocamente úteis” (ARISTÓTELES, 1999, VIII, 4, 1157a 4-7).

            O fato de querer bem ao amigo em si mesmo não exclui o prazer e a utilidade que uma amizade pode proporcionar.

          Aristóteles ainda teoriza sobre a amizade em cada etapa da vida dos indivíduos, onde a mesma assume uma função específica em cada faixa etária: a amizade tem a função de evitar que os jovens possam enveredar pelo caminho do erro, na maturidade inspirar atos nobres e na velhice um meio de amparo para as carências que a mesma nos traz.

 

Referências Bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. O amigo. Cadernos de leitura, n. 10. Acesso em 05/09/2017. Texto realizado a partir do original L’amico (Roma: Nottetempo, 2007).

ARÃO, Douglas J. Da Felicidade à Amizade: percursos éticos. Sapere Aude, Belo Horizonte, v. 2, n. 4, p. 89-94, 2011. Acesso em 05/09/2017.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Mário da Gama Kury. 3 ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

BALDINI, M. Amizade & Filósofos. Trad. Antônio Angonese e Laureano Pelegrini. Bauru: Editora do Sagrado Coração, 2000.

BREA, Gerson. Amizade e comunicação: aproximações entre Karl Jaspers e Aristóteles. Revista Archai, Brasília, n. 03, pp. 69-79, jul. 2009. Acesso em 02/09/2017.

FEITOSA, Zoraida M. L. A influência da amizade nas constituições políticas em Aristóteles. Prometeus, ano 6, n. 11, p. 119-128, jan./jun., 2013. Acesso em 02/09/2017.

FLEITAS, Horácio F. R. Felicidade e amizade na Ética nicomaquéia. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Universidade de Caxias do Sul. Caxias do Sul-RS, 2016.

GIANNOTTI, José Arthur. O amigo e o benfeitor. Analytica, v. 1, n. 3, p. 165-177, 1996. Acesso em 03/09/2017.

GOMES, Alexandre T. As figuras da amizade em Kant e suas relações com a Moral, o Direito e a Política. Doispontos, Curitiba, São Carlos, vol. 7, n. 2, p.107-126, out., 2010. Acesso em 04/09/2017.

RICKEN, Friedo. O Bem Viver em Comunidade: a vida boa segundo Platão e Aristóteles. São Paulo: Loyola, 2008.

ROSS, Sir David. Aristóteles. Trad. Luís F. Bragança Teixeira. Lisboa: Dom Quixote, 1987.

SOUSA, Gicélia V. de. Amizade e felicidade em Aristóteles. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Filosofia). Departamento de Filosofia e Ciências Sociais. Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande-PB, 2014.

WOLF, Ursula. A Ética a Nicômaco de Aristóteles. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

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