A Alegoria da Caverna

A Alegoria da Caverna

    A Alegoria da Caverna é uma das histórias mais fascinantes de toda a tradição filosófica ocidental. O livro VII da obra A República de Platão inicia com tal alegoria (para conhecer em detalhes esta história acesse o link: O Mito da Caverna). Com esta alegoria Platão consegue resumir de forma magistral os mais importantes fundamentos do seu pensamento filosófico, a partir da ideia da existência de dois mundos, e que vivemos aprisionados pelos nossos sentidos às correntes da ignorância, e que só o esforço intelectivo e filosófico pode nos ajudar a nos libertar de tais amarras e contemplar uma realidade inteiramente nova e diferente daquela que estamos habituados.

            A Alegoria da Caverna é uma história fascinante e já foi objeto de análise de inúmeros pesquisadores e estudiosos da obra platônica. Na visão de José Silvio de Oliveira, Platão quer demonstrar que “[...] As sombras são as aparências sensíveis das coisas que os indivíduos percebem. Platão quer alertar que o indivíduo deve olhar as coisas para além das aparências” (2015, p. 200). Ana Lúcia Lazarini destaca o fato de que através desta alegoria, a reflexão filosófica proposta por Platão é de “[...] fazer a alma voltar o olhar para o mundo divino das idéias” (2007, p. 31). E Elza Rodrigues aponta para o fato de que a Alegoria da Caverna pode ser ainda “[...] uma apologia à coragem intelectual, o ato de descobrir a si mesmo, renegando a cópia das coisas como se fossem verdadeiras e conduzindo-se para um processo de ‘auto-conhecimento’” (2005, p. 49-50). Neste processo somos conduzidos “[...] pelas fendas do verdadeiro conhecimento, nem que para isso corra o risco de ser repudiado pelos outros que preferem a aparência das coisas, a comodidade do aparente saber, não importando quão distante esteja da verdade” (id., 2005, p. 50). Trata-se, por fim, da passagem da ignorância para o conhecimento, das trevas para a luz, da mera opinião para a sabedoria, através de diferentes patamares e níveis de aprendizado intelectual “[...] do mais ilusório ao mais real e do mais obscuro ao mais luminoso” (id., 2005, p. 50).

 

a caverna é o nosso mundo visível; a luz da fogueira em seu interior é o sol; a subida da caverna em direção ao mundo exterior é a ascensão da alma à esfera inteligível; o sol é a forma do Bem; os olhos, a inteligência; a visão, o conhecimento, e os objetos visíveis fora da caverna são as Formas platônicas, o verdadeiro objeto do conhecimento (QUEIRÓS, 2008, p. 96-97).

 

            A caverna é o mundo sensível, o mundo em que vivemos. Todo o nosso conhecimento neste mundo são, na realidade, sombras projetadas do mundo inteligível (o mundo das Ideias). O homem comum é prisioneiro deste conhecimento e toma este mundo como única realidade possível. Acontece que alguns destes prisioneiros, por meio de um processo difícil e até mesmo doloroso, consegue libertar-se de suas amarras e tem então a possibilidade de conhecer o mundo fora da caverna, olhando primeiro as sombras e imagens, depois os próprios objetos, depois os reflexos até finalmente conseguir olhar o próprio Sol, que simboliza o Ser em si, a Ideia Suprema do Bem.

            Na Alegoria nada nos é dito a respeito dos “prestidigitadores”, ou seja, os ocupantes do lado oposto da caverna e que “[...] por cima e ao longo de um muro, situado entre os prisioneiros e a fogueira, transportam e exibem todas as espécies de objetos, cujas sombras são refletidas no fundo da caverna, acessível à visão dos homens manietados” (QUEIRÓS, 2008, p. 97). Nenhuma explicação sobre sua origem ou função nos é dada e talvez sua relevância na Alegoria seja, de fato, mínima, servindo apenas como produtores de imagens e sons, cujas falas são percebias pelos prisioneiros como se fossem emitidas das sombras projetadas na parede e que

 

[...] não passam de políticos, sofistas e artistas, cuja atividade consiste, então, em iludir os cidadãos com sombras, aparências e simulacros da realidade, contando com o fato de tais imagens exigirem, para serem vistas, apenas um mínimo de esforço e acuidade dos olhos (inteligência) naquele regime de semi-obscuridade (QUEIRÓS, 2008, p. 97).

 

            Platão cria tal alegoria para poder resolver os impasses criados envolvendo a escola eleática de Parmênides e o pensamento do filósofo Heráclito, ou seja, a discussão que envolve a imutabilidade ou mutabilidade do Ser. Platão fragmenta a existência do real em dois mundos: o sensível e o inteligível, procurando, assim, solucionar a questão. Por um lado, Heráclito tem razão, ao dizer que tudo flui e nada permanece o mesmo, pois o mundo sensível é o mundo da mutabilidade, do eterno devir, no qual todas as coisas estão em constante fluxo. Mas para além do mundo sensível, deve haver um mundo de essências eternas e imutáveis, inclusive a Ideia Suprema do Bem e da Beleza Absoluta, que não é passível nem de aumento e nem de diminuição e que não pode ser de natureza corruptível, ou seja, é preciso que haja um outro mundo, o mundo inteligível e, nesse caso, Parmênides está com a razão. O mundo sensível é uma cópia do mundo inteligível, das Ideias eternas e imutáveis. Os sentidos não revelam o mundo real, mas a mutabilidade do mundo fenomênico; o pensamento, por outro lado, nos remete ao mundo das Ideias e é através do pensamento que nos é revelado o mundo inteligível, eterno e imutável.

            A Teoria das Ideias formulada por Platão representa o núcleo central de sua teoria do ponto de vista metafísico e na Alegoria da Caverna corresponde à realidade exterior da caverna.

 

As Idéias são realidades inteligíveis e incorpóreas. A primeira característica que define a estatura metafísica das Idéias é a inteligibilidade à qual está estreitamente ligada à característica da incorporeidade [...] A inteligibilidade, portanto, exprime uma característica essencial das Idéias, que as contrapõe ao sensível, que lhes impõe um âmbito de realidade subsistente acima do próprio sensível, e que, justamente, por isso, só é captável com a inteligência que saiba destacar-se, adequadamente, dos sentidos (Fédon 65d – 66a apud NODARI, 2004, p. 366)

 

            Mas a Alegoria da Caverna também tem uma dimensão gnosiológica, ou seja, também é uma forma metafórica de falar sobre os diferentes modos de como homens e mulheres conhecem e percebem a realidade. Como esta alegoria nos ajuda a entender o modo pelo qual o homem pode chegar ao conhecimento? De que forma o pensamento pode chegar à verdade? Como é possível ter acesso ao mundo inteligível, em outras palavras, como é possível conhecê-lo? Este é o assunto da teoria do conhecimento e da gnosiologia que podemos desmembrar em pelo menos quatro grandes questões:

 

  1. a questão da possibilidade: é possível conhecer a realidade do mundo tal qual ele é?
  2. a questão do método: como é possível esse conhecimento?
  3. os instrumentos do conhecimento: os sentidos e a razão.
  4. o objeto do conhecimento: o mundo sensível e o mundo inteligível.

 

            O objetivo da filosofia platônica é claro: ascender ao conhecimento verdadeiro, epistêmico, científico e filosófico, abandonando o conhecimento falso da doxa e da opinião.

            Platão fala de diferentes estágios de acesso ao conhecimento, que poderíamos chamar de diferentes níveis de maturidade psicológica e espiritual. Veja o diagrama abaixo para entender melhor este processo de percepção da realidade:

 

 

            O diagrama acima simboliza o “Mito da linha dividida”, que aparece no final do livro VI da obra A República. E a Alegoria da Caverna na realidade é uma forma simples de tentar explicar tal mito, que divide o conhecimento a partir de quatro modos de relação com a realidade (sensível e inteligível) como vimos no esquema acima (para conhecer em detalhes o Mito da Linha Dividida acesse o link: Mito da Linha Dividida). Com efeito, ao terminar a explicação sobre os diferentes níveis de conhecimento usando como imagem a “linha dividida” e para tornar ainda mais claro e compreensível o entendimento de seus interlocutores é que Sócrates irá propor no diálogo a imagem do Mito da Caverna que se inicia no Livro VII de A República (PLATÃO, 1993; LIMA, 2007). Com efeito,

 

A alegoria da caverna faz os livros VI e VII manterem uma conexão direta. Pode-se dizer que o livro VII é inserido no final do livro VI, quando Platão faz uma analogia com o Sol, e a ela agrega a da linha: ele compara os diversos graus do conhecimento presentes no mundo sensível e no mundo inteligível a uma linha reta dividida (LAZARINI, 2007, p. 38)

 

            O primeiro modo de relação com o mundo é a eikasia: trata-se do domínio da opinião (doxa) que se forma de modo impreciso, incompleto, sem um conhecimento seguro sobre o mundo. A pistis (crença, convicção) é um conhecimento algo mais elaborado que inclui as ciências naturais como a botânica, a zoologia, biologia etc. Mas é ainda um conhecimento do mundo sensível, mutável, imperfeito, marcado, por isso mesmo, pela imprecisão do conhecimento sensível. É objeto das crenças.

            Para além do mundo sensível há o mundo inteligível e o primeiro tipo de relação com essa realidade é caracterizado pela geometria. Por certo, porque as figuras geométricas são entes ideais, portanto, atinge-se um nível de abstração, embora esta se dê ainda com alguma relação com o mundo sensível. É ainda um mundo de hipóteses. A dianoia (a faculdade de raciocínio; inteligência discursiva) se exerce sobre as coisas matemáticas e prepara o espírito para o conhecimento das Ideias. “A geometria assim nos prepara para a sabedoria. Que ninguém entre aqui se não for geômetra” (BERGSON, 2005, p. 112) – diz-se que era a inscrição que ficava no frontispício da escola de Platão, A Academia.

           Por fim o conhecimento das realidades inteligíveis só é dado pela intuição intelectual (a faculdade da alma denominada noesis ou nous), por meio da qual atingimos o conhecimento verdadeiro das coisas. O mundo das Ideias, o Hiperurânio, que só pode ser captado pela parte mais elevada da alma, isto é, pelo intelecto. Assim,

 

[...] a primeira região é subdividida em duas partes, aquela das meras imagens - sombras, reflexos, espelhamentos - e em seguida, aquela dos corpos sensíveis em geral - animais, plantas, objetos naturais e produzidos pela arte dos homens (510a). A segunda região geral, a dos seres inteligíveis, por sua vez, é também subdividida: em sua primeira parte existiriam ideias ainda apoiadas em elementos do sensível, estes últimos seriam a matéria para a construção de raciocínios hipotéticos e deduções inteligíveis, este é o domínio intermediário, região por excelência das matemáticas; finalmente, na outra e derradeira parte se atingiriam as ideias puras que dariam acesso ao principio absoluto, principio não-hipotético (anypóthetos), que seria o Bem (510b). Este, como princípio absoluto, como Ideia das Ideias, possuiria uma "divina transcendência" (daimonías hyperbolês - 509c), seria dele que emanaria todo o processo do conhecimento, dele os objetos do conhecimento humano receberiam a sua cognoscibilidade, o seu ser (tó einai) e a sua essência (ousia), ainda que ele próprio, o Bem, não seja ousia - como afirma-se em 509b - "mas sim, algo que ultrapassa de longe a ousia em majestade e potência" (BENOIT, 1995, p. 80-81).

 

            Platão fala, assim, em graus de conhecimento do mundo sensível e do mundo inteligível, a fim de poder explicar os diferentes modos de conhecimento. E o modo pelo qual ascendemos do mundo sensível ao mundo inteligível é através da dialética. O filósofo é aquele que contempla a verdade e que deve voltar à caverna (dialética descendente), contrapondo o movimento anterior (dialética ascendente) em que o prisioneiro sai da caverna para a região superior (para compreender melhor o que é a dialética e como ela é necessária ao conhecimento filosófico, veja o texto em nosso website sobre Platão).

            Os homens comuns se detêm no nível da opinião. Os matemáticos ascendem ao nível da dianoia. Só os filósofos (como o entende Platão) tem acesso à noesis. Por isso o Filósofo é também o Dialético: somente através da dialética, o intelecto supera as sensações e todos os elementos ligados ao sensível; capta as Ideias na sua pureza, ascendendo de Ideia em Ideia até a Ideia Suprema, o Incondicionado.

 

Disponível em: Slideshare, slide 3

Acessado em 24/02/2016

 

            Mas a genialidade de Platão vai ainda mais além, pois a Alegoria da Caverna, além de servir para ilustrar de forma simbólica seu pensamento filosófico, metafísico e gnosiológico, serve também para ilustrar seu pensamento a partir de outras diferentes perspectivas, como se poderá perceber através dos links abaixo:

 

Interpretação Política da Alegoria da Caverna

Interpretação Ética e Religiosa da Alegoria da Caverna

Interpretação pedagógica da Alegoria da Caverna

A Alegoria da Caverna em Quadrinhos, por Maurício de Souza

 

 

Referências Bibliográficas

 

BENOIT, Alcides Hector R. Platão além do dogmatismo. Trans/Form/Ação, Sao Paulo, vol. 18, n. 7, p. 79-93, 1995. Acessado em 25/02/2016.

BERGSON, Henri. Cursos sobre a filosofia antiga. Tradução de Bento Prado Neto. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

LAZARINI, Ana Lúcia. Platão e a educação: um estudo do Livro VII de A República. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Estadual de Campinas. Campinas-SP, 2007. Acessado em 24/03/2016.

LIMA, Jorge dos Santos. A perfeição da justiça em Platão. Uma análise comparativa entre a Alegoria da Linha Dividida e os personagens d’A República. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2007. Acessado em 24/03/2016.

NODARI, Paulo César. A doutrina das Idéias em Platão. Síntese – Revista de Filosofia, v. 31, n. 101, p. 359-374, 2004. Acessado em 25/02/2016.

OLIVEIRA, José Silvio de. A paideia grega. A formação omnilateral em Platão e Aristóteles. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de São Carlos. São Carlos-SP, 2015. Acessado em 24/03/2016.

PLATÃO. A República. 7. ed. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

QUEIRÓS, Antônio José V. de. Os bastidores da caverna de Platão (entrelinhas de uma alegoria). O que nos faz pensar, n. 24, p. 95-115, out. 2008. Acessado em 08/03/2016.

RODRIGUES, Elza Maria. Um breve estudo sobre a educação na República de Platão. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Estadual de Campinas. Campinas-SP, 2007. Acessado em 24/03/2016.

 

 

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