A Ética em Aristóteles

A Ética em Aristóteles

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em 2015


 

 

            A filosofia aristotélica constitui uma visão sistemática e integrada do conhecimento, com a valorização da ciência empírica, da ética e da política. Aristóteles divide o conhecimento da seguinte forma: prático (práxis), produtivo (poiesis) e teórico. O conhecimento prático abrange principalmente o estudo da ética e da política. A ética é um saber prático e pressupõe três elementos fundamentais da filosofia aristotélica: o uso correto da razão, a boa conduta (eupraxia) e a felicidade (eudaimonia).

            Aristóteles desenvolveu uma reflexão ética perguntando-se sobre o fim último do ser humano. Para o quê tendemos? E respondeu: para a felicidade. Todos nós buscamos a felicidade. E o que Aristóteles entende por felicidade? Uma atividade conforme a razão – realização do que há de mais característico do ser humano – e a virtude (ARISTÓTELES, 1987, Livro I). “A felicidade é, para Aristóteles, a atividade da alma segundo sua virtude (excelência). E tal virtude, ou excelência, reside na sua atividade racional” (FERRAZ, 2014, p. 43).

 

 

Disponível em: Blog PhilosySofia

Acessado em 29/03/2016

 

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Acessado em 29/03/2016

 

            Para Aristóteles a felicidade está ligada à atividade humana, sendo um tipo de atividade em conformidade com a “reta razão” e com a virtude (areté). Isso quer dizer que a vida virtuosa é racional. A felicidade implica a educação da vontade em conformidade com os princípios racionais da moderação e, finalmente, está fundamentalmente ligada à política, uma vez que o homem é definido como animal político e sua conduta ética tem expressão na pólis e a partir dela é julgada. É na sociedade – na pólis – que os homens podem alcançar o bem supremo: a felicidade, daí porque, em Aristóteles, ética e política são inseparáveis.

 

[...] razão, ética e política são elementos inseparáveis, constitutivos do homem em Aristóteles. Por um lado, a característica de ser racional o conduz à vida política. A vida política, por sua vez, norteará o bem viver ou o viver ético deste homem, que terá como expressão mais própria desta boa vida a própria vida racional. Conclui-se, assim, um círculo virtuoso que para existir não pode prescindir de nenhum destes três elementos que lhe são constitutivos (PANSARELLI, 2009, p. 14).

 

            A importância dada por Aristóteles à vontade racional (a vontade guiada pela razão como elemento fundamental da vida ética), à deliberação e à escolha o levou a considerar uma virtude como condição de todas as outras e presente em todas elas: a prudência ou sabedoria prática. O prudente é aquele que, em todas as situações, é capaz de julgar e avaliar qual a atitude e qual a ação que melhor realizarão a finalidade ética, ou seja, entre as várias escolhas possíveis, qual a mais adequada para que o agente seja virtuoso e realize o que é bom para si e para os outros.

        Também devemos a Aristóteles outras contribuições importantes no campo da reflexão sobre a ética e a moral, principalmente a partir de sua obra Ética a Nicômaco, onde o mesmo procurou refletir sobre as virtudes que constituiriam a arete (a virtude ou excelência ética) e a moralidade grega. Com sua bem conhecida teoria da virtude como justa medida, Aristóteles distinguiu vícios e virtudes pelo critério do excesso, da falta e da moderação. Eis um pequeno esboço que encontramos das virtudes e vícios correlatos em sua obra:

 

Vício por falta

Virtude

(meio-termo)

Vício por excesso

Covardia

Coragem

Temeridade

Insensibilidade

Temperança

Intemperança

Avareza

Liberalidade

Prodigalidade

Mesquinez

Magnificência

Vulgaridade

Pusilanimidade

Magnanimidade

Vaidade

Pacatez

Calma (Paciência)

Irascibilidade (fúria)

Falsa modéstia

Veracidade

Jactância

Rusticidade

Espirituosidade

Zombaria

Impudência

Modéstia

Acanhamento

 

            A virtude da coragem não significa nada temer. Enquanto o covarde é aquele que tudo teme, o corajoso age com equilíbrio, de acordo com a prudência e a moderação (sophrosine). Desta forma, a coragem é uma justa medida entre a covardia e a temeridade (destemor). A temperança (qualidade ou virtude de quem é moderado, comedido), o equilíbrio entre a intemperança e insensibilidade. A liberalidade (qualidade ou condição daquele que é liberal, no sentido de generoso) uma justa media entre a prodigalidade (dar em grande quantidade, gastar em profusão) e a avareza. Todas essas virtudes devem ser praticadas pelo filósofo e pelos indivíduos de uma forma geral.

 

 

A Ética nas obras de Aristóteles

 

            Aristóteles trata da moral em três obras: a Ética a Nicômaco, provavelmente publicada por Nicômaco, seu filho, ao qual é dedicada; a Ética a Eudemo, inacabada, refazimento da ética de Aristóteles, devido a Eudemo; e a Grande Ética, compêndio das duas precedentes, em especial da segunda. Consoante sua doutrina metafísica fundamental, todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza, à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim, o seu bem, a sua felicidade, e, por consequência, a sua lei. Visto ser a razão a essência característica do homem, realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e sendo disto consciente. E assim consegue ele a felicidade e a virtude, que é precisamente uma atividade conforme à razão, isto é, uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. Logo, o fim do homem é a felicidade, a que é necessária a virtude, e a esta é necessária a razão. A característica fundamental da moral aristotélica é, portanto, o racionalismo, visto ser a virtude ação consciente segundo a razão, que exige o conhecimento absoluto da natureza e do universo, natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar.

 

[...] ao início daquela que é provavelmente sua mais importante obra dedicada à filosofia prática, “Ética a Nicômaco”, Aristóteles afirma que o objeto de todo “procedimento prático e toda a decisão” visam a um certo bem40. Tal bem seria o “bem supremo” do homem, isto é, seu “fim derradeiro”, aquele em torno do qual todos os demais, por assim dizer, “orbitariam”. Tal fim, como Aristóteles no decorrer da obra esclarecerá, será a eudaimonia (felicidade) (FERRAZ, 2014, p. 45).

 

            Nesta obra fica claro como a felicidade é o telos (o fim) da filosofia prática aristotélica e que pressupõe uma ação virtuosa e racional. É também nesta obra que aparece a clássica definição aristotélica da virtude como uma justa medida (ARISTÓTELES, 1987, Livro II). “A virtude irá consistir no “meio termo” (ou na “justa medida”) entre dois extremos. Todas as virtudes éticas são um “meio termo” entre dois extremos” (FERRAZ, 2014, p. 50). Ou nas palavras do próprio Aristóteles:

 

A virtude é uma disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e paixões, e consistente numa medianía, isto é, a medianía relativa a nós, que é determinada por um principio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. É um meio termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta, pois nos vícios ou há falta ou há excesso daquilo que é conveniente no que concerne às ações e às paixões, ao passo que a virtude encontra e escolhe o meio-termo” (1987, Livro II, 1107 a 1-5)

 

            O que faz de Aristóteles um herdeiro legítimo da tradição pitagórica e platônica segundo a qual a sabedoria pode ser expressa na máxima: “nada em excesso”. E é nesta obra que Aristóteles propor uma classificação em especial de pelo menos doze virtudes (tal como vimos no quadro mais acima), a saber: coragem, temperança, liberalidade, magnificência, magnanimidade, ambição apropriada, paciência, veracidade, sagacidade, amabilidade, modéstia e justa indignação (ARISTÓTELES, 1987, principalmente Livros III e IV).

 

Referências Bibliográficas

 

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de L. Vallandro e G. Bornhein da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo, Abril, 1987. (Os Pensadores)

FERRAZ, Carlos Adriano. Elementos de ética. Pelotas: NEPFil online, 2014. Acessado em 18/03/2016.

PANSARELLI, Daniel. Para uma história da relação ética-política. Revista Múltiplas Leituras, v.2, n.2, p. 9-24, jul. /dez. 2009. Acessado em 12/02/2016.

 

 

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