A paixão de Ajuricaba: um mergulho para a morte e um salto para a imortalidade na literatura amazonense

A paixão de Ajuricaba: um mergulho para a morte e um salto para a imortalidade na literatura amazonense

por Luana de Vasconcelos Pantoja

acadêmica do curso de Letras da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

 

            Ajuricaba era um líder da nação indígena dos Manau no início do século XVIII considerado pelos portugueses como um líder ofensivo à soberania da coroa portuguesa na região. A ocupação lusa na Amazônia tinha como uma de suas estratégias deslocar populações indígenas para determinadas localidades onde tornava-se mais fácil aos padres catequizá-los e aos colonos utilizar sua mão-de-obra. Através da sua liderança Ajuricaba mobilizou uma confederação de povos do rio Negro e resistiu por oito anos contra a ocupação lusitana. Os Manaú foram derrotados em 1728 por uma poderosa força militar. Ajuricaba foi preso e quando era transportado para Belém, onde seria vendido como escravo, atirou-se no Rio Negro, preferindo suicidar-se (pois estava acorrentado) do que sofrer assassínio pelo invasor colonizador.

            O cronista Mauricio de Heriarte escreveu em 1665 que aquela região do rio Negro era

 

Habitada por inumeráveis pagãos. Eles possuem um chefe (...), que chamam de rei, (...) e ele dirige várias tribos subjugadas ao seu domínio e é por elas obedecido com grande respeito. (...) As aldeias e gentes desse rio são grandes e suas casas circulares e fortificadas por cercas. Se esse território for colonizado pelos portugueses, nós poderemos fazer dali um império e poderemos dominar todo o Amazonas (apud Souza, 2005) .

 

            No ano de 1974, surge em Manaus um grande sucesso, uma peça teatral que entraria para a história da literatura Amazonense e que levaria o grupo de teatro TESC (Teatro Experimental do SESC) a um verdadeiro sucesso de público e bilheteria esgotada: A Paixão de Ajuricaba de Márcio Souza. “Márcio Souza, em conjunto com os integrantes do Tesc, escreve um conjunto de textos dramáticos que revisa criticamente a história social e política da Amazônia, desde o período colonial até a sua contemporaneidade” (LIMA; LUNA, 2010, p. 180). Mas foi A Paixão de Ajuricaba, a primeira peça que Márcio Souza escreveu para o Tesc, que deu notoriedade ao mesmo, com “grande receptividade e repercussão por onde passou, desde a primeira encenação em 1974 até sua última temporada em janeiro de 2012, no teatrinho do Tesc, e em posterior turnê pela França” (COSTA, 2012, p. 12).

            O Tesc era um movimento cultural com expressão política discutindo de modo crítico a problemática política e social na Amazônia, seguindo uma tendência presente em outras regiões brasileiras, conforme afirmam Rainério Lima e Sandra Luna.

 

As propostas teatrais procuravam tematizar a realidade nacional na produção dramática enquanto instrumento dinamizador do conjunto das forças populares, de modo a fomentar a organização das classes marginalizadas que, atingidas Ideologicamente, tomariam a iniciativa de se afirmarem como força histórica real (2010, p. 180).

 

            Doze municípios amazonenses e nove capitais do país tiveram contato direto com essa transgressão. A companhia incomodava o conformismo extrativista da Província ressentida, a censura da ditadura militar, e intrigava os críticos dos chamados grandes centros.

            A criação do Tesc teve como um de seus objetivos, como afirma Márcio Souza (apud LIMA; LUNA, 2010, p. 185), a defesa da cultura amazônica e da identidade das culturas indígenas. “Mergulhar nas culturas indígenas e na história da Amazônia, devolvendo ao público, no palco, de uma maneira crítica e liberta o que havia sido silenciado” (COSTA, 2012, p. 14). Sendo a luta política e de resistência uma marca dessa identidade, relegada ao abandono e correndo o risco de ser exterminada pela ação exploratória colonialista, refletindo criticamente sobre o processo hitórico-social da região amazônica e resgatando sua História. No momento em que

 

o teatro amazônico busca alternativas de resistência e apela à afirmação de uma identidade própria como princípio norteador de sua produção cultural, assomam com gravidade extrema os projetos megalômanos de ocupação da Amazônia em 1970, consubstanciados em empreendimentos tais como a Rodovia Transamazônica e a Belém-Brasilia. Há, ainda nesse cenário, a ameaça crescente do capital internacional, expressa, por exemplo, no Projeto da Hiléia Amazônica, ou mesmo da Zona Franca de Manaus, tudo isso provocando na região uma desvalorização crescente das culturas étnicas nativas, da população ribeirinha e dos chamados povos da floresta, além da intensificação dos conflitos em torno da ocupação de terras, com garimpeiros, fazendeiros, posseiros, etc. Sem deixarmos de mencionar no conturbado período o movimento de guerrilhas na região do Araguaia-Tocantins (LIMA; LUNA, 2010, p. 185).

 

            Nesse processo, a cultura indígena se torna um dos elementos centrais no processo identitário da Amazônia e A paixão de Ajuricaba é uma peça teatral essencial para compreender essa produção da dramaturgia amazonense, “já que se apropria da história de resistência indígena, focalizando Ajuricaba, importante líder manaú do Alto Rio Negro, em sua luta contra a bárbara invasão colonizadora dos portugueses no Grão Pará do séc. XVIII” (LIMA; LUNA, 2010, p. 189).

            A paixão de Ajuricaba de Márcio Souza é um romance que conta a história do herói amazonense que lutou pela liberdade de seu povo e da sua amada até o fim de seus dias e entrou para a história fazendo o gesto que lhe concedeu a imortalidade dentro da literatura amazonense. Quando em um ato de puro amor pela sua raça e dominado pelo desejo de justiça, se joga nas águas escuras do rio Amazonas e seu corpo jamais é encontrado. Ajuricaba, rei da tribo dos Manaú, o maior tuxaua daquela região.

            Também faz parte do enredo do romance a violenta guerra que o tuxaua dos Manau trava com os índios Xirianá e em meio ao conflito, Ajuricaba mata Poeraré, rei dos Xirianá e rouba Inhabú, filha de Poeraré. Só mais tarde, após dias de cárcere, a índia guerreira revela sua verdadeira identidade. Inhabú era filha de Poeraré, princesa dos xirianá.

            Mas Ajuricaba se apaixonou pela princesa da qual o pai ele mesmo matara e então ela, após muita resistência em respeito ao seu pai Poeraré e todos os seus irmãos da tribo derrotada tentou resistir, mas enfim, também se apaixona pelo bravo guerreiro. Ajuricaba fala:

 

Eu fui seu primeiro amante, eu tive diversos encontros com ela, e de tal maneira nos engraçamos que não atentei para o fato dela ser filha do nosso maior inimigo (...) eu resolvi que tinha de me deitar com ela, eu não descansaria enquanto não a visse em minha rede (...) ela já havia notado os meus olhos que traíam o desejo e se preparara para se defender. E ela escapou rápida como uma cutia e veio à guerra, submeti seu povo e a sequestrei. (SOUZA, 2005, p. 22)

 

            Nesta fala de Ajuricaba, o guerreiro revela o desejo de ter Inhambu para si. A índia resiste e o guerreio então planeja um ataque a sua tribo, os Xirianá, e depois a sequestra. Fala de Inhambu:

 

E ele me pareceu senhor de si, colocou sua língua como um cunabi entre meus lábios e ficou assim, esperando, até mover aquela língua com ritmo, apertando-me e sufocando-me com o abraço. E eu me senti afetada pelos cuidados dele. Mas as cinzas ainda dançavam no ar e eu tinha de esperar que descansassem. (SOUZA, 2005, p. 23)

 

            O jovem casal se casa em uma cerimônia onde reúne os Manau e os Xirianá, mas os portugueses não podiam tolerar por muito tempo a resistência de Ajuricaba. O guerreiro impedia bravamente o avanço de qualquer tropa lusitana e guerreava os índios traidores. O nome de Ajuricaba ficou conhecido na capital da província. E era preciso destruir o orgulhoso caudilho da selva. Um processo foi organizado em Belém para promover a guerra a Ajuricaba que deveria ser preso e imediatamente julgado. O rio Negro deveria pertencer somente ao rei de Portugal.

            Na prisão, Ajuricaba encontra-se com o aculturado Teodósio, um índio tukano, nascido Dieroá, porém foi catequizado pelos irmãos carmelitas que o batizaram de Teodósio e trabalhava como carcereiro. Ajuricaba tenta convencer que Teodósio não tinha identidade, pois não era branco e nem mais índio, se vestia como branco, mas de fato, não era. No entanto, o aculturado índio não dava ouvidos as palavras de Ajuricaba, ele acreditava que estava agindo corretamente e que as palavras do guerreiro não passavam de teimosia. Após um dialogo onde Teodósio pergunta para Ajuricaba o que é mais importante entre ficar ao lado dos estrangeiros ou ser morto por eles? e o guerreiro responde com voz enfurecida: que o povo é mais importante. O aculturado percebe que ficar ao lado dos portugueses era negar sua própria natureza. Nesse momento da peça entra o coro:

 

 

O domesticado Teodósio sentiu-se tocado pelo mistério que era olhar a natureza em sua glória, e daquela hora em diante começou a surgir um novo homem. Ó fúrias selvagens, por que lamentar a dor que sofre o prisioneiro impotente? (SOUZA, 2005 p. 55.).

 

            No dia seguinte Ajuricaba é acorrentado por Dieroá que leva ele e outros prisioneiros para descer o rio Negro em direção a Belém onde iriam ser julgados pelos crimes de desobediência ao rei de Portugal. O guerreiro pergunta sobre sua amada Inhambu, que não recebe nenhuma resposta, ele já sabia que ela havia sido assassinada. O comandante português assassinou Inhambu que após uma luta na tentativa de salvar sua honra dos assédios dele é mortalmente ferida pelo seu próprio punhal, desferido pelo comandante. Antes de sua morte assim se expressou Inhambu:

 

Chorai amantes, pois que chora ouvindo qual razão o faz chorar. Amor ouve mulheres a clamar, pelos olhos mostrando amarga dor. Pois a morte vilã causando horror (...). Tão profunda de amor foi a amargura que lamentar-se o vi de forma verá sobre minha pálida imagem atraente. E olhava para o Céu constantemente, onde aquela alma abrigo já tivera que dona foi de tanta formosura. (SOUZA, 2005 p. 58).

 

            Quando Ajuricaba estava indo como prisioneiro para a cidade de Belém, e já estavam em suas águas, ele e seus homens se levantaram da canoa onde se encontravam acorrentados, e tentaram matar os soldados portugueses. Esses fortemente armados bateram em alguns e mataram outros. Ajuricaba então pulou no mar e não reapareceu mais vivo ou morto.

            Ajuricaba pulou da canoa de seus opressores para as águas da memória popular, libertando-se dos grilhões e ressuscitando como um símbolo de coragem, liberdade e inspiração. O querido herói amazonense tinha 27 anos de idade quando foi retirado da prisão e levado para Belém onde assumiu seu gesto de extremo amor à liberdade. Assim, se expressou Teodósio após saber da morte do guerreiro.

 

Ele tinha 27 anos quando o retiraram da cela. Foi levado a ferro para embarcação fundeada na baía do rio Negro. Era uma manhã de sol forte, fazia calor e o rio estava calmo e sem banzeiro (...) Eu fui carcereiro do meu próprio rei. Que cegueira era essa que me impedia de enxergar a realeza? (...) olhei para mim mesmo vi a miséria que era. Um homem sem família e sem tradição (...) Pintei meu rosto com as tintas de guerra. Meu nome é Dieroá, antigo assimilado de nome Teodósio, guerreiro e flagelado dos portugueses. (SOUZA, 2005. p. 73).

 

            O trágico destino do herói amazonense Ajuricaba reforçam as influências da tragédia grega que Souza retrata na peça, assim como também, o coro, a figura do Corifeu, a musicalidade e a poesia na fala dos personagens e mais peculiarmente, é que ele traz dois heróis na tragédia, como se fosse uma continuação, pois não só Ajuricaba que morre no final como nas tragédias gregas, o guerreiro Dieroá sofre com o sentimento de culpa por ter aprisionado sua verdadeira realeza, se enche com o desejo de fazer justiça, pinta o rosto tomando seus objetos de guerra nas mãos como se fosse invencível e assume o papel de herói para também ser morto em batalha não só para vingar a morte de seu rei Ajuricaba, como também lutar pela liberdade de seu povo.

 

Em 1729, os índios do rio Negro novamente se rebelam, sob o comando do Manau Teodósio. Depois de alguns combates, Teodósio é preso e enviado para Lisboa. Novamente, em 1757, outro líder Manau forma uma federação de tribos no rio Negro, ataca as vilas de Lamalonga e Mamoeira e ocupa a ilha de Timoni. A rebelião é sufocada violentamente, mas a lição de Ajuricaba não é jamais esquecida (SOUZA, 2005, p.87).

 

            A bravura e a coragem do herói Ajuricaba foi retratada na música do Boi Bumbá Garantido, em uma das maiores expressões da cultura Amazonense: o festival folclórico de Parintins/AM.

 

Herói Ajuricaba

Ah, Ah, Ah, Ah
Ajuricaba, líder da taba
Da tribo dos Manaó
Ajuricaba, morubixaba
Da tribo dos Manaó
He, he, he, he
Bravura e coragem sobrevivem
Nas veias do povo baré
Valentes de grandes conquistas
Exemplo de raça e de fé
Ô, ô, ô, ô
E a vida do nosso guerreiro
Repousa no encontro dos rios
Rio negro e rio mar, ah, ah

 

Referências Bibliográficas

COSTA, Mariana Baldoino. Personangens e Identidades em A Paixão de Ajuricaba, de Márcio Souza. Dissertação (Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia). Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia. Universidade Federal do Amazonas, 2012.

LIMA, Rainério; LUNA, Sandra. Paixão na Zona Franca: Márcio Souza e a Dramaturgia na Amazônia. Graphos, João Pessoa, vol. 12, n. 01, junho/2010.

SOUZA, Márcio. A paixão de Ajuricaba. São Paulo: Valer Editora, 2005.

 

 

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