A psicanálise evolucionista e espiritualista de Pietro Ubaldi

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jun. 2017

 

            A personalidade humana na teoria ubaldiana é constituída por uma parte inconsciente (dividido em subconsciente e superconsciente) e outra consciente, como na teoria psicanalítica freudiana. O consciente está, por assim dizer, na superfície da psyché, se quisermos usar a imagem utilizada por Freud, da estrutura da psyché como um iceberg onde a parte submersa corresponde ao inconsciente. Pietro Ubaldi segue esta compreensão e afirma que a parte consciente é a zona analítica, onde se realiza o trabalho atual de construção da personalidade e aquisição de conhecimentos e experiências. “Debaixo desta zona, na qual o homem comum vive a sua vida de cada dia, há outras zonas, sobrepostas, situadas fora desse cons­ciente, no inconsciente” (UBALDI, PNE, p. 94). Nesta zona inconsciente o pensamento deixa de ser analítico e se torna mais vasto, mais profundo dirigido para a assimilação e conservação do velho, ao contrário do consciente que é a exploração do novo e construção do eu. O que é vivido pelo consciente na superfície vai estratificando-se no inconsciente.

 

Nas jazidas do subconsciente fica depositado tudo o que nele colocamos. De lá ele está pronto para ressuscitar no consciente [...] Em substância, se trata de uma restituição, pela qual o subconsciente devolve ao consciente o material que na vida este conquistou e lhe transmitiu, e que agora o consciente recebe de vol­ta, mas elaborado e assimilado em forma de impulsos e qualida­des pessoais (UBALDI, PNE, p. 100)

 

            Vemos assim porque para  Pietro Ubaldi  a psicanálise, como a psicologia, é ciência da alma, com a diferença que à primeira cabe o estudo do inconsciente para descobrir os elementos componentes da personalidade do indivíduo e, igualmente, o seu destino, que é uma consequência necessária do passado (inscrito no subconsciente) e das ações presen­tes que por sua vez ficarão inscritas também no subconsciente quando se tornar passado adquirido.

            O estudo da psicanálise é, assim, fundamental para uma compreensão mais exata da personalidade humana que não se resume apenas no seu consciente. Esse estudo é tão mais importante quanto nos ajuda a entender a nossa existência, porque é no interior de nossa psyché que iremos encontrar as origens de nossos atos. Os nossos atos, para serem melhor compreendidos, precisam ser analisados à luz dos impulsos interiores do qual derivam.

 

Isto prova a importância da psicanálise, mas uma psicanálise concebida em sentido mais vasto do que a atual vigorante, isto é, como ciência que desvenda o mistério da alma, descobrindo o que fomos no passado e, por conseguinte, seremos no futuro, nos reve­lando o conteúdo de uma vida nossa muito maior, da qual a atual não é senão um breve episódio (UBALDI, PNE, p. 80)

 

            Todo esse conhecimento é importante e necessário para a (re)construção do eu. É o conhecimento que pode nos proporcionar a sabedoria necessária para buscar “o conhecimento de si mesmo”, como acreditavam Sócrates e os antigos filósofos. Ou como entre os povos orientais que acreditam que através da prática da meditação profunda seja possível alcançar o conhecimento de si mesmo. Através da psicanálise é possível descobrir quem somos, quais forças agem no nosso interior, o ponto frágil de nossas almas e assim evitar a dor e o sofrimento. É um trabalho do qual não podemos escapar, mas podemos decidir se vamos realizá-lo de forma inconsciente (como até hoje o fizemos) ou se o faremos de forma consciente.

            Mas para isso a psicanálise não pode ficar limitada ao organismo animal. “O psica­nalista do futuro será o médico do nosso organismo espiritual, da saúde do qual depende o bem-estar do corpo” (UBALDI, PNE, p. 82). Hoje predomina o médico do corpo mas, no futuro, os dois médicos, do corpo e da alma, trabalharão lado a lado. Mais do que um médico, o psicanalista do futuro será um educador, um orientador de almas, cujo maior e mais importante objetivo é trabalhar pela sua evolução espiritual.

            Não é difícil saber quais instintos são dominantes na alma humana. O conteúdo do subconsciente pode ser revelado através daquilo que mais toca indivíduo, através do cinema, dos noticiários, das novelas. Se um indivíduo é chamado a atenção pelos crimes, pela selvageria, pela forma violenta com que são noticiados os fatos do cotidiano, revela que ainda predomina no seu subconsciente o instinto da fera. O mesmo pode ser dito em relação aos apetites sexuais, à exposição erótica com o qual somos bombardeados todos os dias pelas propagandas dos mais diversos meios de comunicação.

 

Tudo isto re­vela quais são os instintos ainda dominantes, que com tais meios procuram desabafar com a fantasia, agora que as leis de um mundo mais civilizado proíbem que tais impulsos se concretizem nos fatos. Assim, a mente se satisfaz com tais substitutos, que revelam sua na­tureza, sempre pronta, porém, a se satisfazer com fatos, logo que desaparece o freio da ordem, disciplina mantida com a força (UBALDI, PNE, p. 85).

 

            Um exame de consciência pode revelar facilmente quais instintos ainda predominam na personalidade humana. Basta mergulhar em nossos pensamentos, acompanhar-lhes o curso, e vê como e para onde se dirigem. Assim é possível ler o subconsciente no qual não iremos encontrar apenas a fera, mas também o anjo, as aspirações divinas, que nos impulsionam para o alto e para Deus. É desse conflito entre a fera e o anjo que surge a luta incessante e desapiedada do homem que deseja transformar a sua personalidade, concertar o passado e os erros nele cometidos, seguir na senda do bem. Eis o bom combate! Eis a luta que surge

 

entre duas posições evolutivas dentro do mesmo indivíduo que as contém: de um lado a sabedoria do instinto bem comprovada e confirmada por longa experiência, profundamente arraigada nos alicerces da vida, sabedoria encarregada de defendê-la, garantindo-lhe a continuação. De outro lado, a sabedoria do homem consciente, conquista nova que se coloca acima do instinto, destinada não a conservar o pas­sado, mas a explorar o futuro (UBALDI, PNE, p. 84).

 

            É a luta entre o involuído e o evoluído que existe dentro de cada indivíduo, chocando-se o passado com o futuro, a matéria e o espírito, a animalidade e a espiritualidade, a fera e o anjo. Alguns podem ver aí múltiplas personalidades dentro de um mesmo indivíduo, uma personalidade resultado do passado e outra que deseja o futuro. Uma das duas irá prevalecer. As Leis da vida querem que o espírito vença a matéria, que a fera se transforme em anjo, que o novo substitua o velho, que os instintos superiores tomem o lugar dos inferiores. É um trabalho que deve ser realizado no interior de cada indivíduo. Trabalho que já vem sendo realizado a séculos, de mais de uma vida, de inúmeras vidas sucessivas.

 

 

A Nova Psicanálise: Psicanálise e Reencarnação

 

            Na teoria ubaldiana os instintos são automatismos adquiridos ao longo de toda a existência e gravados no subconsciente. Todavia, ao contrário da psicanálise hodierna que está fechada nos limites estreitos que vai do nascimento até a morte física, a nova psicanálise considera não apenas a vida atual, mas todas as vidas precedentes: teoria reencarnacionista. A psicanálise hodierna ignora essa realidade muito mais vasta e muito mais profunda que tem suas raízes em um passado longínquo, que se perde ao longo das eras, de outras vidas, da qual esta não presenta senão um átimo no universo. Tal psicanálise só pode abranger um espaço mínimo da nossa existência, bastante curto, diga-se de passagem, para explicar a totalidade da existência humana.

            Por isso Ubaldi fala de uma Nova Psicanálise, que complete a atual, limitada ao terreno dos efeitos, ignorando as causas onde tudo se origina. Falta à psicanálise atual a parte mais importante: “aquela onde estão os alicerces que sustentam o edifício do eu, aquela das raízes onde se apoia a árvore, e das razões que explicam e justificam o estado atual do indivíduo” (UBALDI, PNE, p. 81). Esse entendimento de que a vida vai além do nascimento é fundamental para a psicanálise “sem a qual esta não pode entender o presente, que é conseqüência daquele passado, que representa sua raiz” (UBALDI, PNE, p. 90).

          No início de cada existência, cada indivíduo traz consigo o seu passado (de vidas pretéritas) gravado no subsconsciente e esta base representa um aspecto significativo de sua personalidade e determinante de sua existência. Cada um traz em si na forma instintiva o conhecimento adquirido. É assim que surge o homem prodígio: o poeta, o artista, o filósofo, o homem de ciência. E seu destino é determinado de acordo com o aprendizado adquirido e o aprendizado que deve realizar. Mas sempre em função de sua personalidade. Na sua viagem pela jornada da vida, o indivíduo traz o fruto de sua experiência passada, mas que não permanece estática, e que vai acumulando novos conhecimentos, nova sabedoria, que no futuro farão parte do seu subconsciente, cristalizando-se tanto mais quanto mais forte for o aprendizado. Cada vida é uma continuação, visando a evolução do espírito, e não pode ser vivida senão em cima do que foi construído no passado e existe como potencialidade para viver no futuro.

            O subconsciente contém um mundo muito vasto do que aquele preterido pela psicanálise hodierna: um passado imenso, muito mais rico, muito mais cheio de automatismos e instintos, em que o eu vive infinitas experiências, diferente para cada um, de acordo com o caminho percorrido.

 

Referências Bibliográficas

 

UBALDI, Pietro. Princípios de uma nova ética. 3. ed. vol. 20. Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi, 1988. 24 vol.

 

Filosofia Política → Filosofia Contemporânea → Pietro Ubaldi → A psicanálise evolucionista e espiritualista de Pietro Ubaldi

Nas citações de Pietro Ubaldi utilizamos a sigla das obras para fazer referência as mesmas.

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