A utopia de Thomas Morus

A utopia de Thomas Morus

por André Peixoto de Souza

 

A utopia de Moro. Thomas Morus (ou Tomás Moro) foi um jurista e estadista inglês da corte de Henrique VIII, conhecido por haver se posicionado contra o rei na “questão Ana Bolena” e por haver escrito e publicado, bem no início do século XVI, dentre várias outras obras, o livro Utopia.

Nesse texto essencialmente humanista renascentista (e de evidente influência platônica e agostiniana), o autor apresenta uma ilha imaginária, chamada Utopia (u, negação; topos, lugar) que seria um protótipo da perfeição social, da mais plena harmonia em termos de convivência humana, um “não lugar” de rejeição do real (que está falido) e de esperança no ideal (que se deseja construir). Essa ilha acabou denominando o termo útil até hoje para significar uma sociedade perfeita ou ideal: utopia!

Na obra, antes de descrever a ilha, porém, Tomás Moro estabelece rigorosa crítica à Inglaterra tudoriana, quando “um bandos de ladrões e uma justiça cega” – ganância, glória e paixões – predominam sobre os singelos interesses do povo oprimido e miserável. É a corrupção desenfreada da monarquia centralizada, a sede por dinheiro e poder emanada por nobres e novos burgueses e o visível abismo entre as classes sociais que move o autor a escrever um duro enfrentamento sobretudo ao governo do rei Henrique VIII.

Todavia, na ilha – assim imaginada a partir do relato de seu amigo Américo Vespúcio, recém chegado do recém descoberto Brasil (diz-se que Utopia teria sido inspirada em Fernando de Noronha!) – é o bem comum que pauta toda sua estruturação.

A produção é dividida de forma igualitária, de modo a inexistir criminalidade ou mendicância. Não há, igualmente, propriedade privada, pois que o pressuposto de Utopia é a comunhão dos bens outrora particulares. Tem-se, aqui, uma outra lógica social-econômica (bem desenvolvida no século XIX): a terra serve para ser cultivada, e não simplesmente possuída.

Dinheiro – ouro e prata – são desprezíveis porquanto irrelevantes (ali não há prisão: os pouquíssimos criminosos são obrigados a usar anéis e correntes de ouro, uma forma de marcar cinicamente a inutilidade das materialidades). As profissões são escolhidas a partir das aptidões e interesses de cada utopiano, que servem a todos a partir da necessidade e da solidariedade.

Trabalho e liberdade pautam o seu cotidiano: seis horas diárias de serviços, duas horas diárias de repouso, oito horas diárias de lazer ou estudos, oito horas noturnas de sono. Residências, roupas e alimentos estão na mesma proporção, para todos. Não há quem seja superior a outrem por ter mais ou ser maior: ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer o que não queira. Há, ainda, escolas e hospitais bem estruturados, úteis a todos, igualmente.

Utopia preza, em primeiro lugar, pelo amor e reverência a Deus, criador de tudo e veículo único de felicidade humana; em segundo lugar, preza por alegria, conforto, solidariedade, cooperação, igualdade, liberdade, segurança, respeito, justiça. Utopia, “a nação mais civilizada do mundo”, é esse estado de pleno bem estar do ser humano, é utopia, é “não lugar”: inexistente, irreal, inatingível.

Da corte à prisão, Moro foi fiel aos seus princípios. Recusou-se a aceitar Henrique VIII como soberano da Igreja (Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra). A mando do rei – então excomungado pelo Papa Clemente VII e, em seguida, fundador da Igreja Anglicana –, Moro foi processado, julgado, condenado e executado em praça pública (por decapitação a machadada) e sua cabeça foi exposta durante um mês na ponte de Londres.

Quatro séculos depois, não obstante, e após reconhecimento de seu martírio pela Igreja, foi canonizado pelo Papa Pio XI, e hoje é conhecido como São Tomás Moro. Foi, ainda, declarado Patrono dos Estadistas e Políticos pelo Papa João Paulo II.

 

Fonte: Canal Ciências Criminais

 

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