Carlos Drummond de Andrade: jamais poeta do mundo caduco

por Luana Pantoja Medeiros

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postado em jun. 2017

 

            Carlos Drummond de Andrade foi um dos poetas mais influentes de seu tempo. Deixou um legado de extrema relevância para que, nos dias de hoje, pudéssemos entender a importância do mister do escritor, do poeta, engajado no seu tempo e no seu mundo. Sobretudo, com um olhar crítico às questões da existência humana, a sua vontade de fazer justiça social através de seu trabalho literário, lhe concederam a imortalidade dentro da literatura brasileira, e alcançando a universalidade literária juntamente com os demais escritores, que lançaram-se a esta mesma postura, no momento em que o mundo inteiro entrava em colapso, no final do século XIX e início do século XX. A filosofia, a política, a existência humana, o físico e o metafísico são abordados em sua extensa obra literária.

            O poeta viveu em um período marcado pela Guerra Fria. A angústia, a incerteza, o sentimento de incapacidade do homem diante destas atribulações podem ser percebidos em sua obra, o eu lírico se mostra sem esperança e impotente diante deste estado de coisas. Drummond fazia questão de evidenciar que “não seria poeta de um mundo caduco”, que ele enquanto poeta e ser no mundo, trazia para este mundo apenas uma forma de observar, e quando morresse como poeta que levava em consideração a filosofia existencialista, morreria em paz, porque passou pelo mundo e deixou sua marca nele e uma possível maneira de melhorá-lo, transformá-lo, através da literatura em forma de denúncia social.

 

Biografia

 

            Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) nasceu em Itabira de Mato Dentro, interior de Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902. Filho de Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Drummond de Andrade, proprietários rurais. Em 1916, ingressou em um colégio interno em Belo Horizonte. Doente, regressou para Itabira, onde passou a ter aulas particulares. Em 1918, foi estudar em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, também no colégio interno.

            Em 1921, começou a publicar artigos no Diário de Minas. Em 1922, ganha um prêmio de 50 mil réis, no Concurso da Novela Mineira, com o conto “Joaquim do Telhado”. Em 1923 matricula-se no curso de Farmácia da Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Em 1925 conclui o curso. Nesse mesmo ano casa-se com Dolores Dutra de Morais e funda A Revista, veículo do Modernismo Mineiro. Drummond leciona português e Geografia em Itabira, mas a vida no interior não lhe agrada. Volta para Belo Horizonte, emprega-se como redator no Diário de Minas. Em 1928 publica “No Meio do Caminho”, na Revista de Antropofagia de São Paulo, provocando um escândalo, com a crítica da imprensa. Diziam que aquilo não era poesia e sim uma provocação, pela repetição do poema. Como também pelo uso de “tinha uma pedra” em lugar de “havia uma pedra”. Ainda nesse ano, ingressa no serviço público como auxiliar de gabinete da Secretaria do Interior.

            Em 1930 publica o volume “Alguma Poesia”, abrindo o livro com o “Poema de Sete Faces”, que se tornaria um dos seus poemas mais conhecidos: “Mundo, mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução”. Faz parte do livro também, o polêmico “No Meio do Caminho”, “Cidadezinha Qualquer” e “Quadrilha”.

            Em 1934 muda-se para o Rio de Janeiro e assume a chefia de gabinete do Ministério da Educação, do ministro Gustavo Capanema. Em 1942 publica seu primeiro livro de prosa, “Confissões de Minas”. Entre os anos de 1945 e 1962, foi funcionário do Serviço Histórico e Artístico Nacional.

            Em 1946, foi premiado pela Sociedade Felipe de Oliveira, pelo conjunto da obra. O modernismo exerceu grande influência em Carlos Drummond de Andrade. O seu estilo poético era permeado por traços de ironia, observações do cotidiano, de pessimismo diante da vida e do mundo, e de humor. Drummond fazia verdadeiros “retratos existenciais”, e os transformava em poemas com incrível maestria. Carlos Drummond de Andrade foi também tradutor de autores como Balzac, Federico Garcia Lorca e Molière.

 

Drummond e o Modernismo

 

            Drummond, como os modernistas, segue a libertação proposta por Mário de Andrade e Oswald de Andrade; com a instituição do verso livre, mostrando que este não depende de um metro fixo.  Se dividirmos o modernismo numa corrente mais lírica e subjetiva e outra mais objetiva e concreta, Drummond faria parte da segunda, ao lado do próprio Mario de Andrade.

            Quando se diz que Drummond foi o primeiro grande poeta a se afirmar depois das estreias modernistas, não se está querendo dizer que Drummond seja um modernista. De fato, herda a liberdade linguística, o verso livre, o metro livre, as temáticas cotidianas. Mas vai além. A obra de Drummond alcança, como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes, um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da história, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas.

            Sua poesia, foi fortemente influenciada pelo Existencialismo, corrente filosófica focada no sujeito humano. O mais popular autor existencialista, Jean-Paul Sartre, afirma que o homem primeiro nasce, se descobre, e posteriormente se define, com base em suas ações. Esse conceito aplica-se a diversas obras do poeta, que sempre questiona tudo ao seu redor, deixando evidente o desajustamento do indivíduo no mundo.

            Essa característica deve-se, em parte, a série de inquietações pelas quais o Brasil e o mundo passavam: duas Guerras Mundiais, ditadura militar Vargas. Uma de suas obras que mais se evidencia neste contexto é o livro de poesias A Rosa do Povo (1945) considerado a obra politicamente mais explícita do poeta. O poema A Flor e a Náusea, é o retrato do sentimento de angústia da humanidade, é a expressão do povo. E esta expressão, como “a flor que nasce na rua”, como o próprio título sugere “a rosa do povo” é uma forma de esperança, de transformação e transgressão no mundo.

            Análise do poema:

 

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias, espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

(...)

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 

            O poeta inicia o poema falando de classe social, enjoo, angústia e mercadorias. A partir destas palavras, fica claro que se trata de uma crítica ao sistema capitalista, ao estado de coisas em que o Brasil e o mundo estavam emergidos, o causador de todo mal estar social do qual o eu lírico sofre. Ele segue dizendo estar preso a sua classe e algumas roupas, mas segue de branco, que podemos entender o branco simbolizando o apagamento de suas próprias escolhas, neste cenário que lhe retira a dignidade, e a própria autêncidade.

            O eu lírico sente-se perseguido, espreitado por uma ordem que induz ao consumismo, as “mercadorias”, e quanto a isso está de mãos atadas, apenas lhe restando a sua liberdade subjetiva de refletir sobre esta ordem, quando pergunta se deve entregar-se ao enjoo, aceitando este indesejável estado de coisas, mas logo segue uma outra dúvida, será se desprovido de armas, poderia  rebelar-se contra isso?

            E por fim, finaliza o poema dizendo “uma for nasceu na rua”. O enjoo, o sentimento de angústia do povo agora são as armas contra este estado de coisas indesejadas. É a esperança de transgressão, como uma flor que fura o asfalto, inclusive o nojo, causador do enjoo, do mal estar social. A flor (rosa) simboliza a própria esperança do povo.   

          Em 1951 Drummond publica Claro Enigma, outro livro de poesias, que se comparado A Rosa do Povo, se mostram diametralmente opostos, um em relação ao outro.  Nesta obra, a poesia do poeta abandona o desejo de buscar respostas e passa a focalizar as perguntas que precisam ser feitas. Ao invés da comunhão anterior, vigora a certeza melancólica da dissolução iminente. A esperança é substituída pelo desencanto. As referências mais diretas ao mundo concreto, historicamente localizado, são preteridas em nome de um universo metafísico, que pesquisa o ser humano em si, independente de seu entorno.

            A relativa perda de certezas políticas representa um passo no sentido da formulação de um novo projeto literário, capaz de se colocar de forma perplexa diante das possibilidades que se apresentam. Além de tematizar exatamente a angústia das incertezas quanto ao rumo a ser seguido.

            A poesia Oficina Irritada, revela um poeta questionador, um lirismo propositado à sua irreverente ironia, questiona as formas idealizadas de poesia, os versos rimados do soneto, a linguagem erudita, o enigma entre claro e escuro agora fazem parte de sua nova proposta literária.

            Análise do poema:

 

Eu quero compor um soneto duro

Como poeta algum ousara escrever.

Eu quero pintar um soneto escuro,

Seco, abafado, difícil de ler.

 

Quero que meu soneto, no futuro,

Não desperte em ninguém nenhum prazer.

E que, no seu maligno ar imaturo,

Ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

 

Esse meu verbo antipático e impuro

Há de pungir, há de fazer sofrer,

Tendão de vênus sob o pedicuro.

 

Ninguém o lembrará: tiro no muro,

Cão mijando no caos, enquanto arcturo,

Claro enigma, se deixa surpreender.

 

            A ironia é o amago deste poema. Escrito em quatro estrofes, as duas primeiras são constituídas de quatro versos e as duas últimas são constituídas de três. É um soneto que fala mal do soneto, é um novo Drummond, agora contestador das formas fixas da poesia.

            As palavras seco, duro e escuro indicam a intensão de apontar o eruditismo exacerbado incomodando este poeta. E os versos rimados, resgatados no som das palavras, duro e escuro, escrever e ler, negam os versos livres, ao contrário disso, amarram, condicionam e aprisionam a poesia em formas, aprisionam o poeta. E para Drummond, que presava pela liberdade em todos os aspectos da vida e de sua poesia, isso era inconcebível. 

            Ainda nesta obra, o poema A Máquina do Mundo é considerado um dos mais belos poemas, alcançando proporção mundial, além do lirismo, o poema faz uma intertextualização com Os Lusiadas de Camões.

 

O Poeta e Mundo

 

            Durante cerca de quarenta anos, Carlos Drummond de Andrade representou um sopro de originalidade na poesia brasileira. Da herança modernista manifesta na poesia dos anos 30, passando pela poesia de caráter social dos anos 40 e pela acentuação da tendência reflexiva na década de 50, até chegar em uma poesia de síntese, retomada e ainda de renovação nos anos 60, temos um conjunto de proposições que respondem de forma imediata às questões de seu tempo. 

            Drummond sempre se colocou como o poeta da vida presente e como “gauche”, isto é, capaz de retratar o incômodo das situações diante das quais o indivíduo é colocado, foi capaz de trazer à sua vasta obra literária todas as respostas que mundo literário precisara. Imediato e eminente utilizou, por muitas vezes, o recurso irônico e questionador para se engajar, ao seu modo singular, a estas perspectivas. Não resta dúvida de que o poeta cumpriu seu desejo de jamais ser “poeta do mundo caduco”, tornou-se imortal para o mundo, suas posições política, filosófica e literária ainda se fazem atuais, ultrapassando as fronteiras do tempo como ele desejara.  

 

 

Bibliografia Consultada

 

ANDRADE, Carlos Drummond. A Rosa do Povo. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.

____. Antologia Poética. 35. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

____. Claro Enigma. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguiar, 2006.

 

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