Considerações da Teoria Crítica para abordagens crítico-dialéticas em Ciências Humanas e Sociais

Considerações da Teoria Crítica para abordagens crítico-dialéticas em Ciências Humanas e Sociais

Referência

MEDEIROS, Alexsandro M.; RODRIGUES, Renan A. Considerações da Teoria Crítica para abordagens crítico-dialéticas em Ciências Humanas e Sociais. In: RODRIGUES, Gilse E.; JUSTAMAND, Michel; CRUZ, Tharcísio S. Fazendo Antropologia no Alto Solimões: diálogos interdisciplinares. São Paulo: Alexa Cultural, 2016, p. 131-146.

 

Introdução

Análises atuais acerca da abordagem crítico-dialética ten­dem a se justificar em razão das implicações de sua utilização, a qual tem sido efetivada em variadas áreas de estudo das Ciências Humanas e Sociais. Pesquisas recentes em Educação e Serviço Social, por exemplo, constatam crescimento do volume de abor­dagens crítico-dialéticas.

Sanchez Gamboa (1987) e Ferrari (2008) destacam que a alta ocorreu a partir de estudos com temáticas educacionais na década de 1980. O volume cresceu em mais de 50% no comparativo com a década anterior. Paulo Netto (1989, 2009), sobre o tema, considera que novas demandas foram postas a partir da década de 1970 na formação dos Assistentes Sociais e, a partir de então, por inserção de tradição marxista nos problemas de pesquisa, avolumou-se a concepção teórico-metodológica dessa linha.

Destarte, quando se afirma que a abordagem crítico-di­alética – como é de conhecimento comum – tem origem a partir do materialismo histórico-dialético de Marx (FRIGOTTO, 1994; SANCHEZ GAMBOA, 2012; KONDER 1995; LUKÁCS, 1979; PAULO NETTO, 2004; TRIVIÑOS, 1987), há de se salientar que escritos dessa monta poucas vezes se detiveram explicitamente sobre a questão, de modo sistemático, e não se observa obra específica sobre o “método dialético”.

Formulações teórico metodológicas dessa envergadura surgiram a partir do momento em que se avançou criticamente em análises acerca de sociedades burguesas, com o objetivo de descobrir sua estrutura e dinâmica. Segundo Paulo Netto (2004), elementos centrais da abordagem aparecem na Introdução, re­digida em 1857, mas publicada postumamente sob o título de Elementos fundamentais para a crítica da economia política.

 

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De modo geral, o conhecimento do “método de Marx” exige leitura da obra do alemão desde o início (MARX, [1859] 1982) e em especial de O Capital (MARX, [1867] 1983). A abordagem por ele descrita é o que tem possibilitado tratamento crítico analítico de sociedades contemporâneas, e em especial de sociedades capitalistas.

Mas, se Marx não escreveu obra a esse respeito, de onde provém a ideia de que variadas ciências – sociologia, antropologia, história, pedagogia, incluindo-se as Ciências Sociais Aplicadas, como serviço social, administração e comunicação social, dentre outras – utilizem o “método dialético” enquanto abordagem epis­temológica para realizar pesquisa de tipo qualitativo?

Naturalmente, origens do método dialético se encontram na própria obra de Marx, como se almejou afirmar. O que não quer dizer que pressupostos teóricos do método dialético tenham se cristalizado no tempo e ficado restritos apenas à obra marxista.

Partindo do suposto, a ideia do artigo foi apresentar posi-cionamento reflexivo sobre o problema, inferindo, como hipótese, sobre a possibilidade desse tipo de posição teórico-epistemológica se dever, em boa medida, a integrantes do Instituto de Pesquisa Social (mais conhecido como Escola de Frankfurt) e, de maneira mais exata, à Teoria Crítica postulada pela escola desde as origens, na década de 1930, com Max Horkheimer.

A dialética de pesquisa e sua concomitante teorização, formulada pelo jovem Horkheimer, teve, segundo consideração neste trabalho, importante influência sobre a Teoria Crítica, sendo que o referido frankfurtiano foi pioneiro ao vincular o desenvolvi­mento da Teoria Crítica à pesquisa social.

Outrossim, a meta foi, a partir de análise da obra de Marx e de pressupostos da Teoria Crítica, investigar em que medida, na origem do marxismo, pode-se identificar o que hoje se conven­cionou chamar de “método dialético” de pesquisa, principalmente no campo das Ciências Humanas e Sociais.

 

A Teoria Crítica em Horkheimer

A maneira conforme Horkheimer fez intervenções em Teoria Tradicional e Teoria Crítica tornou-se referência para distintas vertentes da Teoria Crítica. O significado da teoria em sentido restrito vem a ser a conceituação de Horkheimer a partir da obra

 

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citada, com base na teoria marxista, e designa pelo menos duas conjunturas: a de campo teórico que desenvolve trabalhos a partir da versão de Horkheimer sobre ideias de Marx; e a de grupo de intelectuais ligados ao Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt, Alemanha, filiado a este campo teórico (NOBRE, 2004).

Apesar da filiação a um conjunto de ideias marxistas, a Teoria Crítica tem sido renovada. Sua matriz são análises da economia política e do capitalismo feitas por Marx, acrescida de modelo crítico construído por Horkheimer. Dentre pautas da Teoria Crítica estão reflexões sobre i) natureza de relações sociais, ii) distribuição de poder político e riqueza, iii) dinâmicas de mercados capitalistas, iv) mercadoria, v) trabalho, vi) Estado e vii) trabalho enquanto mercadoria.

Horkheimer parte do princípio, como Marx, que determi­nações sociais não podem ser isoladas de fatores econômicos. Contudo, análises dessa monta são inconclusas quando se tomam bases em dados econômicos em si mesmos. “O economismo, ao qual a Teoria Crítica tem sido reduzida, não consiste apenas em tornar o fator econômico importante demais, mas em torná-lo demasiadamente restrito” (HORKHEIMER, 1975a, p. 167).

Investigação científica de sociedades capitalistas tendem a conduzir a aspectos econômicos e a conhecimentos sobre relações sociais de produção e distribuição de riqueza e renda1. Mas não basta examinar empiricamente relações sociais à luz da economia de mercado, embora esta possa ser considerada, por assim dizer, espinha dorsal de análises de sociedades capitalis­tas. “Uma Teoria Crítica da sociedade deve fazer uso de todo o espectro das disciplinas científicas sociais a fim de poder inves­tigar conflitos entre forças produtivas e relações de produção” (HONNETH, 1999: 510)2.

 

A filosofia correta não consiste hoje em esvaziar-se de análises concretas econômicas ou sociais, ou em

 

1 Em Marx, sabe-se o papel que a economia desempenha no estudo das formas de organização social (MARX, 1982 e 1983; KONDER, 2010; LUKÁCS, 1974 e 1979; PAULO NETTO, 2004). Foi o estudo da economia política que “conduziu Marx ao estudo da economia burguesa não para legitimá-la, mas para pô-la sob suspeita” (MEKSENAS, 2011, p. 85), revelando as contradições do sistema capitalista e apontando os caminhos de sua negação/superação.

2 É a partir desta ideia que resulta o projeto interdisciplinar proposto por Horkheimer (HONNETH, 1999) e que se pode chamar de materialismo interdisciplinar (NOBRE, 2004). O primeiro objetivo da Teoria Crítica foi o de reunir pesquisadores de diferentes especialidades de forma interdisciplinar, tendo como referência comum o marxismo.

 

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reduzir-se a categorias isoladas. Ao contrário, ela tem que evitar que os conceitos econômicos se diluam em detalhes vazios e desconectados, pois esse pro­cedimento é apropriado para encobrir a realidade em todas as suas faces. A Teoria Crítica nunca criou raízes na ciência econômica. A dependência do político frente ao econômico foi o seu objeto, e nunca o seu programa (HORKHEIMER, 1975a:168).

 

Além de encontrar raízes no marxismo, a Teoria Crítica foi construída a partir de oposição ao que Horkheimer chama de teoria tradicional, baseada em moderna concepção de ciência e teoria científica. A mesma ciência que tornou possível formular leis explicadoras de fenômenos segundo relações de causa e efeito, serviu à aplicação de princípios e leis a casos particulares, seguindo hipóteses sobre condições estabelecidas em vistas a explicações totalizantes.

“A abordagem que o filósofo [Horkheimer] faz da teoria tradicional mostra que sua origem está ligada ao avanço das chamadas ‘ciências naturais’, mais especificamente matemática e física” (CARNAÚBA, 2010: 196). De modo que sucesso e eficácia da teoria tradicional fizeram com que se pensasse que “o mesmo aparato conceitual empregado na determinação da natureza inerte serve também para classificar a natureza viva” (IDEM, op. cit.: 198), e as relações humanas e sociais, como é o caso do positivismo de Comte3.

Horkheimer pretendeu estar além do positivismo quando apontou diferenças entre teoria tradicional e Teoria Crítica, a partir do que foi identificado como dois “métodos gnosiológicos” que são, respectivamente, “um, fundamentado no Discours de la Méthode [...] e outro, na crítica da economia política” (HORK­HEIMER, 1975a, p. 163). A ideia de teoria tradicional encontra origem, em geral,

 

[...] nos primórdios da filosofia moderna. Descartes assinala na terceira máxima de seu método científico a decisão [...] começando com os objetos de conhe­cimento mais fácil e simples, para então subir, por assim dizer, gradualmente, até chegar a conhecer

 

3 Para uma análise mais aprofundada da crítica de Horkheimer ao positivismo e acerca da crise da racionalidade moderna, evidenciando uma “racionalidade instrumentalizada do positivismo” e, além de sua instrumentalização, sua formalização e coisificação na sociedade vigente, vide sua obra: Eclipse da Razão  (2000)

 

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os mais complexos [...] A dedução tal como é usual na matemática deve ser estendida à totalidade das ciências (HORKHEIMER, 1975b, p. 126).

 

No século XIX, positivistas se firmam com sólido paradigma de elementos comuns a racionalismo e empirismo. O positivismo acredita que há realidades externas conduzidas por leis naturais e que a partir da compreensão e catalogação dessas leis é possível prever e controlar fenômenos naturais.

Mas o que acontece quando se transpõe esse modelo de ciência para o estudo de pessoas e da sociedade, ou seja, conside­rando o caso das ciências humanas e das ciências sociais (teóricas e aplicadas)? É possível observar fenômenos sociais e estabelecer conexões causais? E o que dizer da ideia de que o sujeito-pesquisa­dor é também e simultaneamente o objeto investigado?

Epistemologicamente, a Teoria Crítica de Horkheimer voltava-se para críticas sistemáticas do positivismo e foi primeiro em Marx, e depois em Lukács, que se construiu coerência para as observações (HONNETH, 1999). Na tarefa, um dos entraves a que a teoria tradicional e, junto com ela, o positivismo enfrenta é a desvinculação das ciências de suas raízes sociais e históricas. “A teoria tradicional impõe a separação entre o indivíduo e a sociedade, pois o comportamento humano passa a ter a própria sociedade como seu objeto” (CARNAÚBA, 2010, p. 199).

A teoria tradicional, ao descrever a realidade em torno da separação entre sujeito e objeto, cingiu o “saber” do “agir”. As­sim, teorias inspiradas em modelos de ciências naturais tendem a incitar relações de exclusão em face ao objeto – a sociedade –, como se a dinâmica da realidade fosse apêndice dos processos os quais se busca descrever ou explicar. Para Horkheimer, é preciso mostrar o enraizamento do conhecimento científico da sociedade em determinada ordem social. E nesse sentido a ciência não é neutra, dado que depende da inserção em realidade vivenciada.

Se, por um lado, a teoria tradicional evita ensejar sua posição e função social, por outro lado, ao reconhecer elemen­tos históricos e sociais, a Teoria Crítica exige atitude orientada para a emancipação4. A Teoria Crítica pretende identificar, via

 

4 Há diferenças entre o primeiro e o segundo modelo crítico de Horkheimer. O primeiro foi desenvolvido ao longo das décadas de 1920 e 1930 e contém atitude orientada para a emancipação a partir de certa ênfase na integração entre filosofia e pesquisa social empírica e que, segundo nosso entendimento, pode se mostrar frutífera para uma renovação da teoria crítica na atualidade. É preciso distinguir esse modelo daquele formulado a partir da década de 1940 – com a publicação da  

 

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diagnóstico do tempo presente, tendências para a emancipação na própria situação atual, ou seja, ela almeja divisar potenciais emancipatórios em vigência.

 

Abordagem crítico-dialética e contribuições da Teoria Crítica em Horkheimer

A questão do método tende a ser problema enfático e polêmico em investigações de cunho social, apresentando-se como controvérsia tanto mais incidente quanto mais se conecta a pressupostos de natureza epistemológica e filosófica5. Natu­ralmente, considerando limites do artigo, foi meta em seguida, para ponderar sobre o suposto, sublinhar aspectos presentes no chamado método dialético.

Nessa direção, inicialmente destaca-se que o observado em discussão apresentada pela Teoria Crítica do jovem Horkheimer dá-se em três pontos: i) a ideia de historicidade do conhecimento, ii) a relação sujeito-objeto e iii) a importância de uma práxis como condição de emancipação social6. E analisar conceitos de modo a relacionar tais pontos com preceitos da abordagem crítico-dialética é uma necessidade efetiva.

Sobre o tema, Sanchez Gamboa (1987) e Ferrari (2008) pontuam que houve aumento na utilização de abordagens crítico-

 

Dialética do esclarecimento e do Eclipse da razão (HORKHEIMER, 2000), o primeiro em parceria com Adorno (ADORNO e HORKHEIMER, 1985) –, período no qual o pensamento de Horkheimer é marcado por ideias bastante pessimistas sobre uma possível emancipação (FREITAG, 1986; HONNETH, 1999; VOIROL, 2012). Para análise detalhada da ideia de emancipação em diferentes modelos da Teoria Crítica, ver artigo de Mário Videira, Teoria crítica: alguns modelos.

5 O debate filosófico e epistemológico sobre o método em pesquisa social está, seguramente, em voga. De um lado existem aqueles que esperam o que Giddens chama de um “Newton das ciências sociais”, que possa reproduzir no estudo da vida social humana o mesmo tipo de poder explanatório que o desfrutado pelas ciências da natureza. Do outro lado existem aqueles que acreditam, como o próprio Giddens, que, “qualquer aproximação às ciências sociais que procure expressar sua epistemologia e a sua ambição como directamente (sic) similares às das ciências da natureza está, nesses mesmos termos, condenada ao fracasso e só pode resultar num entendimento limitado da sociedade humana” (1996, p. 28).

6 Para análise detalhada de outras categorias do método dialético (as célebres “leis da dialética”), mas que não estão necessariamente relacionadas com os princípios da Teoria Crítica em Horkheimer, como as categorias de análise-síntese, relação de quantidade-qualidade, aparência-essência, abstrato-concreto, contradição, totalidade, mediação, entre outras, ver BARATA-MOURA, 1977; FERRARI, 2008; KOSIK, 1969; LEFEBVRE, 1975; LUKÁCS, 1974 e 1979; PAULO NETTO, 2004; TRIVIÑOS, 1987.

 

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dialéticas em pesquisas educacionais a partir da década de 1980. A alta variou 12% positivamente no recente espaço temporal de 35 anos, comparando-se a demais abordagens, a saber: empírico-analíticas e fenomenológico-hermenêuticas.

Ferrari (2008) sublinha dado similar à pesquisa em tela, pontuando que nas últimas três décadas e meia, mais de 50% das abordagens teórico-metodológicas descritas em projetos de pós-graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)7 eram representadas pela dialética, conforme o seguinte:

 

Tabela 1 – Tipos de abordagens. C.f.: adaptado de FERRARI (2008, p. 60)

Abordagens

 

Crítico-dialéticas

53%

Fenomenológico-hermenêuticas

27%

Empírico-analíticas

6%

Outras

14%

 

 

Total

100%

 

 

Analisando 502 dissertações e teses produzidas entre 1971 e 1984, constatou-se que na época apenas 9,5% desse total eram produções caracterizadas por abordagem critico-dialética. Todavia, de 1981 a 1984, houve incremento de peças científicas com a destacada base teórico-epistemológica e os anos 1980 registraram acentuado aumento da produção teórica acadêmica de postulação crítico-dialética.

Importa destacar que a transição democrática brasileira concorreu para a construção das mudanças conceituais e de usos teóricos, operada dentro das academias e com reflexos na realidade. Na medida em que a sociedade teve oportunidade de se expressar de modo menos conservador e com maior afinco crítico, foram sendo concretizados modos de pensar e expressar com afinidade às críticas sociopolíticas (SALLUM JR., 2003).

Com a abertura política, histórias de vida alteradas por força de situações de desmandos do Estado em razão da necessidade de progresso foram melhor analisadas pelo viés crítico-dialético no Brasil. Esses desmandos causaram impactos por estarem ligados a uma imensa cadeia de modificações infraestruturais nacionais. Tal cadeia sempre foi e ainda vem sendo alimentada

 

7 Estudo semelhante, relativo às epistemologias e metodologias que servem de suporte à produção de conhecimento em educação em Universidades do Pará, foi feito por Carlos Jorge Paixão (2013), durante estágio de Pós-Doutorado do grupo Paideia da Faculdade de Educação da UNICAMP.

 

 

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por dinheiro público, sobretudo, viabilizando grandes projetos de construção civil em amplos espaços de convivência populacional, mas que pouco contribuem para a melhoria de vida das pessoas em geral (BRUM e BEDIN, 2003).

É preciso considerar que Sánchez-Gamboa (1987) foi um dos primeiros a colocar em questão o caráter dialético de traba-lhos assim descritos. Resultados de análises foram questionados por causa de conteúdo apresentado e argumentos postos em discussão. Via ponderações que punham em suspeição episteme e constructo metodológico, perguntava-se, mediante análise, até que ponto vinham se conseguindo efetivar entendimentos e aplicações acerca da abordagem crítico-dialética.

Foram realizados levantamentos sistemáticos por meio de leitura de teses e dissertações – que afirmavam ter utilizado a abordagem crítico-dialética – e houve a verificação de possíveis discrepâncias cometidas no tocante ao anunciado como ação de pesquisa e o que se percebia descrito nos trabalhos.

Sobre a baixa taxa de fidedignidade entre o pressuposto anunciado e a ação efetivada em trabalhos acadêmicos, e conside­rando-se estudos que afirmavam ser de vertente crítico-dialética, Frigotto constatou que “o não inventário rigoroso desta concep­ção (crítico-dialética) seguia, na prática, parâmetros positivistas” (1994: 78).

Além do mais, inferindo extrapolações de resultados, suscita-se que a problemática não se restringe à especificação destacada. É crível que levantamentos similares gerem resultados associados, mostrando situação sincrônica de “desligamento” para outras abordagens teórico-metodológicas. Por desligamento pode-se entender a falta de conexão entre a proposta de projeto relacionada à crítico-dialética e a efetividade da ação.

A abordagem crítico-dialética relaciona-se com a Teoria Crítica desde a década de 1930. A Teoria Crítica constitui ação intelectual “ciente de seu contexto social de origem, assim como do seu contexto de aplicação prática” (HONNETH, 1999: 509). Por­tanto, se Ferrari (2008) sublinha que pesquisas crítico-dialéticas fundamentam-se em uma práxis (análise teórica e aplicação prática), presume-se que essa fundamentação se funde na re­flexão e ação sobre uma realidade, buscando-se a transformação.

Sanchez-Gamboa (2007) afirma ser a abordagem crítico-dialética tanto cultural quanto social, devendo ser entendida

 

 

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como parte de um processo histórico cujas bases dependem de fatores e mudanças histórico-sociais.

 

[…] na medida em que se acumulam forças e tensões que pro­duzem transformações radicais e estruturais (metamorfose). Para poder compreender essas mudanças, necessitamos de uma massa grande de informações e uma extensão maior delas, pois para compreender as inter-relações sociais e as dinâmicas de tempos longos é preciso recuperar dados que permitam ver o movimento histórico, a gênese e a transforma­ção dos fenômenos (SÁNCHEZ-GAMBOA, 2007:116).

 

Meksenas (2011) corrobora a ideia de historicidade ao afir­mar que “[...] em Marx, encontramos concepção filosófica que define ciência e tecnologia como produtos da história [...] a ciência é [...] produto da história e continuará a sê-lo enquanto houver relações dos indivíduos entre si e com a natureza” (ID., op. cit.: 84). Seguindo seus aportes teóricos, tende-se a examinar a educação, por exemplo, e percebê-la enquanto fato histórico dentro de um contexto que envolve relações de classe, econômicas, políticas, sendo que tais relações decorrem de determinado modo de or­ganização social.

Não é demasiado salientar que a influência de pressupos­tos teórico-metodológicos do materialismo histórico dialético em educação origina concepção pedagógica que Saviani chama de pedagogia histórico-crítica. A elaboração surge na década de 1980 e um dos objetivos é “explicitar como mudanças das formas de produção da existência humana foram gerando historicamente novas formas de educação” (SAVIANI, 2011: 22). A corrente peda-gógica situa-se no terreno do materialismo histórico, como base teórica para concepções educacionais. Para análise da contextual­ização histórica e teórica da pedagogia histórico-crítica, sugere-se o sexto capítulo da obra em questão (c.f. GASPARIN, 2002; SAVIANI, 2011: 111-125).

Para Frigotto (1994) e Konder (1995), a dialética marxista é materialista e histórica, posto que se funda em princípios do ma­terialismo dialético e do materialismo histórico. O afirmado leva a crer que formular teorias pressupõe considerar condições reais e objetivamente dadas e o método dialético do materialismo histórico desenvolvido por Marx consiste em reconhecer essas condições e extrair consequências dela. O filósofo alemão buscou superar a separação sujeito-objeto, situando dois elementos da relação cog­nitiva nas condições materiais históricas mediadoras dessa relação.

 

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Abordagens crítico-dialéticas priorizam categorias de tem­poralidade e historicidade (SÁNCHEZ-GAMBOA, 2007; FERRARI, 2008; TRIVIÑOS, 1987). “Na dialética, fenômenos são considera­dos em constante transformação, sendo determinados pela sua historicidade” (FERRARI, 2008 p. 6). E, segundo Horkheimer,

 

Os homens não são apenas um resultado da história em sua indumentária e apresentação, em sua figura e seu modo de sentir, mas também a maneira como vêem e ouvem é inseparável do processo de vida social tal como este se desen­volveu através dos séculos. Os fatos que os sentidos nos for­necem são pré-formados de modo duplo: pelo caráter histórico do objeto percebido e pelo caráter histórico do órgão perceptivo (HORKHEIMER, 1975b, p. 133 – grifo nosso).

 

A Teoria Crítica toma o sujeito do conhecimento como su­jeito histórico que, inserido em um processo também histórico, interage com seu objeto igualmente histórico. Sobre o tema, para Horkheimer o desenvolvimento da ciência deve ser entendido em contextos históricos e sociais específicos e nunca livre de interesses contingenciais e reais. A ciência é fundamentalmente histórico-social, condicionada por mudanças e influenciada pelo desenvolvimento da relação sociedade-ambiente (VOIROL, 2012).

“Desse modo, reforça-se outra característica que diferencia a Teoria Crítica da Teoria Tradicional. É a consideração de que as experiências se dão sempre dentro de um contexto histórico, de maneira a fazer um diagnóstico do tempo presente” (CARNAÚBA, 2010, p. 202). Por essa razão, Horkheimer questiona a atitude positivista que defende a neutralidade da prática científica não baseada no questionamento filosófico, notando o mundo como objetivo e neutro, sem conexões interativas e cognoscíveis, gerando o que Voirol (2012) chama de “conflito entre a ciência empírica e a filosofia especulativa”.

Voirol (ID., op. cit.), ao escrever seu artigo em 2012 era, além de professor da Universidade de Lausanne, pesquisador do Insti­tuto de Pesquisa Social de Frankfurt. Ele ensaiou análise incisiva do modelo dialético e materialista desenvolvido por Horkheimer, de pesquisa social e teoria crítica, que molda o fundamento da Teoria Crítica em suas origens, no início da década de 1930.

Mas a vantagem do projeto crítico defendido por Hork­heimer pode residir na possibilidade de conectar reflexivamente a crítica filosófica da razão e modos de pesquisa desenvolvidos em ciências humanas e sociais. A Teoria Crítica consiste em uma

 

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forma de investigação social filosoficamente orientada (HORK­HEIMER, 1975b) e diferente da tradição cartesiana não supõe ci-sões entre cultura (res cogitans) e natureza (res extensa). Descartes afirma a dualidade por conta da tradição positivista, em torno da qual defende a neutralidade científica.

Para a Teoria Crítica, a cisão não é razoável em termos lógicos, gnosiológicos e sociológicos, pois o pensar humano não tende a reproduzir apenas o ser de um objeto que procura co-nhecer. Horkheimer sublinha que a suposta “interpessoalidade” entre sujeito e objeto, a qual tenderia a envolver neutralidades inerentes, é fator altamente controverso. Não se trata de defender a ideia de que objetos de pesquisa não tenham existência objetiva, quer dizer, independente da consciência do pesquisador. Mas entende-se que, por parte da Escola de Frankfurt, toma-se em conta a percepção de que a vida é produto de ações recíprocas.

A relação sujeito-objeto no processo do conhecimento teórico é uma relação em que o sujeito está implicado no objeto. A pesquisa – e a teoria que dela resulta – enfaticamente não su­porta pretensões de neutralidade, geralmente identificada com objetividade (PAULO NETTO, 2004). A Teoria Crítica estimula o desenvolvimento de estruturas que conectem dialeticamente pesquisa e teoria, construindo confrontações do quadro teórico com práticas reais. Põe-se à prova a adequação de determinada construção teórica via exames empíricos que lidem com configu­rações da realidade (VOIROL, 2012). Nesse sentido, Horkheimer concebe entrelaçamento entre teoria e prática, com influências do método dialético de pesquisa marxista (ID. op. cit., 2012).

 

Talvez umas das ideias mais originais do materialismo dialé­tico seja a de haver ressaltado, na teoria do conhecimento, a importância da prática social como critério de verdade. E ao enfocar historicamente o conhecimento, em seu processo dialético, colocou em relevo a interconexão do relativo e do absoluto. Desta maneira, as verdades científicas, em geral, significam graus do conhecimento, limitados pela história [...] (TRIVIÑOS, 1987: 51).

 

O fato da Teoria Crítica se constituir em constante renova­ção justifica-se a partir da ideia de que verdades científicas são graus aproximados de conhecimento, limitados por contingências históricas. Por isso, a Teoria Crítica não toma a obra de Marx como doutrina acabada – e da mesma forma não se crê a Teoria Crítica como definida –, mas que se deve atualizar segundo condições

 

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dadas, como supõe Horkheimer. “A filosofia que pretende se acomodar em si mesma, repousando numa verdade qualquer, nada tem a ver, por conseguinte, com a Teoria Crítica” (1975a:169).

A Teoria Crítica denuncia o caráter puramente descritivo da realidade e afirma o potencial de libertação ou emancipação hu­mana. Ela se distingue pela referência ao comportamento crítico, que consiste em apreender a realidade segundo contraposições existentes e perceber que o modo da socioeconomia vigente é, sobretudo, produto de ações humanas: “a atitude crítica, além de considerar o conhecimento, sobretudo considera a realidade das condições sociais capitalistas, posto que o comportamento crítico orienta-se para a emancipação” (CARNAÚBA, 2010, p. 201).

A Teoria Crítica reconhece que “saber” e “agir” são distin­tos, mas propõe pensá-los mutuamente. Por meio dela, toma-se como função apostar que pessoas não são resultados isolados de processos históricos, mas agentes de dinâmicas complexas. À semelhança de Marx, Horkheimer aplicou a análise visando adornar investigações que almejassem compreender elementos da realidade social (sociedade, política, economia) por orientação crítica. Baseada na ideia de emancipação, a Teoria Crítica fomenta que compreensões sobre mudanças estruturais no movimento histórico identificam contradições presentes e auxiliam planeja­mentos.

Ademais, mérito da Teoria Crítica foi o questionamento a respeito da necessidade do pensar e do refletir sobre verdades interessadas ou dogmas. Sobre o preceito, a resultados correlatos chegaram Ferrari (2008), Frigotto (1994) e Sánchez-Gamboa (2012), os quais indicam fortemente que tende a haver desligamentos entre o que se afirma realizar e o que se realiza em verdade no campo teórico-metodológico, tomando-se exemplo com respeito a pressupostos crítico-dialéticos.

 

Considerações finais

Resultados de análises a que chegaram pesquisadores ponderados neste artigo, seja no campo da educação, do Serviço Social ou das Ciências Sociais de forma geral, apontam para a ne­cessidade de melhores domínios do que se entende atualmente por método crítico-dialético. O que se pretendeu sublinhar, via in­ferências destacadas, foi que a Teoria Crítica formulada por Hork­heimer possui elementos teóricos e epistemológicos contribuintes

 

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de investigações que utilizam a abordagem crítico-dialética.

A Teoria Crítica dos anos 1930 está atual e vigente. Só que o mais efetivo hoje é considerar limites, potenciais e intenções de desenvolvimento para ela, ainda que seja no intuito de realizar críticas epistemológicas enquanto proposituras de paradigmas da teoria social e uma determinada metodologia referente à investi­gação de processos sociais. A articulação entre filosofia e ciências empíricas permanece amplamente atual, pois acredita-se que se trata de efetivar uma “teoria crítica da sociedade”, entendida en­quanto modo de fazer filosofia integrando aspectos normativos da reflexão filosófica e confrontando-os com questões sociais.

Não se supõe que a ideia de emancipação deva ser aban­donada. O que se indica é a manutenção de uma práxis transfor­madora, pois é imprescindível que a pesquisa científica e, com ela, a teoria, possa não descrever como as coisas funcionam ou inferirem sobre o mundo, mantendo como horizonte a eman­cipação possível e identificando potencialidades e obstáculos em cada momento histórico. A orientação para a emancipação constitui, segundo Nobre (2004), princípio fundamental da Teoria Crítica, ao qual deve ser acrescido um segundo, o comportamento crítico oriundo do conhecimento adquirido das condições sociais (VIDEIRA, 2006).

Horkheimer afirma que “a teoria crítica não almeja mera ampliação do saber, ela intenciona emancipar o homem de uma situação escravizadora” (1975a:164 – grifo nosso). Neste caso, o pesquisador deve ter consciência de que estudos dessa enver­gadura podem contribuir para a transformação da realidade e servir como instrumento de intervenção, de práxis, ou de eman­cipação social, como pensava inicialmente Horkheimer e como defendia Marx.

 

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Referências bibliográficas

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