Coronelismo e Relações de Poder na Literatura

Coronelismo e Relações de Poder na Literatura

por Alexsandro M. Medeiros

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            Um bom exemplo de como a relação entre literatura, sociedade e política pode ser percebida é a partir da construção da imagem da figura do coronel nas obras literárias. Mas antes vamos definir brevemente o que é o coronelismo.

            A figura do coronelismo tem estado presente na vida social e política do Brasil em vários momentos históricos. Victor Nunes Leal (1978) afirma que o termo coronel designava o chefe, o mandão, o grande senhor de terras, a base da organização da República Velha. O coronelismo busca legitimar as relações políticas e sociais como institucionais e hierárquicas, a partir de uma concepção de poder como exercício de dominação e apropriação por parte da classe dominante: um símbolo de poder local.

 

O conceito de coronelismo e a imagem do coronel, criados para designar o domínio do “poder local” pelas elites políticas brasileiras e legitimados continuamente como um saber dominante e imutável adquiriram positividade que perpassa os diversos discursos sobre o exercício do “poder local” no Brasil (FORTUNATO, 2000, p. 02).

 

            Um poder que produz e é produzido permanentemente nas relações sociais (FOUCAULT, 2009). Os micro-poderes, de que fala Foucault, que se exercem em níveis variados e em pontos diferentes da realidade social e que existem integrados ou não ao Estado: o poder dos que governam; o poder que detêm os meios de comunicação de massa; o poder que está nas massas. E essa relação de poder aparece, como dissemos, tematizada nas obras literárias:

 

[...] a forma como a figura do coronel é tematizada no “Romance de 1930” no Nordeste, e em alguns textos literários de Dias Gomes [...] eles, assim como os discursos acadêmicos, selecionam imagens de coronéis e elaboram perfis psicológicos destes, a partir de enunciados sociológicos que os apresentam como personagens típicos das “experiências coronelísticas”. Ou seja, estes discursos ajudam a construir uma “identidade” para os “coronéis”, configurando-os como um ethos, ou um “tipo ideal”, que tende a se repetir, a se tornar crível e se constituir como “modelo” (FORTUNATO, 2000, p. 10).

 

            Tais obras literárias têm uma função igualmente estética e de denúncia das injustiças sociais. Retratando neste caso, na década de 1930, um Brasil estruturado em relações de poder onde aparecem as figuras dos coronéis, cangaceiros, donos de grandes propriedades, jagunços. E embora tais obras literárias sejam ficcionais, os romances de José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Dias Gomes, entre outros, nos permitem observar e analisar as relações de poder hierarquizadas e centralizadas através da figura do coronel e a decadência da sociedade tradicional rural. Os romances de José Lins do Rego: Meninos de Engenho (1932) Usina (1936) e Fogo Morto (1943) constituem uma crítica social que tem como pano de fundo o “ciclo da cana de açúcar”. No primeiro romance, por exemplo, “[...] Rego aborda a queda do engenho Santa Rosa, vencido pelo desenvolvimento tecnológico e transformado em Usina. A usina é mostrada como uma transformação para uma nova ordem econômica, afetando a vida de todos os segmentos sociais” (FORTUNATO, 2000, p. 155). Já na obra Fogo Morto, “[...] o coronel José Paulino é identificado como o homem rico, como o prefeito e o ‘mandão’ [...] É ainda, quem escolhe a presidência da Câmara e o Conselho Municipal. Por fim, é também um sonegador de impostos” (id. ibidem, p. 161). Heloísa Toller Gomes (1981) também analisa esta mesma obra a partir de um processo de formação e perda do poder. Nesses romances de José Lins do Rego, o poder do coronel se sobrepõe aos próprios indivíduos, influenciando suas visões de mundo e até mesmo ditando seus modos de agir e de falar.

 

Nas palavras de José Lins do Rego: a história do cangaço, no nordeste brasileiro, está intimamente ligada a história social do patriarcalismo, a vida de uma região dominada pelo mandonismo do senhor de terras e de homens, como se fossem barões dos feudos (...) Nem o Estado seria capaz de enfrentar o chefe que no sertão era mais que o Estado (1957, p. 31 apud FONSECA 2005, p. 92-93 – grifo do autor)

 

            Através da linguagem literária Rego destaca uma realidade baseada em relações sociais hierarquizadas, patriarcais e personalistas.

            No caso de José Lins do Rego é válido mencionar que suas obras têm algo de autobiográfico, já que o seu avô e com quem ele foi criado, representado em suas obras na figura de José Paulino, era coronel e senhor de engenho, dando aos seus romances um fundo realista, como em Fogo Morto, tendo como pano de fundo um mundo em transição, do engenho para a usina e a decadência dos velhos coronéis e a ascensão do mundo burguês. Desta forma, Fogo Morto é mais do que uma obra literária regionalista, mas um “documento sociológico”, que retrata o Nordeste da década de 1930 e sua estrutura política oligárquica (açucareira e cafeeira), revelando um sistema apoiado em acordos de interesses, mantidos pelo Estado que se sustenta nos coronéis dos municípios.

            No caso do escritor Jorge Amado, os romances mais significativos onde o autor analisa a imagem dos coronéis e da dominação política e econômica exercida pelos mesmo são: Terras do Sem Fim (1982) e São Jorge dos Ilhéus (1982). No caso destes dois romances merece destaque a figura do coronel Horácio da Silveira, cujo poder político vai além da lei e da justiça, homem forte que dispunha de terras, dinheiro e dos homens.

 

Em Terras do Sem Fim, Amado mostra a luta dos coronéis por terra e poder, e o coronel Horácio como o vitorioso da luta contra os Badarós pelo último pedaço de mata que ainda restava naquelas terras – a Mata do Cerqueiro Grande. Já em São Jorge de Ilhéus, a ascensão crescente e a marcha posterior para o declínio dos coronéis é tratada tendo por base a alta do cacau e a idéia de que, o desenvolvimento do capitalismo a nível mundial proporciona a ascensão de novos protagonistas econômicos, como é o caso dos exportadores, intermediários entre os coronéis e o mercado externo, figuras da modernidade que turvam a imagem do coronel (FORTUNATO, 2000, p. 172).

 

            Vemos assim que:

 

A literatura regionalista da década de 1930, assim como os discursos dos cientistas sociais e historiadores que construíram o conceito de coronelismo, objetivou uma imagem do coronel que caracteriza uma particular concepção de lei e de norma. No código cultural do coronel, a lei tem a função de satisfazer suas ambições e seus objetivos pessoais. Nas relações entre os coronéis e seus correligionários, assim como nas relações entre os coronéis e os poderes estadual e federal, as alianças e rupturas se dão de acordo com as conveniências e os interesses pessoais (FORTUNATO, 2000, p. 179-180).

 

            Outro autor que deu destaque em suas obras literárias ao tema do coronelismo foi Dias Gomes, sendo “Odorico Paraguaçu” o “arquétipo do coronel político brasileiro demagogo, corrupto e inescrupuloso” (FORTUNATO, 2000, p. 181). A figura de Odorico é retratada por Dias Gomes de forma cômica e irreverente. Uma mostra disso é como Dias Gomes envolve a trama através da principal obra do coronel Odorico, em O Bem Amado[1], que foi a construção de um cemitério que se tornou inútil, porque após a sua construção nunca mais ninguém morreu na cidade, fazendo com que o cemitério nunca fosse inaugurado, já que sua inauguração estava condicionada ao primeiro enterro que ali houvesse. No final da trama, o cemitério é inaugurado com o cadáver do próprio Odorico (GOMES, 1991). 

            Eis ainda alguns exemplos de autores que abordaram as relações de poder em suas criações ficcionais na Amazônia: Coronel de Barranco de 1970, de Cláudio de Araújo Lima (2002); Seringal de 1972, de Miguel Jeronymo Ferrante (2007); e Terra Caída de 1961, de José de Potyguara (2007). O romance Seringal traz a figura do coronel Fábio e do seringueiro Chico Xavier. Em Coronel de Barranco, coronel Cipriano representa a figura paradoxal de um ex-seringueiro que roubou do patrão para enriquecer. Na posição de coronel era o elo entre o seringal e as casas aviadoras de Belém e Manaus – as financiadoras das mercadorias do barracão e as compradoras da borracha. Eis uma breve descrição que é feita do coronel Cipriano: “Vaidoso convicto da sua importância [...] o dente de ouro sempre à mostra, ‘farol’ de brilhante enfiado no indicador direito, Cipriano encarnava o símbolo da abastança naquela época de arrivismo e desvario” (LIMA, 2002, p. 100).

 

 

Referências Bibliográficas

 

AMADO, Jorge. Terras do Sem Fim. 48. ed. Rio de Janeiro: Record, 1982.

____. São Jorge dos Ilhéus. 44. ed. Rio de Janeiro: Record, 1982.

FERRANTE, Miguel Jeronymo. Seringal. São Paulo: Globo, 2007.

FONSECA, João Carlos G. O grito: a reiteração do poder em Fogo morto de José Lins do Rego. Mediações – Revista de Ciências Sociais, Londrina, v. 10, n.1, p. 87-104, jan.-jun. 2005. Acessado em 16/10/2015.

FORTUNATO, Maria Lucinete. O coronelismo e a imagem do coronel: de símbolo a simulacro do poder local. Tese (Doutorado em História Social). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas-SP, 2000.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2009.

GOMES, Heloísa Toller. O poder rural na ficção. São Paulo: Ática, 1981.

GOMES, Dias. O Bem Amado. Rio de Janeiro: Tecnoprint/Ediouro, 1991. (Coleção Prestígio)

LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 4. ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1978.

LIMA, Claudio de Araújo. Coronel de Barranco. Manaus: Editora Valer, 2002.

POTYGUARA, José. Terra caída. São Paulo: Globo, 2007.

REGO, José Lins do. A presença do nordeste na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1957.

 



[1] A obra O Bem Amado foi escrita em 1962 como peça teatral. Onze anos depois foi para a televisão em forma de novela em 1973 transformando-se em um marco da televisão brasileira. E na década de 1980 retornou à televisão em forma de seriado, com 220 episódios. E por fim foi transformada em obra cinematográfica em 2010. Para uma análise da adaptação cinematográfica da obra O Bem Amado, centralizada nas relações de poder que se estabelecem entre os grupos políticos e a população de Sucupira, bem como a mediação estabelecida através dos meios de comunicação de massa presentes no filme, veja o texto de Dislene Cardoso de Brito. Acessado em 09/10/2015.

 

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