Daenerys Targaryen: a princesa exilada, a khaleesi, a conquistadora mãe de dragões

Daenerys Targaryen: a princesa exilada, a khaleesi, a conquistadora mãe de dragões

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jul. 2017

 

            Ao mesmo tempo em que a série Game of Thrones retrata a mulher de acordo com os costumes da época, ela rompe com os valores da tradição patriarcal ocidental, pois não era comum ver a mulher como demonstração de força e poder.

            Mulvey (2011, apud SCHARDONG; ALMEIDA, 2015, p. 9) aponta como é comum nas narrativas audiovisuais retratar-se a mulher em função do outro masculino.

 

A mulher, desta forma, existe na cultura patriarcal como o significante do outro masculino, presa por uma ordem simbólica na qual o homem pode exprimir suas fantasias e obsessões através do comando linguístico, impondo-as sobre a imagem silenciosa da mulher, ainda presa a seu lugar como portadora de significado e não produtora de significado

 

            É este o caso de Daenerys Targaryen. Em primeiro lugar ela reproduz o papel social dado pela tradição, representando o Outro, fortemente enraizado em valores patriarcais. Todavia, ela irá romper com esses valores, ao se apresentar como forte, guerreira, astuta, conquistadora. Daenerys Targaryen inicia a série desempenhando funções que estão enraizadas na cultura da sociedade patriarcal: a donzela/virgem, frágil e indefesa, predestinada a uma vida sobre a qual não terá controle, mas que irá ceder lugar à guerreira e uma possível herdeira do trono. Daenerys inicia “a série como uma figura passiva de todos os desejos e abusos masculinos e desponta como uma das favoritas na disputa pelo Trono de Ferro” (PENKALA; PEREIRA; EBERSOL, 2014, p. 170). E Souza e Câmara (2014, p. 251) destacam como

 

O papel inicialmente atribuído a Daenerys é aquele usualmente atribuído ao sujeito feminino que integra a sociedade patriarcal, o de um sujeito de estado que se submete à vontade dos sujeitos masculinos com os quais se relaciona: primeiro o irmão abusivo, Viserys, e depois o marido Drogo. Mas, curiosamente, é o casamento com Drogo que a torna competente para libertar-se do jugo do irmão e afirmar-se como sujeito do seu querer

 

            Carrión (2012, apud COUTO, 2015, p. 102) “divide a vida de Daenerys em três momentos, que podemos entender como três identidades”: o da princesa exilada junto com seu irmão; a khaleesi, esposa de Khal Drogo; a heroína, mãe de dragões. É seguindo esta distinção que vamos analisar a personagem Daenerys Targaryen.

 

A princesa exilada

 

            O irmão de Daenerys, Viserys Targaryen, é o único sobrevivente que pode reivindicar o Trono de Ferro por parte da Casa Targaryen, e por isso oferece sua irmã Daenerys em casamento ao selvagem Khal Drogo, da tribo dos dothrakis, em troca de um poderoso exército – “A tribo Dothraki é a personificação bárbara da mescla entre hunos e mongóis (FRANKEL, 2014). Este povo nômade habita o continente de Essos, tido como selvagem pelo continente de Westeros, palco central da ação em Game of Thrones” (SCHARDONG; ALMEIDA, 2015, p. 6).

 

Daenerys é um objeto de troca do irmão: na Batalha do Tridente, o Rei Aerys II (pai de Daenerys e de Viserys) e seu filho mais velho, Rahegar, foram mortos pelos rebeldes, mas os dois filhos mais novos conseguiram escapar para outro continente, Essos. Viserys, então, cresceu pensando em assumir o Trono de Ferro, que seria seu por direito (COUTO, 2015, p. 102).

 

            Quando Daenerys afirma que não quer ser a rainha de Khal Drogo, Viserys afirma que ele deixaria que toda a tribo de Khal Drogo transasse com a irmã, todos os quarenta mil homens e inclusive seus cavalos, se fosse preciso, para alcançar o seu objetivo de ter como moeda de troca dez mil homens do exército do khalasar de Khal Drogo e, consequentemente, invadir Westeros e retomar o Trono de Ferro. O destino de Daenerys “não é diferente do destino da maioria das moças no período medieval, era da história que serve de base ao universo ficcional de Game of Thrones” (PENKALA; PEREIRA; EBERSOL, 2014, p. 174). Tem-se aqui um casamento por “conveniência diplomática” e, neste caso, melhor seria dizer por “conveniência de guerra”.

            As personagens femininas representam o Outro, o eterno feminino (BEAUVOIR, 1949), um objeto que tem valor de uso para suas famílias, como era comum na tradição ocidental. Penkala, Pereira e Ebersol (2014, p. 174) citam como exemplo a este respeito Maria Antonieta,

 

filha do rei da Áustria, personagem histórica cercada de controvérsias e lendas, foi vendida à França para casar-se com o Delfin e garantir a diplomacia entre os dois reinos. Contratos dessa espécie muito comumente davam às filhas nobres um destino claramente funcional para a relação entre monarquias e depositavam sobre mulheres, em sua maioria muito jovens, a responsabilidade sobre o futuro de um reinado ou da própria relação entre nações.

 

            O lugar feminino de Daenerys como princesa exilada cederá espaço a esposa do selvagem Khal Drogo. Um lugar em que a mulher é tratada de forma submissa e tão somente como fêmea pelos Dothrakis. Há cenas de sexo explícito durante a realização do casamento de Khal Drogo e Daenerys. E o próprio Khal Drogo trata Daenerys, então sua esposa, como fêmea. A posição sexual que é mostrada inicialmente é sempre Khal Drogo e Daenerys na posição de quatro apoios, pelo menos até Daenerys e Drogo criarem uma espécie de ligação afetiva. Uma cena que “além de violenta, ressalta valores antiquados de gênero, relacionando o feminino com fraqueza e o masculino com força” (SCHARDONG; ALMEIDA, 2015, p. 9).

            Todavia, muito cedo veremos Daenerys subvertendo esse papel. Penkala, Pereira e Ebersol (2014, p. 167) ressaltam como Game of Thrones “tem personagens femininas fortes e bem construídas, com grande importância na trama, que não somente representam a mulher de maneira complexa e profunda como subvertem estereótipos e desafiam arquétipos de gênero” e Schardong e Almeida (2015, p. 9) ressaltam como a subversão desse papel por Daenerys só irá acontecer, na realidade, depois da morte do seu marido.

            Vemos esse contraste logo nos primeiros episódios da primeira temporada de Game of Thrones. Primeiro Daenerys aparece vestida com uma indumentária para que seja visualizado seus atributos físicos, para garantir que sua aparência desperte o desejo sexual de Khal Drogo. Depois, já como khaleesi (o correspondente a uma rainha), ela aparece vestida de acordo com os costumes dos Dothrakis e ganha ares de guerreira e de uma líder tribal.

 

A khaleesi

 

            O príncipe Viserys tem como principal objetivo assumir o Trono de Ferro e para isso irá usar sua irmã, Daenerys, como objeto de troca. Mas ao contrário dos valores da sociedade de características medievais, Daenerys é quem que irá demonstrar força e poder. Inicialmente Daenerys irá subverter esse modelo em seu papel de esposa. Ela pede para que sua vassala Doreah a ensine a dominar Khal Drogo na cama (1T, E2). A transar não como uma escrava, mas como dominadora. O diálogo entre Daenerys e Doreah é reproduzido por Couto (2015, p. 104) e Souza e Câmara (2014, p. 237-238):

 

Daenerys: Você pode me ensinar como fazer o Khal feliz?

Doreah: Sim [...]

Doreah: Deve sempre olhar nos olhos dele, o amor entra pelos olhos (e conta-lhe histórias de uma grande sedutora: Irogenia de Lis).

Daenerys: Eu não acho que Drogo gostará de me ter por cima.

Doreah: Você o fará gostar, Khaleesi... homens querem o que nunca tiveram... e os Dothraki pegam as escravas como um cão pega uma cadela. Você é uma escrava Khaleesi?

Daenerys, timidamente, faz que “não” com a cabeça.

Doreah: Então não faça amor como uma escrava.

(Daenerys coloca-se na posição de Doreah e repete seus movimentos)

Doreah: Muito bom, Khaleesi... lá fora ele é o grande Khal, mas nessa tenda ele te pertence!

Daenerys, insegura: Eu... não acho que esse é o jeito Dothraki.

Doreah: Se ele quisesse do jeito Dothraki, por que se casaria com você?

 

            Conforme a trama se desenvolve Daenerys passa a “ter voz” e chega inclusive a enfrentar o irmão (1T, E4) porque este não aceita receber ordens da irmã e chega a dar um tapa na cara dela por ela tê-lo enfrentado. É então que Daenerys se defende, bate com um colar no rosto do irmão e diz: “Eu sou uma khaleesi dos Dothraki, esposa do grande Khal e carrego seu filho dentro de mim; a próxima vez que erguer a mão para mim, será a última vez que você terá mãos”. E irá assistir a morte do irmão, quando este exige o seu pagamento a Khal Drogo e ameaça tirar o filho que ela está esperando. Então Khal Drogo dá a ele uma “coroa de ouro” – ouro derretido que é derramado na sua cabeça (1T, E6).

            Sua identidade como Khalesi e sua integração com a cultura Dothraki dão a Daenerys um ar de guerreira, ao mesmo tempo em que ela subverte determinados valores, como é o caso do estupro: uma prática comum dos dothrakis ao saquear uma comunidade. Quando Daenererys se depara com essa situação ela ordena que os homens parem, gerando conflito com Mago, um dos integrantes do khalasar. Couto (2015, p. 108) reproduz o diálogo em questão:

 

Drogo: Lua da minha vida. Mago disse que levou sua pilhagem, a filha de um homem-cordeiro que ele iria penetrar. Diga a verdade.

Daenerys: Mago fala a verdade, meu sol e minhas estrelas. Solicitei muitas filhas hoje para que não possam ser penetradas.

Drogo: A guerra é assim. Agora, essas mulheres são escravas, faremos com elas o que quisermos.

Daenerys: Eu quero mantê-las a salvo. Se seus cavaleiros as penetrarem, que se tornem suas esposas.

Mago: Os cavalos se acasalam com os cordeiros?

Daenerys: O dragão se alimenta de cavalos e cordeiros.

Mago: Você é uma estrangeira. Não manda em mim.

Daenerys: Sou Khaleesi. Mando em você.

Drogo: Viu como está ficando valente? É meu filho dentro dela, o garanhão que montará o mundo, enchendo-a com seu fogo. Não quero mais saber disso. Mago, encontre outra coisa para penetrar.

Mago: Um Khal que aceita ordens de uma puta estrangeira não é um Khal.

Drogo: Não quero queimar seu corpo. Não lhe darei essa honra

 

A conquistadora: mãe de dragões

 

            Depois da morte de Khal Drogo, Daenerys começa a demonstrar também sagacidade política com o claro objetivo de conquistar o Trono de Ferro. Depois de conquistar ouro e um barco na cidade de Qarth, obterá um exército de oito mil Imaculados em Astarpor, reconhecidos por sua coragem, disciplina e lealdade. A forma sagaz como Daenerys obtém os escravos é bem astuciosa. Fingindo não conhecer o idioma do Mestre dos escravos Kraznys – o valiriano, língua materna dos Targaryens – Daenerys negocia a venda dos escravos enquanto a intérprete Missandei traduz o diálogo entre eles.

 

Eles negociam e definem os termos do acordo, ela oferece um dragão em troca de todo o exército e pede a Kraznys que lhe dê a intérprete, Missandei, como presente. Eles estabelecem o contrato, mas, Daenerys, após receber o chicote que controla os Imaculados, figura que concretiza o tema da escravidão, ordena que seu novo exército mate os senhores dos escravos e, com a ajuda de seu dragão, incendeia toda a cidade. A mãe dos dragões então fala aos Imaculados, oferecendo-lhes o objeto-valor da liberdade e afirmando que aqueles que quiserem partir que o façam, e os que ficarem lutarão por ela como homens livres (SOUZA, CÂMARA, 2014, p. 248-249).

 

            Em cada cidade por onde passa Daenerys conquista novos soldados. Primeiro Astarpor, depois Yunkai, em seguida Meereen e ruma em direção a King’s Landing, para ser rainha dos Sete Reinos.

            Daenerys Targaryen “[...] De princesa exilada, se transforma em Khaleesi e, ao fim da temporada [primeira], em Mãe dos Dragões. São três vidas diferentes, tomadas, por nós, como três identidades” (COUTO, 2015, p. 114). Daenerys passa por intensas metamorfoses em que uma identidade não exclui a outra, mas se sobrepõem, dando origem a novos valores e um novo ethos: Filha da Tormenta, a Não Queimada, Mãe de Dragões, Rainha de Mereen, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Quebradora de Correntes, Senhora dos Sete Reinos, Khaleesi dos Dothraki, a Primeira de Seu Nome.

 

 

Referências

 

BEAUVOIR, Simone de. Le Deuxième Sexe: Les faits et les mythes. Paris: Gallimard, 1949. v. 1.

CARRIÓN, Jorge. Las tres vidas de Daenerys Targaryen. In: JUEGO de tronos. Madrid: Errata Naturae, 2012.

COUTO, Paloma Rodrigues D. Um Jogo de Rainhas: as mulheres de Game of Thrones. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social). Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Universidade Federal de Juiz de Fora. Juiz de Fora-MG, 2015.

FRANKEL, Valerie Estelle. Women in Game of Thrones: Power, conformity and resistance. Jefferson: Mcfarland & Company, Inc., Publishers, 2014.

MULVEY, L. Prazer visual e cinema narrativo. In: MACEDO, A. G.; RAYNER, F. (Org.). Gênero, cultura visual e performance: Antologia crítica. Ribeirão: Edições Húmus, 2011.

PENKALA, Ana P.; PEREIRA, Lucas P.; EBERSOL, Isadora. Arquétipos complexos de gênero em Game of Thrones: Daenerys, nascida da tormenta, a puta, a guerreia, a mãe. Paralelo 31, ed. 2, p. 167-186, jul. 2014. Acesso em 02/07/2017.

SCHARDONG, Luísa; ALMEIDA, Gabriela M. Ramos de. Personagens femininas e violência de gênero em Game of Thrones: uma análise da adaptação de As crônicas de gelo e fogo dos livros à TV. VII Encontro de Pesquisa em Comunicação. Paraná, 24 a 26 de setembro de 2015.

SOUZA, Kélica Andréa C. de; CÂMARA, Naiá Sadi. As paixões e as formas de vida de Daenerys Targaryen em Game of Thrones. CASA: Cadernos de Semiótica Aplicada, v.12, n.2, p. 215-253, 2014. Acesso em 11/07/2017.

 

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