Em torno da literatura engajada: Sartre e o debate estético (RESENHA)

Em torno da literatura engajada: Sartre e o debate estético (RESENHA)

MOREIRA, Mayara Franca. Em torno da literatura engajada: Sartre e o debate estético. Monografia (Bacharelado e Licenciatura em Filosofia). Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília. Brasília-DF, 2012.

 

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

e Luana de Vasconcelos Pantoja

 

Introdução

 

            Esta monografia realiza um debate sobre literatura contemporânea e nos anos do pós-guerra de 1947 a 1960. Esta discussão se inicia com a questão do que seria a literatura para Sartre baseando-se no seu livro Que é literatura? Para Sartre, a questão circunda em torno de três perguntas: o que é escrever? Por que escrever? Para quem se escreve? Essas três perguntas atingem a essência da criação literária que é pensar o homem enquanto engajado neste mundo e como ela pode refletir e transformar essa realidade. Há, neste caso, engajamento intrínseco na literatura, enquanto se pensa nessa como transformação do mundo e do homem.

            A discussão da obra Que é literatura? prossegue com as posições de dois comentadores brasileiros: Thana Mara de Souza e Franklin Leopoldo e Silva. A primeira mostra como a noção de engajamento em Sartre está diretamente ligada a Política, expondo a relação intrínseca que existe para ela entre ética e estética na literatura de Sartre; já para o segundo, há uma relação comunicante entre a filosofia e a literatura sartreana, e por isso foi necessário para Sartre falar da mesma coisa de duas formas distintas, para Franklin também existe uma Ética intrínseca em toda sua literatura. Este ponto de vista está presente em seu livro Ética e Literatura em Sartre: ensaios introdutórios.

            O segundo capítulo deste estudo abre uma discussão sobre as vanguardas europeias que teve evidência nos anos 30 e 50 dentro da filosofia, das artes, da literatura. Já o último capítulo e a parte final deste estudo esboçam o ponto fulcral de todo este debate estético, político, artístico construído nesta época, que é a posição entre as correntes filosóficas do existencialismo e do marxismo, exemplificados na polêmica entre Sartre com seu Questão de Método e Lukács no Existencialismo ou Marxismo?

            É um debate de cunho político justamente pela época a qual se constituiu o pós-guerra, nascimento da guerra fria, oposição mundial ao Capitalismo e Marxismo.  

 

O QUE É LITERATURA?

 

A literatura para Sartre

 

            A literatura para Sartre apresenta três tópicos, naturalmente são perguntas inerentes a sua condição de filósofo e escritor ao analisar o papel da literatura nas circunstâncias que se apresentava o mundo em 1947, ano de publicação do seu livro “O  que é literatura”. O filósofo sente a necessidade de questionar qual o modo pelo qual a literatura deveria ater-se aquela vida circundante que agora era sua realidade.

            O contexto pós-guerra, a expansão do comunismo, o mundo em ruínas era o momento certo de pensar a literatura como ferramenta para a libertação do homem e da humanidade.  Mas antes de eleger a literatura como ferramenta principal entre as artes nesse contexto, ele realiza três perguntas e a primeira é: “O que é escrever?” e como o ato de escrever diferencia-se nas artes:

 

(...) a poesia, a prosa, a pintura, a escultura, a música, mesmo que todas as formas de expressão estejam situadas e condicionadas pelos mesmos fatores sociais, elas são paralelas entre si e diferenciam-se quanto à forma e quanto a inserção no mundo: sons/ cores/ palavras (MOREIRA, 2012, p. 13)

 

            Sartre diferencia a prosa e a elege como arte significante, e como arte não significante, segundo o filosofo, (pintura, música, escultura e poesia). O significado de uma melodia ou de uma pintura nada mais é do que a própria melodia, ou a própria cor na tela, não podem remeter a linguagem exterior, são objetos imaginários. Já a prosa é utilitária por essência, ela visa à comunicação entre a palavra escrita e o mundo exterior, a realidade humana, ela é sempre significante.

            Falar e escrever é uma ação, e toda ação para Sartre, é uma constituição de um modo de ser no mundo e na forma como este se põe nele. Todo prosador quando se situa a situações da realidade do mundo e dos homens como um espelho crítico, é engajado, por isso o engajamento dar-se através da concretude histórica vivida pelo prosador e seus leitores. “Um ato antes de ser (dito) escrito, é apenas um ato, mas após ser mostrado é preciso fazer algo com esse ato, é preciso assumi-lo, reconhece-lo, muda-lo” (MOREIRA, 2012, p. 15).

          Após Sartre defender a resposta “O que é escrever?” ele questiona a segunda pergunta, “Por que escrever?” obviamente que a resposta a essa pergunta está diretamente conectada ao engajamento, a responsabilidade, que é comum aos escritores pois a palavra é ação, então já é posicionamento no mundo. O homem ao se posicionar já está buscando uma mudança e uma maneira de existir.

            “A operação de escrever implica a de ler, como seu correlativo dialético” (MOREIRA, 2012, p. 18) e são realizadas por dois agentes distintos, escritor e leitor, ambos são essenciais para fazer existir esse objeto concreto e imaginário que é o livro. A arte da literatura só existe por e para o outro.

            Escolher ler uma obra é tomar consciência de sua liberdade e desvendar a liberdade do outro, a afeição do leitor é generosa, pois tem fonte permanente na liberdade como início e fim. Assim escrever é apelar ao leitor para que este faça passar a existência objetiva e o desvendamento que se empreende por meio da linguagem. O escritor apela a liberdade do leitor para que este colabore na sua obra.

            A última pergunta a que se leva Sartre é: “Para quem se escreve?”: “a base para essa resposta vale para qualquer época na qual se encontrem escritor e leitor, a historicidade” (MOREIRA, 2012, p. 20 – grifo nosso). O escritor escreve para seus contemporâneos e ambos estão engajados numa mesma época e elucidam os mesmos fatos, o leitor carrega essa bagagem por viver o mesmo momento da história. O contato histórico do leitor e escritor se dá através do livro e os agentes escritor e leitor são livres e situados.

            Para o filósofo, escolher seu tema é escolher seu público, para quem irá escrever. O escritor não escreve para sujeitos universais, de caráter universal, mas para sujeitos situados e engajados na história.

            O escritor é engajado pela sua consciência de estar situado no mundo na sua época quando faz o engajamento para si e para o plano refletido.  

 

A relação entre filosofia e literatura em Sartre

 

            Após a apresentação do texto do próprio Sartre, este capítulo tem por objetivo relacionar a literatura com a filosofia a partir da crítica atual dos comentadores brasileiros, Thana Mara de Souza e Franklin Leopoldo e Silva, cujo objetivo é situar a contribuição de Sartre ao nosso panorama brasileiro.

            Muitos filósofos e comentadores contemporâneos tiveram como alvo de crítica os romances de Sartre por entenderem que estavam relacionados diretamente a sua filosofia, no entanto, era necessário analisar mais detalhadamente a real necessidade que o filósofo sentiu de escrever romances, peças de teatro, contos, em relação a sua filosofia fenomenológica existencialista, sobretudo constituída de conceitos e noções.   A comentadora Thana Mara de Souza ilustra a relação entre ficcional (literatura engajada) e a parte filosófica (metafisica e ética).

 

A implicação entre as duas se dá, pois a literatura é capaz de descrever as ambiguidades (...) e complexidade do homem por meio de sua linguagem imediata e não consciente de si, assim, a literatura mostra a densidade concreta do vivido; já a filosofia torna o vivido consciente por meio de noções, de conceitos, mas não tem a capacidade de descrever a totalidade do vivido, pois fala do homem enquanto sujeito-objeto, mas não estuda o homem como indivíduo (apud MOREIRA, 2012, p. 24).

 

            Neste sentido, a tarefa da literatura na filosofia sartreana é mostrar como a condição metafísica do homem se dá na própria existência, não existindo um universal abstrato que determine o homem, pois este é um singular concreto. A literatura adquire um valor fundamental que deseja compreender a condição humana como ética e que transcende e condiciona-se por meio da estética.

            Assim, a filosofia necessita da prosa para retratar seus conceitos e a prosa da filosofia para a conceitualizar na representação, retratação da vida do homem ficcional que imita a vida real.  A fenomenologia indica a ambiguidade e isso é literatura, não existe um sentido determinado na literatura, ela nasce e transcende da ambiguidade.

            A diferença entre a filosofia de Sartre enquanto (fenomenologia, metafísica e ética) e a sua literatura engajada é que para representar este conceito, nasce o romance metafísico que passa a ser visto sob a ótica existencial-fenomenológica, comunicação entre autor e leitor, pois permite a descrição de pré-compreensão humana, mas é necessário saber qual a noção de metafisica para Sartre. 

            A conclusão da comentadora Thana Mara esclarece que não resta dúvida a respeito da interdependência entre ambas e por isso pode se entender a filosofia sartreana, pois a filosofia (enquanto, fenomenologia, metafisica e ética) e a literatura engajada (entendida como romance metafísico, estética) se apresentam como dois momentos diferentes da realidade da compreensão humana e assim se complementam.

          Por isso não se pode pensar que os romances de Sartre são uma simplificação ou exemplificação da sua própria filosofia. 

          Para o comentador Franklin Silva, em Ética e Literatura em Sartre: ensaios introdutórios, a ética fica em evidência justamente pela ponte que faz entre filosofia e literatura e segundo o autor, a comunicação que se dá entre as duas é chamada de vizinhança comunicante que fica responsável pela diferença e adequação recíproca dos dois modos da dualidade da linguagem expressiva.

 

Para Franklin, a literatura e a filosofia de Sartre convergem ambas juntas, mesmo mantendo-se distintas quanto à linguagem, para uma ética, pois ambas tem como base a afirmação: o homem é o ser em que o próprio ser está em questão. Toda a filosofia de Sartre pode ser vista como essa teoria focada no homem como uma questão permanente para si mesmo, sem uma definição que possa ser tomada como início e fim; assim, se o existencialismo sartreano entende que a realidade a ser investigada é a humana, é essa a vizinhança em que encontra a sua dualidade de expressão entre filosofia e literatura. (MOREIRA, 2012, p. 27).

 

            Franklin também chama a atenção sobre o porquê, para Sartre, a literatura está tão conectada com a ética, pois toda sua literatura é possibilidade de como a ética pode ser vivida e julgada concretamente na relação do homem consigo mesmo e com os outros que também são livres.

           Sendo assim, a literatura possibilita em Sartre a concepção existencialista da realidade humana que evidencia o próprio sentido do homem e de ser, sobretudo, existência e não essência.

            Ela capta a singularidade que constitui na ausência de uma essência que justifica a realidade, a vida. A existência é aquilo que cada momento cria enquanto age, e esse processo contínuo de ação na construção da diferença de cada situação que constituem o homem, define-se como existência histórica concreta, que se baseia sobre um projeto pessoal.

           A literatura tem como função constituir uma imagem da sociedade que, além de descrever a sua condição de alienação, tenta, sobretudo, compreender a si próprio. E a tarefa da ética na literatura é elucidar a mediação necessária para que o homem tome consciência de sua condição de alienado.

            O dever ético da literatura está na conexão com o envolvimento que homem tem com seu próprio conhecimento da realidade humana “e assim fica em sintonia com o caráter eminentemente prático do conhecimento do homem: escrever e agir” (MOREIRA, 2012, p. 30).

 

A LITERATURA COMO FORMA E CONTEÚDO

 

            Este capítulo trata dos debates a cerca das vanguardas que foi tópica de época tratando mais precisamente de questões acerca da estética na filosofia, na literatura e nas artes, mas falaremos da filosofia em três filósofos: Lukács, Sartre e Adorno[1].  Lukács fala explicitamente em defesa do Realismo e faz uma crítica a outras vanguardas como o surrealismo de 1938; Sartre também esboçou uma crítica em seu livro Que é literatura?, de 1947 quanto ao Surrealismo; já Adorno critica a forma e o conteúdo do surrealismo em seu texto Revendo o Surrealismo.

            Lukács critica as vanguardas, do Naturalismo ao Surrealismo, contrapondo-as ao Realismo. Sua crítica vai de uma vanguarda a outra, foram acontecendo novas visões, porém, apesar das diferenças entre cada uma delas, prevalece o que elas tem em comum: tomar a realidade tal como ela se apresenta de imediato ao escritor e as suas personagens.  

           Segundo Lukács, a consequência das vanguardas se mantem alheias a realidade e conectadas ao imediato é o esvaziamento do conteúdo em sua literatura, sobretudo porque a literatura é montagem que recria fragmentos da realidade humana de formas, isoladas, artística, com a finalidade de passar um efeito catártico surpresa, de choque e de caos e isto seria a própria essência do fundamento da filosofia nas artes de vanguarda.

           Sartre fala a respeito da arte surrealista. Ele adverte que os surrealistas querem subtrair as distinções entre a consciência e a inconsciência do sonho e da realidade. E segundo o filósofo, isso é acabar com o subjetivo que existe e se reconhece nos pensamentos, nas emoções “na vontade que emana da nossa consciência no momento em que ela nos aparece e quando julgamos que elas nos pertencem” (MOREIRA, 2012, p. 34). E essa certeza que vem da subjetividade não agrada aos surrealistas, pois ela impõe limites e responsabilidades e assim os surrealistas fogem da consciência de si mesmo, consequentemente da sua situação no mundo como homens situados e passam a ser homens não situados por fugirem do tempo em que estão inseridos através da inconsciência que a arte surrealista lhes põem em evidência diante da realidade existente e descartada por eles. Estão paralelos a realidade e, portanto não estão engajados na objetividade pois desconstroem a imagem dos objetos e do próprio mundo.

            E assim Sartre interpreta as pinturas e as esculturas surrealistas, que anulam as explosões da objetividade sugerindo que vem dos sonhos. E apesar de toda essa distorção do mundo concreto e a fuga da responsabilidade e da objetividade, o filósofo concorda que existe engajamento mesmo que este seja uma forma de engajamento negativo.

 

a literatura surrealista esforçar-se-á para dar o mesmo destino a linguagem que é seu instrumento, destruindo-a pelas suas próprias palavras e pelo automatismo de sua escritura (...) essa tentativa de desarticular as relações entre a prosa e o mundo são problemáticas para Sartre, pois esconderiam engajamento negativo, mas ainda assim, um engajamento historicamente comprometido (MOREIRA, 2012, p. 34).

 

            Para Theodor Adorno, em seu artigo Revendo o Surrealismo presente em seu livro Notas de Literatura I sua crítica à vanguarda é incorporada no Surrealismo, para ele as composições surrealistas podem ser no máximo consideradas análogas ao sonho.

           Sendo assim a finalidade da arte surrealista assim como a psicanálise seria trazer a tona experiências que ficaram guardadas no inconsciente das experiências infantis.

 

o que o surrealismo coloca na sua reprodução do mundo (...) quando crianças, essas imagens surrealistas devem ter nos excitado como as antigas ilustrações infantis. Elas excitam (...) é a partir dessa libido dessa pornografia que vem do imaginário comum e das experiências infantis, de que serve os surrealistas e suas vantagens, para mexer com o inconsciente das pessoas (MOREIRA, 2012, p. 36).

 

            Sua grande crítica ao Surrealismo é enquanto a técnica, a sua forma como expressam e tratam a realidade.

            Para os três filósofos mencionados neste capítulo, apesar de terem suas críticas voltadas para épocas diferentes aqui elas falam da literatura enquanto forma e conteúdo como partes tensionadas que não se desconectam, mas convivem, já que aqui o conteúdo é pensado como derivado da forma e vice-versa.

            Sartre liga o engajamento do escritor a subjetividade, e assim ele se engaja no presente. A obrigação do escritor é a implicação da própria coisa, pois essa sua decisão demonstra em sua obra, que deixa de ser subjetiva e se torna objetiva, pois ela foi enrijecida, controlada, ela se torna uma coisa.

            A obra coisificada, para qual o sujeito se externou através da qual ele chega a ser sujeito, através da leitura do leitor se torna flexível, pois apura imediaticidade e espontaneidade do sujeito fenomenológico que ele quer salvar, se deforma numa segunda coisificação, numa mensagem ou assunto.

 

EXISTENCIALISMO E MARXISMO

 

            Neste capítulo sob a ótica do comentador Franklin Leopoldo e Silva trataremos sobre o engajamento do sujeito leitor e o engajamento real, político. Levando em consideração todo o contexto histórico, o debate travado após a segunda guerra mundial, final do século XIX e início do século XX entre Sartre e Lukács se deu a seguinte questão: Existe uma possível ligação entre o existencialismo e o marxismo?

           Sartre procura mostrar isso em Questão de métodos, antecedendo a Crítica da Razão. Para Lukács, a aproximação que Sartre tenta esboçar entre as duas teorias é uma aberração. “uma fuga que busca de um terceiro caminho que abre uma interpretação de se pensar dois Sartres com pensamentos distintos e completamente diferentes o Sartre do Ser e o Nada e o do Existencialismo é um Humanismo” (MOREIRA, 2012, p. 43); segundo sua crítica, há uma divergência entre as noções de liberdade tratadas em seus textos, no primeiro é a liberdade tratada em um ato subjetivo, e no segundo é a liberdade social que leva em consideração a liberdade dos outros e é incompatível com o método existencialista.

          Sartre constrói duas estruturas ontológicas como o ser-com-outro, reduzir as experiências vividas do eu leva a descartar de seus métodos de trabalho a consciência de classes, a vida coletiva o trabalho coletivo e a luta travada em conjunto.

            Considerar todo esse conjunto segundo Lukács é a banalidade pequeno-burguesa da filosofia de época e sua falta de realidade com a vida concreta que é de suma importância pra qualquer pesquisa filosófica (MOREIRA, 2012, p. 44), sendo assim, indubitavelmente, não haveria a possibilidade de considerar Sartre um existencialista- marxista.

 

 

CONCLUSÃO

 

            A Literatura Engajada, também conhecida como literatura de denúncia foi pensada e constitui-se por viés político e está diretamente ligada com a ética que é muito presente na literatura de Sartre enquanto trata de homem-sujeito, objeto de seus questionamentos.

           Em relação à Literatura Engajada, Sartre falava da literatura a partir de dentro, com uma maior propriedade, pois ele não só falava a respeito dela como também a exercia e sem ela sua filosofia não existiria, pois ambas se difundem em uma vizinhança comunicante. Neste sentido, o escritor está totalmente conectado com a sua literatura como sujeitos situados na sua própria história, vivenciando fatos que o unifica com os demais sujeitos. A literatura está completamente relacionada com seu criador.

          Sartre compreendeu a noção de engajamento na literatura de uma forma muito particular, e simples. O escritor engajado deve levar em consideração a noção de engajamento, sua responsabilidade pelo que será dito, escrito, assumir o assunto ao qual irá tratar. Deste modo, engajando-se profundamente com seu papel na história e desvendando o homem por ele mesmo.

            É um desvendamento pela linguagem do homem para os outros homens e enquanto estão situados nesse mundo e na história na qual se encontram, partindo de um desvendamento particular e depois chegando ao universal.

           O engajamento sartreano não se resume a uma forma específica que deve ser escrita e tratada na literatura, é a imersão do homem nele mesmo e sua história, é um engajamento responsável, uma escolha responsável e consciente de sua possível consequência, autêntica e originária com total empenho para ser vivida.

            Ao escolher as palavras, escolher um tema a ser tratado é eleger um posicionamento no mundo, uma perspectiva de viver, uma maneira de existir “mesmo que essa escolha não preencha o homem de seu vazio existencialista, mas é natural de sua estrutura do ser Para-si no movimento em busca do Em-si” (MOREIRA, 2012, p. 59). Essa noção de engajamento do escritor é a que Sartre se projeta na literatura a fim de buscar uma essencialidade que nunca será atingida, porém na sua função de escritor, o filósofo ressalva que apesar do esforço do escritor na tentativa de mudar alguma situação na história através de seu engajamento, ainda assim são impotentes.

            A cultura não salva nada nem ninguém, mas é produto do homem, ele se projeta, e se reconhecer nela é um espelho crítico que lhe oferece a própria imagem. A postura do escritor engajado revela também seu caráter. 



[1] Para mais detalhes sobre Theodor Adorno veja em nosso website a seção: Escola de Frankfurt.

 

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