Epifanias da Amazônia

Epifanias da Amazônia

Prefácio

 

            Aventurar-se nas sendas das relações sociais da Amazônia e das manifestações simbólicas de seu povo, para desenvolver pesquisa, constitui-se num dos mais nobres desafios. Isto porque estamos vivendo um tempo contemporâneo inovador na medida em que novos temas de pesquisa emergem na região e novos pesquisadores surgem, com um olhar singularizante que vê os processos socioculturais por dentro da configuração regional e das experiências dos povos autóctones. O Programa de Pós-graduação Sociedade e Cultura na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas, em nível de mestrado e doutorado, reúne um esforço cientifico-institucional voltado para a formação de recursos humanos que venham contribuir para o desenvolvimento regional, nacional e mundial, com base na investigação cientifica. O programa assume o compromisso engajado de promover e realizar pesquisas concentradas nos processos socioculturais da Amazônia, cujo legado de capital simbólico é de imensurável valor e riqueza.

            Esta coletânea Epifanias da Amazônia organizada pela professora Iraildes Caldas Torres e pelos doutorandos Diogo Gonzaga Torres Neto e Rooney Augusto Vasconcelos Barros assenta-se num dos propósitos centrais da pós-graduação no que diz respeito à divulgação das pesquisas, desenvolvidas neste Programa e situadas nas temáticas amazônicas em diferentes matizes. Trata-se de um temário diversificado que reabilita experiências, tradição, oralidade, literatura, aspectos míticos da sexualidade, territorialidade e arqueologia, práticas de trabalho, relações de poder coronelistas, expressões quilombolas, as relações de gênero e o trabalho das mulheres na Amazônia. A primeira seção traz o temário das epifanias míticas e das relações de poder, num diálogo primoroso entre os saberes tradicionais e o conhecimento ocidental. Iraildes Caldas Torres e Diogo Gonzaga Torres Neto apresentam a bebida mítica do sakpó como um elemento feminino presente na contextura da etnia Sateré-Mawé, lugar epifânico das relações de gênero advindas da matriz ancestral deste povo, numa reabilitação discursiva e interpretativa de sua tradição. Valdenei de Souza Santos e Alexandre Santos de Oliveira discutem a expressão da sexualidade das mulheres da várzea amazônica, tendo por base o mito do boto, animal aquático, que transforma-se num rapaz garboso para enfeitiçar as moças e engravidá-las em noite de lua cheia. Alexandro Melo Medeiros e Nelson Matos de Noronha reabrem o debate sobre o coronelismo e as relações de poder exacerbadas na Amazônia, encarnadas na figura do coronel de barranco, jocosamente identificado na região no campo do mandonismo. Nesta mesma perspectiva das relações assimétricas de poder, Kelem Rodrigues de Melo Pontes e Iraildes Caldas Torres, trazem o tema da violência praticada contra a mulher na cidade de Parintins, no Amazonas. Expõem o poder da dominação masculina no âmbito da relação conjugal, sem deixar de reconhecer que se trata de uma dominação mais ampla no plano da sociedade capitalista e patriarcal.

            Celso Augusto Torres do Nascimento e Marilene Corrêa da Silva Freitas, trazem a discussão inovadora sobre a etnociência e os saberes tradicionais no trabalho agrícola, mostrando que é possível o diálogo de ecologia de saberes no processo da economia solidária que se apresenta, atualmente, como uma perspectiva viável de geração de renda aos trabalhadores do campo e da agricultura familiar. A segunda seção sobre epifanias identitárias reacende o debate sobre as identidades, colocando em evidência o modo de ser e estar no mundo de segmentos sociais vulnerabilizados. Jocifran Ramos Batista e João Luiz da Costa Barros, abrem o debate indagando sobre a identidade do povo parintinense , o habitante de Parintins, no Amazonas. Discutem o sujeito na perspectiva de Foucault, apontando a necessidade de sua afirmação identitária.

            Joao Marinho da Rocha e Marilene Corrêa da Silva Freitas discutem a identidade quilombola numa comunidade afrodescendente, reconhecida como terra de quilombo, localizada no rio Andirá, no Amazonas. Evidenciam o aspecto de resistência política e os processos socioculturais de pertença e valorização étnico-racial. Nesta mesma direção Jéssica Dayse Matos Gomes e Renilda Aparecida Costa, analisam a presença negra no Amazonas e o papel social de negros em toadas de boibumbá, festa folclórica que exalta a cultura popular. Naia Maria Guerreiro Dias e Renan Albuquerque Rodrigues expõem o tema do turismo arqueológico, apresentando o contexto sócio histórico, econômico e cultural da Comunidade São Paulo de Valéria, localizada no Amazonas, a qual encontra-se assentada num sítio arqueológico e atualmente confecciona artesanato para fins de comercialização com base na reprodução de objetos arqueológicos.

            A última seção sobre as epifanias laborais apresenta as discussões sobre o trabalho e as condições de trabalho na Amazonia, chamando a atenção para o aspecto das relações de gênero nesta última fronteira agrícola. Rooney Augusto Vasconcelos Barros, Artemis de Araújo Soares e Iraildes Caldas Torres, apresentam as práticas sociais de trabalho das mulheres da Comunidade Nossa Senhora de Nazaré, localizada no Amazonas, mostrando que são elas os sujeitos centrais na organização do trabalho em suas famílias e comunidade. São mulheres corpos de trabalho que lutam pela sobrevivência com racionalidade estratégica e determinação organizativa. Deilson do Carmo Trindade e Iraildes Caldas Torres, discutem a expressão do trabalho no galpão do boi-bumbá, em Parintins, no Amazonas, mostrando a precariedade das relações de trabalho e os prejuízos para a saúde dos trabalhadores. Nesta mesma linha Rosimay Correa e Iraildes Caldas Torres, analisam a expressão do trabalho desenvolvido por ocasião da festa de São Miguel na Comunidade Paranapanema, localizada em Parintins, no Amazonas. Expõem os aspectos sociais e simbólicos do trabalho, apontando o significado religioso que entrelaça este tipo de trabalho. Christiane Pereira Rodrigues e Elenise Faria Scherer, chamam a atenção para a invisibilidade do trabalho das mulheres pescadoras de camarão numa comunidade, no Amazonas, pontuando a divisão sexual do trabalho e os aspectos das relações de gênero no que diz respeito `a dominação neste tipo de atividade laboral. Por fim, reafirmo a importância desta coletânea para todos aqueles que desejam conhecer a Amazonia e seus processos socioculturais. Há, aqui, uma mostra significativa destes processos e suas manifestações simbólicas.

 

Setembro de 2016

Artemis de Araújo Soares

Professora Associada da Universidade Federal do Amazonas

 

 

SUMÁRIO

 

01.

SAKPÓ: UMA DIMENSÃO FEMININA NA AMAZÔNIA

02

O ENCANTO DO BOTO: A sexualidade das mulheres das várzeas amazônicas

03.

CORONELISMO & AS RELAÇÕES DE PODER NA AMAZÔNIA

04.

VIOLÊNCIA GERACIONAL & PERVERSIDADE DOMÉSTICA: Quebrando o silêncio na Amazônia

05.

A ETNOCIÊNCIA: & OS SABERES TRADICIONAIS AGRÍCOLAS NA AMAZÔNIA

06.

AGORA QUEM FALA SOU EU, PARINTINENSE

07

“NÓS TEMOS AGORA OUTROS VALORES”

Ressemantização e emergência étnica quilombola do Rio Andirá, Barreirinha – AM.

08

PRESENÇA NEGRA: Sociologia das emergências nas toadas de boi bumbá na Amazônia

09

TURISMO EM ÁREAS ARQUEOLÓGICAS NA AMAZÔNIA

10

CORPOS INVISÍVEIS

11

UM OLHAR INTERPRETATIVO: o trabalho e o trabalhador dos galpões de Boi-Bumbá de Parintins

12

TRABALHO E LABOR A FESTA DE SÃO MIGUEL EM PARINTINS, AMAZONAS

13

MULHERES INVISÍVEIS: O trabalho das pescadoras de camarão no baixo amazonas

 

 

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