Fazendo Antropologia no Alto Solimões: diálogos interdisciplinares II

APRESENTAÇÃO

            

            O primeiro capítulo é escrito por Adailton da Silva, colaborador da série Fazendo Antropologia desde o primeiro número, sempre contribuin­do com a contra capa, com sugestões, com artigos, com apresentações e coorganização de um dos volumes. Em Representações sobre o negro na Amazônia: corpos, fronteiras e discrepâncias, Adailton da Silva trata do encontro do autor com diferentes representações sobre o negro na tríplice fronteira amazônica, a partir de relatos pessoais e de outros sobre significados múltiplos das performances da ancestralidade africana e do corpo socialmente identificado como pertencente ao grupo racial negro.

            Ana Paula Nunes Chaves em seus escritos nos brinda com a discussão sobre as políticas públicas de inclusão, em especial a escolar, e a chegada de outros ditos como estranhos à escola. A autora lembra que esses têm evidenciado o debate acerca das questões de alteridade pela dificuldade de convívio com o diferente. Mais do que a simples presença de todos na escola, essa nova forma de pensar a educação demonstrou, e vem de­monstrando, que a vivência e o convívio com o diferente apresentam uma experiência que exprime conflitos inevitáveis com aqueles considerados iguais e normais. Para a autora uma outra realidade escolar é possível.

            Canto xamânico: imagem de tradução é nome do segundo capítulo dessa obra, pertencente à Carolina Villada Castro. Nesses registros, a autora aborda o canto xamânico como imagem para pensar o ato de tradução. O texto é baseado nas análises e teorias de Eduardo Viveiros de Castro, especialmente a partir do livro Araweté: deuses canibais. Por meio dessa obra rica, famosa e icônica da antropologia brasileira, Carolina desdobra sua tradução xamanica.

            Catalina contribui com seus escritos em razão de um espírito jor­nalístico, sobre a situação de vida dos moradores de Letícia, da Colômbia, cidade vizinha a Tabatinga, mas que é uma importante zona urbana do Estado do Amazonas. A autora trata de fatos que marcaram a vida dos grupos mais oprimidos, indígenas e ribeirinhos.

            O quarto capítulo dessa obra é composto pelos escritos de Ednailda Santos. Foi docente da Universidade Federal do Amazonas, na unidade acadêmica de Humaitá. Já participou em outros volumes da série Fazendo Antropologia e dessa vez nos oferece a sua experiência como docente numa creche no Recôncavo Baiano. Em seu texto, reflete sobre a sua experiência numa creche de tempo integral, no campo, durante três meses. Conta-nos o que fez, viu, leu, ouviu e muito mais naquele espaço tempo.

            O próximo capítulo do livro é trabalhado por dois autores, Joyce Fir­mino e Michel Justamand. Desenvolvem seus comentários a partir de uma abordagem analítica das contribuições teóricas do pensamento complexo de Edgar Morin, entrelaçando-as com as práticas interdisciplinares do poder judiciário do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), em especial na Vara de Execuções de Medidas e Penas Alternativas (Vemepa), situada no Fórum Ministro Henoch Reis em Manaus/AM. Lembram ainda da importância do trabalho interdisciplinar executado pela Vemepa, seguindo práticas de profissionais, como assistentes sociais, psicólogos, juízes e assessores jurídicos, como inclusive é preconizado pelo teórico Morin.

            O texto Lampião da esquina: hoje e sempre, de Lilian Marta Gri­solio, autora que tem participado em outros números da série Fazendo Antropologia no Alto Solimões, soma-se a Rhanielly Pereira do Nascimento Pinto, para tratarem de uma publicação que leva o título do capítulo. Essa publicação era voltada a homossexuais e seus questionamentos. Esse jor­nal circulou entre 1978 e 1981, durante a ditadura civil-militar brasileira, que se estendeu de 1964 a 1985, e revelava a luta permanente, já nesse período, da comunidade LGBT.

            A discussão a respeito das pinturas rupestres no Brasil é o texto de Michel Justamand. Autor que colaborou em todos os números da série com capítulos, organização das obras e suas apresentações. Nesse atual capítulo, trata de novos detalhes sobre as pinturas rupestres (pinturas feitas em suportes rochosos) produzidas no Brasil. Ação comunicativa praticada desde há milhares de anos antes do presente. Obras artísticas que estão espalhadas por muitos sítios arqueológicos do mundo e no território na­cional, vestígios são encontrados em todos os Estados brasileiros.

            Dois campos do conhecimento científico são contemplados no próximo capítulo da obra, a arqueologia e a antropologia. Na escrita de Patrícia Bayod Donatti, é desconstruída a trajetória, dita por muitos como "vitoriosa", de um teórico histórico e bastante conhecido em ambas as áreas entre pesquisadores brasileiros. A autora desconstrói especialmente a imagem heróica desse arqueólogo/antropólogo alemão Curt Nimunedajú. Esse etnólogo que, ligado ao Estado graças às práticas de pacificação do SPI, contribuía para a venda das coleções arqueológicas e etnográficas para museus europeus e brasileiros. Ele ainda recebia financiamento brasileiro e de países interessados nesse negócio, como Alemanha, Suécia, França, Estados Unidos, onde estão seus arquivos.

            O artigo assinado por Renan Albuquerque, Alexsandro Medeiros, Michelle Serrão e Leiliane da Silva teve como meta estudar relações da representatividade de saberes locais amazônicos junto ao SUS. O campo de pesquisa foi o município de Parintins, Estado do Amazonas, Região Norte do Brasil. A proposta foi: i) identificar leis entendidas como atos normativos de fomento na associação de saberes locais à biomedicina, ponderando o reflexo disso na sociedade, e ii) inferir acerca de correlações entre alimen­tação, grupos sociais e saúde na atualidade, apontando engendramentos do SUS no processo.

            O próximo capítulo foi também escrito por um autor que colaborou em todos os números da série, ora na organização das obras e em suas apresentações. Tharcísio Cruz revela, em seus escritos sobre o Folclore Brasileiro por Câmara Cascudo e Mario Ypiranga Monteiro, a presença de elementos do processo de constituição do pensamento social brasileiro e de seu folclore. Entre esses elementos estão os debates sobre o pensamento social brasileiro e as inúmeras interpretações e variados temas, como raça, cultura, política, economia e folclore.

            Assim, apresentamos aos leitores temas, modos de pensar diversos, formas alternativas de ver, refletir, entender e pensar no e para o mundo. Temos como certo que esses escritos ampliaram e permitiram novos olhares para o modo de fazer antropológico. Sendo que para nós o modo de fazer antropológico se baseia na trans-inter-poli-multidisciplinaridade. E que é sempre preciso ir além de onde se está, quem sabe ir para o mundo, mas voltar com o que se descobriu/aprendeu para ver e pensar melhor sobre a sua região/localização. Pois bem, sendo de tal maneira, partimos desse pressuposto teórico, ou seja, dessa miríade de complexidades humanas e suas múltiplas facetas, para contribuir de modo efetivo com a ciência amazônica na área de humanidades.

            Acreditamos que nos Diálogos Interdisciplinares, nome do atual vo­lume, ajudamos a construir a Antropologia Ameríndia e mais especialmente as ciências presentes nessa obra, as quais têm contribuições a oferecer a estudantes de ciências sociais em geral e para outros ramos do saber inclu­sive. Esse volume do FAAS tem como sobrenome Diálogos Interdisciplinares II, pois o primeiro volume com esse subtítulo já foi publicado em 2016.

            Vale muito à pena lembrar e ressaltar que, apesar de convidarmos autores diversos, os volumes continuam sendo de autoria organizativa dos colegas de Benjamin Constant. O Nubeasol continua atuando de forma ativa nas produções livrescas, com alguns de seus integrantes na organização, outros nas comissões editoriais da obra e ou no Comitê Científico da Edi­tora. Lembrando também que a iniciativa parte de nossas ideias, vontades e momentos em que podemos dispor de verbas para as obras.

[...]

            Porquanto, desejamos boa leitura e excelente aproveitamento para reflexões, questionamentos e discussões onde quer que se encontrem, mas sejam antes de tudo muito felizes, a todas e todos!

            Do Alto Solimões, tríplice fronteira com o Peru e a Colômbia, para o mundo!

 

SUMÁRIO

 

A Antropologia no Alto Solimões: fazendo a diferença

Michel Justamand, Renan Albuquerque Rodrigues,Tharcísio Santiago Cruz

9

 

Representações sobre o negro na amazônia: corpos, fronteiras e discrep­âncias

Adailton da Silva

19

 

Os temores à diferença: uma forma de olhar de fora o outro na educação

Ana Paula Nunes Chaves

43

 

Canto xamânico: imagem de tradução

Carolina Villada Castro

53

 

Leticia: un despertar doloroso

Katalina Gutiérrez Peláez

63

 

A experiência de uma docente numa creche do Recôncavo Baiano

Ednailda Santos

75

 

Pensamento complexo e práticas interdisciplinares na área das Ex­ecuções de Medidas e Penas Alternativas

Joyce Freitas Araújo Firmino e Michel Justamand

85

 

Lampião da esquina: hoje e sempre

Lilian Marta Grisolio e Rhanielly Pereira do Nascimento Pinto

95

 

A discussão a respeito das pinturas rupestres no Brasil

Michel Justamand

107

 

Apontamentos da história da arqueologia e da antropologia no Brasil através de Curt Nimuendajú

Patrícia Bayod Donatti

121

 

A ciência popular de alto valor e as ações do SUS na Amazônia central

Renan Albuquerque, Alexsandro Medeiros, Michelle Serrão e Leiliane da Silva

133

 

Folclore Brasileiro por Câmara Cascudo e Mario Ypiranga Monteiro

Tharcisio Santiago Cruz

151

 

Sobre os autores

165

 

Ciência Política → Livros (Coletâneas) → Fazendo Antropologia no Alto Solimões: diálogos interdisciplinares II

 

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Fazendo Antropologia no Alto Solimões: diálogos interdisciplinares

 

 

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