Filosofia Cristã: Interioridade e Dever

Filosofia Cristã: Interioridade e Dever

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em abr. 2016

 

            Na Idade Média a Filosofia sofrerá uma forte influência da tradição cristã. Os filósofos deste período são, ao mesmo tempo, teólogos, bispos, abades, padres. Ao tentar conciliar fé e razão, a filosofia permanecerá, ao longo de todo período medieval, subordinada à teologia, de tal modo que, neste período, é impossível separar o pensamento filosófico da tradição grega, do pensamento teológico cristão.

            Os primeiros filósofos cristãos, ao procurar conciliar fé e razão, procuraram interpretar, de forma racional, aquilo que era justificado pela fé através da revelação. Se somos seres dotados de razão, não poderíamos então utilizar esta mesma razão como instrumento de análise e reflexão sobre os pressupostos fundamentais da fé cristã? É assim que a filosofia se insurge no campo da ética cristã, como tentativa racional de justificar seus princípios e normas de comportamento, submetendo a lei divina revelada ao crivo da razão.

            Em um contexto de intensa relação entre filosofia e teologia, a ética cristã assume um lugar de destaque sendo definida por sua relação espiritual e interior com Deus (através da fé) e com o próximo (pela caridade). Além disso, por meio da revelação divina (Antigo e Novo Testamento), Deus manifestou aos homens sua vontade e suas leis, definindo o que é o bem e o mal, felicidade e infelicidade, salvação e castigo. Esta revelação é fundamento para a vida ética do cristão que deve obedecê-la reconhecendo nela a vontade e a lei de Deus, introduzindo assim no campo da moral a ideia do dever. Desta forma, uma conduta será considerada ética ou moral se realizada de acordo com as normas impostas pelo dever e imoral ou antiética, se realizada em contrariedade com tais normas. No cristianismo, o que o Homem seria ou deveria ser definia-se em relação à divindade. A essência da felicidade tornou-se a contemplação de Deus; a ordem sobrenatural passou a ter primazia sobre a natural.

            Vale salientar que a moral cristã, ao destacar a interioridade dos seres humanos, introduziu um outro conceito na constituição da moralidade ocidental que é a ideia de intenção. O dever se refere, inclusive, àquilo que pode ser chamado de ações invisíveis (e não apenas visíveis), que devem ser julgadas eticamente. Isto quer dizer que deve ser levado em consideração no julgamento ético não apenas os atos, mas as intenções que nos levaram a praticar determinado ato. E o cristão tem tanto mais razão para levar em consideração suas próprias intenções quanto sabe que mesmo aquilo que é invisível aos olhos humanos, é visível aos olhos de Deus. Nada Lhe está oculto, nem mesmo o que acontece no interior dos homens.

            O cristianismo se afirma ainda na ideia do livre-arbítrio, sendo que o primeiro impulso da liberdade dirige-se para o mal (pecado). O homem passa a ser fraco, pecador, dividido entre o bem e o mal. O auxílio para a melhor conduta é a lei divina. Também é possível afirmar que a ética cristã se fundamenta no amor: “ainda que eu fale a língua, dos homens e dos anjos, se eu não tiver amor... eu nada sou”. O amor foi colocado como o primeiro e maior mandamento: o amor a Deus acima de todas as coisas e o amor ao próximo. É no amor que o cristianismo encontra sua realização espiritual mais profunda.

            O cristianismo se apresenta muito mais como uma religião, uma sabedoria do que como uma filosofia, mas que pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida, pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. O cristianismo fornece uma imprescindível integração à filosofia, no tocante à solução do problema do bem e do mal, mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. E, enfim, além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral, o cristianismo implica uma determinação, elucidação, sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação, mediante uma disciplina específica, que será a teologia dogmática.

            Sob a influência da Igreja, as especulações se concentraram em questões filosófico-teológicas, tentando conciliar a fé e a razão. E é nesse esforço que Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, dois dos maiores expoentes da filosofia cristã, trouxeram à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. Agostinho e Tomás de Aquino foram os principais responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles, respectivamente. O primeiro é um dos maiores representantes do período da filosofia cristã conhecido como Patrística, e o segundo, da Escolástica.

 

Disponível em: Blog Entremundos

Acessado em 26/03/2016

 

Santo Agostinho

 

            A aproximação entre Platão e o cristianismo constitui a primeira grande síntese entre a filosofia grega e o pensamento cristão, o assim chamado: platonismo cristão. A Filosofia de Santo Agostinho foi elaborada com base em uma aproximação entre o neoplatonismo de Plotino e Porfírio e a doutrina cristã. Mas o verdadeiro e legítimo conhecimento é o da teologia, e é a esses ensinamentos que o homem deve dedicar-se, pois só ele prepara sua alma para a salvação e para a visão de Deus.

            Tal como Sócrates e Platão, Santo Agostinho é um homem profundamente voltado para a sua interioridade, para esse grande mistério que é o homem, e sua obra prima, as Confissões (AGOSTINHO, 1955), põe a nu o seu espírito e o intenso drama vivido interiormente por ele mesmo, para alcançar um mais alto grau de espiritualidade, uma vez que é nessa interioridade, ou se se preferir, nas profundezas do nosso eu, que podemos realizar nosso encontro com Deus e nossa verdadeira essência. Assim, esse mergulho na nossa interioridade mostra-nos a nossa real essência, revela-nos que há dentro de nós algo de mais profundo que o nosso eu exterior e é dentro desta perspectiva de uma filosofia introspectiva que Agostinho agrega uma série de conceitos fundamentais.

            Evidentemente, a moral agostiniana é teísta e cristã e, desta forma, a virtude não é uma ordem de razão, hábito conforme a razão, como dizia Aristóteles, mas uma ordem do amor. É fácil constatar em sua obra Confissões que a essência do homem está no amor: “ama et fac quod vis” – ama e faça o que quiseres[1]. Santo Agostinho fundamenta seu conceito de ética no Amor a Deus (amar a Deus acima de todas as coisas) que se desdobra no amor da criatura pelo Criador, no amor a si mesmo e ao próximo (ama ao teu próximo como a ti mesmo): o amor é o primado da vida moral. O princípio da supremacia de Deus é significativo por que assim consta nas Escrituras e, consequentemente, visa o respeito à lei de Deus que ordena todos os homens a amarem-se como irmãos.

            Os livros 7 e 8 das Confissões merecem aqui maior destaque pois que retratam os dois momentos cruciais da experiência mística agostiniana: sua conversão intelectual e sua conversão moral. O livro 7 trata do encontro decisivo de Agostinho com Platão, através do neoplatonismo. Agostinho percebe muitos traços de semelhança entre o neoplatonismo e o cristianismo. A sabedoria antiga pôde pressentir a finalidade da vida humana: sua união com Deus. Mas os filósofos antigos não viram (e nem poderiam ver) o caminho para alcançar esta felicidade: Cristo, o único caminho pelo qual os homens alcançam a salvação. Agostinho afirma que o neoplatonismo e o cristianismo se assemelham, por exemplo, no que diz respeito a uma metafísica do ser e do não-ser, a doutrina do mal como privação do bem, a divina providência e uma teoria epistemológica da iluminação divina. Todavia, o que Agostinho não encontrava era a encarnação de Cristo e a salvação por meio desta encarnação. O livro 8 é o ponto culminante da obra. Agostinho narra de forma até poética as experiências que o conduziram definitivamente a conversão ao cristianismo: “tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova; estavas comigo e não eu contigo; seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti, chamaste, clamaste por mim, afugentaste minha solidão, e eu ardi por tua paz”.

            No pensamento agostiniano, tal como no platonismo, encontramos igualmente a ideia de purificação da alma através da necessidade de uma elevação ascética para se compreender os desígnios de Deus (veja, por exemplo, a Alegoria da Caverna). O homem precisa se libertar de suas paixões para poder alcançar o equilíbrio espiritual, elevando-se à Deus, ao qual também é necessário o auto-conhecimento. Estando a alma purificada, está preparado o terreno para o verdadeiro conhecimento.

            Por fim, devemos destacar ainda um dos problemas que mais angustiaram o pensamento de Santo Agostinho: o problema da origem do mal. Se tudo provém de Deus, que é o Bem e fonte de todas as coisas, de onde provém o mal? Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal – de que dá uma vasta e viva fenomenologia. A solução deste problema por ele achado foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica. Antes de tudo, Agostinho nega a realidade metafísica do mal. O mal não é ser, mas privação de ser, como a obscuridade é ausência de luz. “Podemos começar a descrever o “mal” a partir do que ele não é: o “mal” não é uma realidade. Ele é privação. Ele é ausência de bem. Ele não é uma realidade existente. Só o bem é real” (FERRAZ, 2014, p. 79). Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus, enquanto criado, limitado. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico, que não é verdadeiro mal, porquanto não tira aos seres o que lhes é devido por natureza. Além do mal metafísico existe também o mal moral. Existe realmente a má vontade que livremente faz o mal; ela, porém, não é causa eficiente, mas deficiente, sendo o mal não-ser. Este não-ser pode unicamente provir do homem, livre e limitado, e não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original por isso, a humanidade foi punida com o sofrimento, físico e moral, além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. O mal moral é o pecado, e o pecado é uma consequência do mau uso que fazemos do nosso livre-arbítrio. “Com efeito, no plano moral o mal jaz nos atos das criaturas racionais, notadamente no ‘livre arbítrio’. Mais especificamente, o mal reside no mau uso do ‘livre arbítrio’” (FERRAZ, 2014, p. 80).

            Como podemos constatar, o mal físico (doenças, sofrimentos etc) tem, deste modo, origem a partir do pecado original; é uma consequência do mal moral. Remediou este mal moral a redenção de Cristo, Homem-Deus, que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral; mas deixou permanecer o sofrimento, consequência do pecado, como meio de purificação e expiação.

            De modo geral, o problema do mal está diretamente relacionando com a nossa liberdade: a vontade é livre, e pode querer o mal, pois somos um ser limitado, podendo agir desordenadamente, imoralmente, contra a vontade de Deus. E assim, devemos considerar esta ação não como causa eficiente, mas deficiente da sua ação viciosa, porquanto o mal não tem realidade metafísica. O pecado, pois, tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem, porquanto a criatura, não podendo lesar a Deus, prejudica a si mesma, determinando a dilaceração da sua natureza.

O livre-arbítrio sendo a capacidade de decidir e agir livremente pode ser influenciado pela vontade (voluntas) e que por isso precisa da graça divina para não se deixar influenciar pelo pecado. “Tal distinção pode ser esclarecida especialmente a partir do ‘livro VIII’, das “Confissões”, em que Agostinho mantém que a vontade humana carece da Graça Divina” (FERRAZ, 2014, p. 78). A graça divina é necessária para que o homem “lute contra a concupiscência e se torne digno diante de Deus” (FERRAZ, 2014, p. 81).

 

São Tomás de Aquino

 

            No século VIII, Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. A cultura greco-romana, guardada nos mosteiros até então, passou a ser divulgada, passando a ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. Era a renascença carolíngia e a fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosófico-teológica denominada escolástica.

         A partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico, marcando-o definitivamente. Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles, e à tradução para o latim de algumas delas, diretamente do grego. A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se, no entanto, como problema básico de especulação filosófica. É nesse contexto que surge a figura de São Tomás de Aquino.

 

De fato, um dos mais importantes propósitos do pensamente (sic) de Tomás de Aquino será justamente demonstrar a compatibilidade entre fé e razão. Nesse sentido, Tomás de Aquino logra demonstrar que há razoabilidade na verdade revelada nos Evangelhos. E ele o faz tomando como suporte especialmente a filosofia de Aristóteles (FERRAZ, 2014, p. 93).

 

            Os filósofos medievais herdaram alguns elementos da tradição filosófica grega, reconfigurando-os no interior de uma ética cristã. São Tomás de Aquino recuperou da ética aristotélica a ideia de um agir racional teleológico e de que a felicidade é o fim último dos homens, mas cristianizou essa noção quando identificou Deus como a fonte dessa felicidade. A Filosofia de São Tomás de Aquino representa uma aproximação entre o cristianismo e o aristotelismo, assim como Santo Agostinho representou uma aproximação com o platonismo.

 

Tomás de Aquino assumirá diversos elementos fundamentais da filosofia aristotélica. Por exemplo, ele assume a ideia segundo a qual todos tendemos a um fim, sendo tal fim a nossa felicidade. Ele assume, também, a perspectiva teleológica. Também está em Tomás de Aquino a divisão entre as três funções anímicas: vegetativa, sensitiva e intelectual/racional. Isso se insere na divisão mais geral entre alma e corpo. Para Tomás de Aquino, o corpo é mutável e perecível. Mas, apesar de seu aspecto corruptível, ele pode colaborar para com o aperfeiçoamento humano. Na linguagem aristotélica, dir-se-ia que assim como a potência está para o ato, o corpo está para a alma (FERRAZ, 2014, p. 94).

 

            Os dois fatores fundamentais que nos ajudam a compreender o pensamento de São Tomás são: o surgimento das universidades e a criação das ordens religiosas dos franciscanos e dominicanos. São Tomás era um frade dominicano profundamente ligado às universidades da época, sobretudo à de Paris.

            Assim como a quase totalidade dos teólogos medievais, para São Tomás, tudo o que existe é bom, porque é fruto e expressão da bondade suprema e livremente difundida por Deus. Todas as coisas, singularmente e em seu conjunto, são boas, porque de origem Divina. Por isso a ética tomista parte do princípio da existência de Deus, porque nenhuma ética seria possível sem pensar Sua existência. Além dessa bondade divina, é preciso levar em consideração também que o homem é de natureza racional, e é essa concepção de homem que vamos encontrar na base da ética tomista (uma clara influência do racionalismo aristotélico).

            Segundo Tomás de Aquino, a ética consiste em agir de acordo com a natureza racional, pois a razão é uma espécie de orientadora da lei, que o santo dividiu em: Lei Eterna (lei que governa todo o universo, feita por Deus), Lei Natural (são as leis que a natureza “ensinou” aos homens e animais, como a auto-conservação, a união entre macho e fêmea, que também foi feita por Deus e por isso é subordinada à Lei Eterna) e Lei Temporal (mutável e contingente). Através da razão, o homem deve ser conduzido pela Lei Eterna, pois o objetivo das Leis criadas por Deus é tornar os homens bons.

            Por isso alguns autores afirmam que a moral tomista é essencialmente intelectualista. A ordem moral depende da necessidade racional da divina essência, isto é, a ordem moral é imanente, essencial, inseparável da natureza humana, que é uma determinada imagem da essência divina, que Deus quis realizar no mundo. Desta sorte, agir moralmente significa agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional do homem.

            Mas além da razão é preciso considerar o fator “vontade”, pois mesmo que a vontade não determine a ordem moral, é a vontade todavia que executa livremente esta ordem. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade, recorrendo a um argumento metafísico fundamental. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto, isto é, de Deus, a vontade seria determinada por este bem infinito, conhecido intuitivamente pelo intelecto. Porém, no mundo, a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que, portanto, não podem determinar a sua infinita capacidade de bem e que pode conduzir ao mal e ao erro. É mister acrescentar que, para a integridade do ato moral, são necessários dois elementos: o elemento objetivo, a lei, que se atinge mediante a razão; e o elemento subjetivo, a intenção, que depende da vontade.

            Vemos assim que Tomás de Aquino destaca, como raiz do mal (concebido como em Agostinho como falta de bem), a ausência do conhecimento da ordem estabelecida por Deus. Se o intelecto humano pudesse oferecer a visão beatífica de Deus, a vontade humana não poderia deixar de desejar o fim ao qual está destinada sua natureza, que tende para Deus como bem supremo. Mas na vida terrena o intelecto só conhece o bem e o mal de coisas e ações que não são de Deus e a vontade é livre para querê-las ou não querê-las. Assim, podemos dizer que a raiz do mal está não apenas nesta ausência de conhecimento, como também na nossa liberdade, na vontade de poder escolher livremente o bem ou o mal. O homem, porque é livre, peca quando se afasta deliberadamente e infringe as leis de Deus que a razão lhe dá a conhecer e Deus a manifesta por meio da revelação. Nesse sentido, o mal é desobediência, e sua raiz está na liberdade, que pode ou não reconhecer nossa dependência em relação a Deus.

            A ética tomista também deve ser trabalhada no âmbito da política. Analisando a natureza humana, resulta que o homem é um animal social-político (outra clara influência aristotélica) e, portanto, forçado a viver em sociedade com os outros homens. A primeira forma da sociedade humana é a família, de que depende a conservação do gênero humano; a segunda forma é o Estado, de que depende o bem comum dos indivíduos. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente, se compreende como o indivíduo não é um meio para o Estado, mas o Estado um meio para o indivíduo. Segundo Tomás de Aquino, o Estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica), mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). Embora o Estado seja completo em seu gênero, fica, porém, subordinado, em tudo quanto diz respeito à religião e à moral, à Igreja, que tem como escopo o bem eterno das almas, ao passo que o Estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos.

            A distinção conceitual de Tomás de Aquino entre os tipos de leis (lex aeterna, lex divinae, lex naturalis, lex humanae) também tem reflexos no campo político:

 

a lei eterna é o governo racional de tudo o que há. Tal governo é conduzido por Deus, Soberano do universo. Ela expressa a vontade inescrutável Dele. Ela é um mistério para nós. Resumidamente, ela é a vontade de Deus, inacessível para nós. A lei divina é a palavra de Deus “positivada” nas Sagradas Escrituras. Tanto a lex divinae quanto a lex naturalis são expressões da vontade Dele, da lex aeterna. Mas elas apenas expressam parcialmente essa última. Diferentemente do que ocorre com a lei natural, a qual atingimos pela razão, para que possamos atingir a lei divina faz-se necessária a já referida revelação. E isso envolve graça e fé. A lei natural é a participação na lei eterna pelas criaturas racionais por Ele criadas. É a ordem natural das coisas, da Criação [...] Por fim, a lei humana é a lei dos homens (por exemplo, o código penal, a constituição, etc.). A lei humana, se justa e legítima, está de acordo com a lei natural e com a lei divina (a qual, por sua vez, é expressão da lei eterna) (FERRAZ, 2014, p. 97-98).

 

 

Referências Bibliográficas

 

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 5. ed. Porto: Portugal, 1955.

BONINO, José Miguez. Ama e faze o que quiseres: uma ética para o novo homem. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1982. Versão digital disponível em: Igreja Metodista de Vila Isabel. Acessado em 19/03/2016.

FERRAZ, Carlos Adriano. Elementos de ética. Pelotas: NEPFil online, 2014. Acessado em 18/03/2016.

 



[1] Segundo José Bonino esta frase aparece nas “Exposições da Epístola de S. João aos Partos” (AGOSTINHO, Exp. VII, 8) e expressa a ideia de que o amor constitui, simultaneamente, “[...] a motivação de nossas ações e possibilita o discernimento para realizá-las concretamente. O amor a Deus e ao próximo constituem uma só realidade” (BONINO, 1982, p. 150 – nota 9).

 

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