Filosofia, Sociedade e Democracia

Filosofia, Sociedade e Democracia

            O homem é um ser que vive e se realiza através da sociedade, mas sofre com as inúmeras consequências decorrentes da mudança do/no tempo[1]. E uma das formas de conhecimento mais antiga através da qual o homem busca explicações para a realidade social em que vive é através do conhecimento filosófico.

            A despeito disto, muitos não conseguem ver a importância da filosofia. Acham que ela é inútil e não serve para nada. Não conseguem enxergar como a filosofia procura contribuir não só com o conhecimento da ciência, mas sobretudo o ensino moral, ético e social. Neste sentido podemos dizer que a Filosofia é a arte do bem viver, que estuda as paixões e os vícios humanos, na qual analisa a capacidade de nossa razão, onde impõe limite e nos ensina a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos.

            Não existe uma única filosofia e não existe um único pensamento filosófico e talvez por isso muitas pessoas achem a filosofia algo complexo. Na filosofia não existe uma única definição, um único pensamento, mas pensamentos muitas vezes divergentes que discutem entre si, pensamentos críticos e contestatórios fazendo com que os filósofos cheguem a conclusões muitas vezes opostas uns dos outros.

            Mas como sempre precisamos de uma definição, vamos utilizar algumas ideias para melhor entender a filosofia. De acordo com Marilena Chauí:

 

a filosofia surgiu quando alguns pensadores gregos se deram conta de que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso, que precisasse ser revelado por divindades a alguns escolhidos, mas que, ao contrário, podia ser conhecida por todos através das operações mentais de raciocínio (2012, p. 29).

 

            E Karl Jaspers diz que: “A filosofia entrevê os critérios últimos, a abóbada celeste das possibilidades e procura, à luz do aparentemente impossível, a vida pela qual o homem poderá enobrecer-se em sua existência empírica” (1992, p.138). Além disso, a filosofia é compreendida como um das mais importantes contribuições da civilização grega. Uma forma racional de compreensão do real a partir da qual decorre uma forma de agir, como defende uma boa parte dos filósofos, entre eles PlatãoKarl Marx por exemplo. O primeiro quando afirma que

 

(...) Deve-se considerar que nenhum de nós nasceu para si mesmo; a pátria reclama uma boa porção de nossa vida; outra os parentes; outra ainda, os amigos (...) Quando a pátria manda que nos ocupemos com seus assuntos, não ficaria fazer-nos de desentendidos? Desse modo só facilitaríamos o acesso de gente desqualificada, que não se aproxima dos negócios públicos com boas intenções (CARTA IX – 358 a).

 

            E Karl Marx, quando critica os próprios filósofos, por achar que estes apenas interpretavam o mundo e o que importava era transformá-lo.

            Partindo destes princípios podemos dizer então que ao compreender esse mundo real sentimos a necessidade de promover mudanças, a não ser que estejamos satisfeitos com as formas de relações sociais existentes. Mas se nos sentimos insatisfeitos devemos mudar. Por isso que a compreensão filosófica do real necessariamente implica numa forma de agir e não apenas de pensar ou teorizar essa realidade social. Ao refletir sobre os diferentes aspectos da realidade social, a filosofia nos convida a sermos protagonistas desta mesma realidade.

            A sociedade impõe a existência de relações de poder, formas de organização política, abusos de autoridade, opressão das massas em torno das quais não podemos permanecer passivos e acomodados. É fácil perceber a importância da filosofia ao analisar questões sociais se tomarmos, por exemplo, o conceito de cidadania do filósofo grego Aristóteles e que pode trazer contribuições importantes para a nossa época atual, segundo o qual um cidadão, para ser considerado como tal, deveria participar diretamente da coisa pública. Não bastava morar na cidade, ou ser descendente de cidadãos. Para ser cidadão impõe-se “tomar parte na administração da justiça e fazer parte na assembleia que legisla e governa a cidade” (REALE, 2007, p. 130).

            Em uma sociedade globalizada como a nossa que se caracteriza pelos conflitos e contradições, é importante pensar num indivíduo envolvido nas mais diferentes questões sociais e políticas e para tal os filósofos em suas mais diferentes épocas tem importantes ideias para contribuir com o nosso engajamento político, como Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Habermas e muitos outros.

            Maquiavel  foi o primeiro defensor da autonomia da esfera política, sobretudo em relação a moral e a religião. O realismo político de Maquiavel (que procurava a verdade efetiva das coisas ao contrário das utopias sociais) está ligado a um pessimismo antropológico sobre a visão de uma natureza humana corrupta. Por isso, Maquiavel entende que o bom governante, forçado pela necessidade, deve saber usar a violência visando o bem coletivo. Para Maquiavel os homens sempre agiram pelas formas de violência e da corrupção, concluindo que o homem é capaz de tudo. Thomas Hobbes, que também tem uma visão pessimista da natureza humana, analisa o surgimento do Estado e da Socidade como uma forma necessária de controlar a violência dos homens entre si e garantir a preservação da vida humana. Como Maquiavel, também não confia nos homens, considerando-o antissocial por natureza, nos quais predominam interesses egoístas, onde o homem se torna um lobo para o próprio homem. Ele afirmava que o estado natural do homem é de agressividade, ou seja de “guerra de todos contra todos”. Sendo assim, o homem age movido por paixões e desejos e não hesitará em tirar do outro algum objeto de desejo que esteja em suas mãos, inclusive a própria vida.

            Entre os mais diferentes temas que envolvem as relações de poder e organização política, globalização, opressão, e muitos outros, a ideia de Democracia é algo que deve ser levado em consideração, já que vivemos em um Estado Democrático de Direito e os filósofos também procuraram das suas contribuições ao analisar a ideia de que como a soberania de um Estado deve estar nas mãos do povo. Nesse aspecto ganham importância os filósofos Jean-Jacques Rousseau e Habermas. O primeiro como um teórico do iluminismo francês e defensor da soberania popular e o segundo idealizador da Teoria do Agir Comunicativo, cuja teoria pretende aplicar nas sociedades democráticas, caracterizadas por uma esfera pública denominada pelo discurso e pela argumentação de interesse coletivo, propondo uma participação igualitária de todos os cidadãos nas discussões em torno da coisa pública. Desta análise decorre a ideia de uma Democracia Deliberativa que tem como objetivo promover a legitimidade das decisões coletivas, encorajando a população a participar dos assuntos públicos. HabermasJean-Jacques Rousseau através de suas teorias defendiam que a democracia ideal é aquela em que os cidadãos têm livre arbítrio para escolherem o que será melhor para a sociedade, tendo uma postura ativa em todas as decisões.

            Rousseau fala sobre uma Democracia onde a soberania deve ser do povo, o povo deve exercer diretamente essa soberania na esfera Legislativa, onde ela não pode ser Representativa, no entanto essa soberania seria limitada a uma esfera, sendo o Poder Executivo sujeito a Representatividade. Segundo ele cabia ao povo criar as leis que os próprios deveriam obedecer.

            Em contrapartida Habermas foi mais além e defendia um modelo de Democracia Deliberativa, onde povo deveria participar na esfera Legislativa e Executiva; na criação de leis e na formulação e implementação de Políticas Públicas.

            Ao destacar as ideias de filósofos, de épocas distintas e realidades bem díspares, fica evidente o que dissemos mais acima, que não existe uma única filosofia e nem mesmo um único pensamento filosófico. Na filosofia não existe uma única definição, um único pensamento, mas diferentes formas de pensamentos e de interpretar o mundo e a realidade social. Mas a despeito de tantos pensamentos divergentes, será que a filosofia tem algo a contribuir para pensar a nossa realidade local?

            No Brasil o caminho foi conturbado para que se chegasse a uma Democracia, principalmente durante o golpe militar e os anos que sucederam a ditadura, que privava os cidadãos de qualquer direito como a liberdade e o direto de voto livre. Muitas vidas foram ceifadas para que se atingisse um Estado Democrático. Mesmo passado 30 anos de tal conquista, a insatisfação está presente nos olhares dos cidadãos com atual modelo de democracia onde os políticos eleitos pelo povo não estão correspondendo à altura e confiança que lhe foram depositadas, isso vem causando atritos constantes gerando insatisfações, e tal insatisfação decorre devido a perda de noção do compromisso social da classe política com a sociedade. Além disso fatores históricos fazem com que os brasileiros não se vejam como cidadãos responsáveis pelo governo do país, colocando-se em uma posição passiva na maior parte do tempo.

            É lamentável ver uma grande maioria da população se alienar, aceitar e até se enganar com propostas, programas e projetos elaborados em períodos eleitorais, elas que muitas vezes por falta de conhecimento e se sentirem dependentes destes, acabam colocando toda uma nação em mãos de pessoas totalmente sem conhecimento, que se sustentam no poder na base da mentira enganação ao passar palavras de igualdade, mudanças positivas, justiça.

            Dizer que vivemos em um país que exerce o poder Democrático, que há liberdade de expressão, que é livre de distinções ou privilégio de classes, não passa de hipocrisia, ilusão por ainda acreditar nesse modelo de governo mesmo diante dos fatos explícitos e absurdos. Uma democracia deve visar o bem em comum, mas estamos muito longe de ver na realidade prática esse ideal teórico.

            A sociedade em geral, homens, mulheres, crianças, têm que estar ligado a política de uma forma Participativa, entrando sempre em consenso ou não diante das questões sociais, saber decidir quem melhor irá administrar o exercício público, deixar de só balançar a cabeça mencionando o positivo, deve-se principalmente colocar em práxis a comunicação, debater, questionar, reivindicar, protestar, aliás, não estamos condenados a continuar presenciando absurdos, criança matando, roubando, usando drogas, vendo a violação de leis e direitos, altos impostos, corrupção sem punição, a humanidade se destruindo e ficarmos de braços cruzados.

            Enfim, há uma multiplicidade de fatos e atos desconexos, que se entrelaçam no interior da sociedade, constituindo o elemento mais complexo que se pode imaginar: o homem contemporâneo, por excelência, um ser social, que diante da sua realidade vê nascer seus problemas. A Filosofia desempenha um papel relevante na vida do homem, buscando soluções para seus principais problemas, que versam sobre a moral, e a reorganização da sociedade e dentre outros. Sendo assim, continua disponível para dar a sua contribuição. Mostrar ao homem que ele não é meramente um produto do meio, que sofre com as interferências das pessoas e reage como tal. O homem, por sua vez, transforma a sociedade. Então o discurso filosófico aparece para desenvolver o pensamento crítico, buscando refletir sobre as inúmeras práticas sociais, dentro da realidade na qual nos encontramos. Portanto, a filosofia tem um papel relevante em uma sociedade democrática, estimulando o debate, a análise crítica das estruturas sociais, o diálogo como forma de interação social e, sobretudo, estimulando homens e mulheres a transformar a realidade na qual estamos inseridos.

 

 

Referências Bibliográficas

 

CHAUI, Marilena. Iniciação a Filosofia. São Paulo: Ática, 2012.

JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento Filosófico. São Paulo: Cultrix, 1992.

REALE, Giovanni. Aristóteles. História da filosofia grega e romana. Tradução de Henrique C.L. Vaz e Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2007. Vol. IV.

 

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[1] Este texto é uma colaboração dos autores Simony Souza Picanço, William Ferreira Brandao, Suelen Colares Barbosa, Camila Corrêa, Viviane Ferreira (então acadêmicos do curso de Serviço Social da UFAM na época da redação do texto)

 

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