Homeopatia

por Alexsandro M. Medeiros

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publicado em ago. 2015

atualizado em out. 2017

            A medicina possui dois métodos totalmente distintos de abordagem terapêutica mas que tiveram a mesma origem nos trabalhos de Hipócrates: a alopatia e a homeopatia.

A terapêutica homeopática se diferencia de outros sistemas terapêuticos (alopático e do enantiopático) no raciocínio clínico, no tipo e na preparação do medicamento utilizado. O princípio da similitude expresso no aforismo “similia similibus curantur” (o semelhante cura o semelhante) é a sustentação filosófica da homeopatia, inspirada nos ensinamentos da medicina hipocrática (MONTEIRO; IRIART, 2007, p. 1905)

            A Homeopatia, como a Medicina Tradicional Chinesa, adota como princípio uma filosofia vitalista e toma como fundamento princípios médicos enunciados desde a mais Alta Antiguidade, por Hipócrates, considerado o pai da medicina. Corrêa, Siqueira-Batista e Quintas (1997, p. 347) ressaltam como Hipócrates introduziu como métodos terapêuticos:

a “cura pelos contrários” (Contraria Contrariis Curentur), consolidada por Galeno (129-199 d.C.) e Avicena (980-1037), que é a base da medicina alopática; e a “cura pelos semelhantes” (Similia Similibus Curentur), reavivada no século XVI por Paracelso (1493-1591) e consolidada pelo médico alemão Samuel Hahnemann, quando este criou a Homeopatia

            Teixeira (2007, p. 548), citando o próprio Hahnemann (1995, §9) ressalta a crença na força vital que serve de base aos princípios homeopáticos:

No estado de saúde do indivíduo reina, de modo absoluto, a força vital de tipo não-material que anima o corpo material (organismo), mantendo todas as suas partes em processo vital admiravelmente harmônico nas suas sensações e funções, de maneira que nosso espírito racional que nele habita, possa servir-se livremente desse instrumento vivo e sadio para um mais elevado objetivo de nossa existência.

            Com Samuel Hahnemann, no século XVIII, a Homeopatia ganhou corpo doutrinário e filosófico.

Uma das abordagens mais intrigantes dos padrões dinâmicos fundamentais do organismo humano é a da homeopatia. As raízes da filosofia homeopática remontam aos ensinamentos de Paracelso e Hipócrates, mas o sistema terapêutico formal foi fundado no final do século XVIII pelo médico alemão Samuel Hahnemann (CAPRA, 1982, p. 320).

            Hahnemann obteve o diploma de médico com 24 anos, em 1779, pela Universidade de Erlangen e passou então a clinicar durante vários anos. A partir de 1790, depois de vários estudos, apoiado em sua experiencia médica e na “filosofia hipocrática (Similia similibus curentur), Hahnemann idealizou uma nova forma de tratamento, embasada na cura pelos semelhantes” (CORRÊA; SIQUEIRA-BATISTA; QUINTAS, 1997, p. 349) e em 1796 Hahnemann publica Ensaio sobre um novo princípio para averiguar os poderes curativos das substâncias medicinais, publicação que é considerada por muitos como o marco inicial da homeopatia. Em 1810 é publicada a obra Organon da Arte de Curar; um ano depois, constituída de 6 volumes, Matéria Médica Pura; e em 1828 Doenças Crônicas. Foi Hahnemann quem consolidou a lei que dá base a homeopatia, mas cujas origens remontam a Hipócrates, de onde se origina o termo: o semelhante cura o semelhante (homo = semelhante; pathos = sofrimento).

            Os grandes continuadores do trabalho de Hahnemann foram Constantin Hering (1800-1880) e James Tyler Kent (1849-1916).

         No Brasil estão associados à medicina homeopática nomes como Benoit-Jules Mure (também conhecido como Bento Mure) e João Vicente Martins. O primeiro fundou a Escola Homeopática do Rio de Janeiro em 1841; o segundo foi diretor da Escola Homeopática do Brasil em 1845; e ambos foram responsáveis pela abertura da primeira farmácia homeopática do Rio de Janeiro em 1842. “No Brasil, a Homeopatia foi introduzida por Benoit Mure, em 1840, tornando-se uma nova opção de tratamento” (GUARULHOS, 2014, p. 16), “[...] na década de 1980, a medicina homeopática é reconhecida como especialidade pelo Conselho Federal de Medicina; em 1981 nasce a Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB)” (SIEGEL, 2010, p. 160) e em 2003, “foi aprovada pela Comissão Nacional de Residência Médica, a primeira Residência Médica em Homeopatia da UNIRIO; em funcionamento no Hospital Gafreé Guinle, no Rio de Janeiro” (ESPÍRITO SANTO, 2013, p. 11).

            Um levantamento sobre a presença da homeopatia nas universidades brasileiras foi realizado por Salles (2008). De acordo com os dados da pesquisadora foram encontrado cursos, disciplinas eletivas e até uma residência médica, em colegiados como: Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Faculdade de Medicina de Jundiaí, Faculdade de Ciências Médicas da PUC de Campinas, Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Amazonas, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

            A história da homeopatia no Brasil ganha destaque com a obra de Luz (1996), que oferece ao leitor um olhar sobre o percurso da homeopatia que é dividida em seis etapas: a etapa inicial denominada período de implantação (1840-1859); o período de expansão (1860-1882); seguido de um período de resistência (1882-1900); o período de maior êxito com a oficialização e equiparação da medicina homeopática à medicina alopática denominado de período áureo (1900-1930); seguido de um período de declínio acadêmico da homeopatia (1930-1970); e, finalmente, um período em que a homeopatia ressurge como uma técnica alternativa chamado de retomada social da homeopatia (1970-1990).

            E para finalizar, vale destacar as observações de Teixeira (2007) para o fato de que o tratamento homeopático não deve ocorrer a partir de uma suspensão imediata do tratamento alopático e não pode atuar de forma indistinta e independente desta, pois o processo terapêutico daquela nem sempre é imediato e exige consultas e avaliações periódicas. É um processo que pode levar dias ou meses (nos casos crônicos), exigindo do médico uma conduta que o impeça de suspender imediatamente o medicamento em uso pelo paciente.

as limitações existentes na homeopatia, no médico homeopata e no paciente exigem um tempo mínimo para que o ajuste satisfatório do medicamento e suas potências ocorram, fazendo do tratamento homeopático uma técnica empírica, na qual os resultados somente serão observados a posteriori da administração da terapêutica (TEIXEIRA, 2007b, p. 375).

            Nos casos em que o diagnóstico não seja rápido, pode acontecer do paciente necessitar de drogas alopáticas para a manutenção de suas funções vitais e imprescindíveis à manutenção do equilíbrio orgânico. Não se pode aceitar

a suspensão imediata de hipotensores em pacientes hipertensos graves, da insulina em diabéticos tipo 1, de anticoagulantes em cardiopatas severos, de broncodilatadores em asmáticos graves, etc., sem que tenhamos total segurança da atuação substitutiva do medicamento homeopático prescrito (TEIXEIRA, 2007b, p. 375)

            O que pode provocar um possível agravamento da doença ou causar efeitos graves e até fatais.

Homeopatia é coisa séria! Não pode ser encarada como um deslumbre de médicos “alternativos” que desprezam a integridade de seus pacientes por acreditarem num “poder absoluto e imediato” de qualquer substância homeopática prescrita, desprezando, na maioria das vezes, o critério da individualização medicamentosa, fundamental para o sucesso da terapêutica homeopática (TEIXEIRA, 2007b, p. 375).

 

Referências

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1982.

CORRÊA, A. D.; SIQUEIRA-BATISTA, R.; QUINTAS, L. E. M. Similia Similibus Curentur: notação histórica da medicina Homeopática. Revista da Associação Médica Brasileira, 43(4): 347-351, 1997. Acesso em 22/10/2017

ESPÍRITO SANTO. Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. GRA / Núcleo de Normalização Coordenação de Práticas Integrativas e Complementares. Políticas de Práticas Integrativas e Complementares do Estado do Espírito Santo: Homeopatia, Fitoterapia/Plantas Medicinais, e Medicina Tradicional Chinesa/Acupuntura. Vitória, 2013.

GUARULHOS. Secretaria de Saúde. Política Municipal de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. Guarulhos-SP, 2014.

HAHNEMANN, S. Organon da arte de curar. 2. ed. Tradução de: Organon der Heilkunst. Ribeirão Preto: Museu de Homeopatia Abrahão Brickmann, 1995.

LUZ, Madel T. Arte de Curar versus A Ciências das Doenças: História Social da Homeopatia no Brasil. São Paulo: Dynamis Editorial, 1996.

MONTEIRO, Dalva de A.; IRIART, Jorge A. B. Homeopatia no Sistema Único de Saúde: representações dos usuários sobre o tratamento homeopático. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, vol. 23, n. 8, p. 1903-1912, ago, 2007. Acesso em 23/09/2017.

SALLES, Sandra A. C. A Presença da Homeopatia nas Faculdades de Medicina Brasileiras: Resultados de uma Investigação Exploratória. Revista Brasileira de Educação Médica, vol. 32, n. 3, p. 283-290, 2008. Acesso em 23/09/2017

SIEGEL, Pamela. Yoga e Saúde: o desafio da introdução de uma prática não-convencional no SUS. Tese [Doutorado em Saúde Coletiva]. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2010. Acessado em 15/02/2016.

TEIXEIRA, Marcus Z. Homeopatia: prática médica humanística. Revista da Associação Médica Brasileira, vol. 53, n. 6, 547-549, 2007. Acesso em 22/09/2017.

____. Homeopatia: prática médica coadjuvante. Revista da Associação Médica Brasileira, vol. 53, n. 4, 374-376, jul./ago. 2007b. Acesso em 22/09/2017.

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