Interpretação pedagógica de A Alegoria da Caverna

texto publicado com a colaboração de

Cláudia Marques Xavier

Hivila de Oliveira da Silva

acadêmicas de Serviço Social da UFAM

postado em abr. 2016

 

            A República, obra do filósofo Platão onde se pode ler a famosa Alegoria da Caverna, “[...] contém em suas páginas o que se poderia chamar de projeto político-educativo, pois toda a argumentação ali posta recai fundamentalmente sobre duas questões: a política na pólis e a educação do cidadão” (MENESCAL, 2009, p. 65). Além disso, através desta alegoria, Platão narra o “[...] processo de ascensão da alma submetida à educação [...] descrito por Platão como um elevar-se para além das experiências sensíveis, e ele o representa através da célebre alegoria da caverna, apresentada no livro VII” (LAZARINI, 2007, p. 41).

            A estreita relação entre o projeto educativo e o projeto político de Platão é ressaltada por vários autores, como Tiago Lara (1989), Antônio Soares (1995) e Pierre Hadot (2008), quando este destaca a possibilidade de transformar a vida na polis através da educação filosófica de homens sábios e justos.

 

A filosofia é filha da polis, sendo assim, a Filosofia é Política, de modo que é impossível a separação dessas duas instâncias. Mas não basta somente o envolvimento nas e com as questões características da vida na polis, antes, é necessário submeter-se a um gradativo e sistemático processo de aprofundamento, o qual não é outro senão o da Educação (RIBEIRO, 2005, p. 83).

 

            Ao elaborar sua uma doutrina política, onde somente os filósofos eternos amantes da verdade, teriam condições de se libertar da caverna, das ilusões dos sentidos e caminhar em busca da sabedoria, Platão imagina uma sociedade ideal, onde seria governada por reis-filósofos, onde essas pessoas teriam todo conhecimento de uma sociedade do bem, pois, aquele que pela contemplação das ideias, conheceu a essência do bem e da justiça deve comandar a cidade. E Platão entende que a educação tem um papel fundamental nesse processo.

 

Em relação ao projeto educativo do rei-filósofo, significa que esse dirigente, na qualidade de governante da pólis, precisa superar o mundo sensível, logo, superar as aparências, as crenças, a ignorância, a irracionalidade, enfim, o mundo das opiniões, tendo em vista atingir o mundo inteligível (OLIVEIRA, 2015, p. 200).

 

            Com efeito, o processo de saída da caverna da ilusão do mundo sensível para o mundo inteligível corresponde a todo um processo pedagógico e de aprendizado e que não está livre de obstáculos: no momento em que ele sai da caverna e se depara com a luz do sol, ele fica temporariamente cego e impedido de ver os objetos do mundo inteligível tal como de fato são. Mas sua condição já não é a dos presos acorrentados, que não viam senão sombras do mundo real. O filósofo sai da caverna e conhece a realidade do mundo inteligível. Descobre que vivia acorrentado em sua própria ignorância, em um mundo de ilusões, que era falso e que existe outra realidade além daquela escuridão.

            A alegoria da caverna é uma metáfora em que Platão vai justificar a necessidade da educação na criação de um novo cidadão, com o qual será possível construir um mundo melhor e mais justo e de como a educação deve ser um processo para aquisição de novos conhecimentos.

 

Platão, ao propor um novo modelo educativo na República, objetiva tirar pessoas da caverna da ignorância. Procura fazê-las ascender o verdadeiro conhecimento, para que não vivam na escuridão, não vivam sob a falsa impressão do saber, por entender que as aparências dos objetos, ou seja, a cópia da cópia dos mesmos, não passam de imitação(Rep.392d) do verdadeiro conhecimento (RODRIGUES, 2007, p. 51-52).

 

            A alegoria da caverna retrata a ideia de que os aspirantes à sabedoria devem descobrir as coisas superando os problemas impostos pela vida.  E a educação funciona como forma de desenvolver o homem moral, que deve dedicar todos os seus esforços para o seu desenvolvimento intelectual, físico, moral e espiritual. A caverna de Platão, uma das mais fascinantes e assustadoras metáforas do pensamento ocidental, retrata de forma alegórica o processo educacional de libertação que todos os indivíduos, homens e mulheres, devem empreender ao longo de sua existência.

            Platão interliga a Alegoria da Caverna com a Educação. O principal objetivo é a busca do conhecimento das Ideias perfeitas, eternas e imutáveis que correspondem a realidade verdadeira, e compreendê-las é alcançar o máximo de conhecimento. Simplificando, podemos dizer que aquele que alcança o conhecimento do bem o conhecimento verdadeiro, torna-se melhor e vive mais feliz.

            Mas esse processo é lento e doloroso em que os indivíduos vão se expondo aos obstáculos da vida em busca da verdade. Com efeito,

 

A educação platônica é uma educação comprometida com o ensino da verdade. Todo o sistema educacional de Platão está edificado sobre a noção fundamental da verdade, sobre a conquista da verdade pela ciência racional. É a posse da verdade que definirá, segundo Platão, o verdadeiro orador, o verdadeiro médico, o verdadeiro político, bem como o verdadeiro filósofo. Conforme assinalou MARROU (1990:111): “Qualquer que seja o campo da atividade humana para qual alguém se oriente, não há mais que uma alta cultura válida: a que aspira à verdade, à possessão da verdadeira ciência.” (RIBEIRO, 2005, p. 83-84).

 

            E nesse processo o primeiro passo é o reconhecimento da natureza incompleta deste mundo de ilusões. No contexto das suas limitações iniciais os prisioneiros tinham uma forma de olhar para o mundo e, pelo menos para eles, esta forma de ver a realidade fazia sentido. Mas pouco a pouco, e na medida em que são libertados e levados a ver o mundo fora da caverna, com mais luz e com outra luz, vão percebendo que esta nova forma de ver tem ainda mais sentido. Tornam-se então seres mais conscientes do mundo que os rodeia.

            E o que dizer do indivíduo que se liberta da caverna, contempla a verdadeira realidade e sente o impulso de voltar a caverna para ajudar os seus amigos que lá permaneceram presos? Não seriam estes os grandes espíritos iluminados que tem em comum o objetivo de educar os povos levando-os a ver e conhecer a verdade, como era o caso de Sócrates? Não seriam também todos aqueles que, após assumir a função de pedagogos, ajudam seus alunos a despertar o seu conhecimento para uma realidade maior e mais ampla? Ademais,

 

Da filosofia à ação política, a educação do filósofo na cidade ideal implica, portanto, uma dupla atitude: um ato de elevação (sair da caverna) – alçar-se à contemplação do bem e um ato de regressão (voltar à habitação subterrânea) – saber como proceder em meio aos cidadãos (LAZARINI, 2007, p. 46).

 

            De qualquer modo, trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona e através da luz da verdade atingir novas formas de conhecimento. E nesse caso a Alegoria da Caverna traz implícita também toda uma teoria do conhecimento e da educação ligada a formação do Estado ideal. Mas o que é a educação sem a teoria do conhecimento? Para saber o que ensinar, é preciso saber como aprender. E antes de perguntar o que devemos ensinar, devemos saber qual o melhor processo de aprendizagem que a educação pode nos oferecer para se atingir níveis mais elevados de conhecimento.

            Nesse sentido a paideia platônica está diretamente relacionada com os diferentes níveis e estágios do conhecimento  que para Platão são em número de quatro divididos dois a dois: os dois primeiros pertencentes ao mundo sensível e os dois últimos, ao mundo das Ideias.

          No mundo sensível o primeiro estágio é preenchido por imagens, sombras e reflexos correspondendo ao nível de conhecimento da opinião e da suposição (ou senso comum se assim o quisermos). O segundo estágio em um nível mais elaborado, mais “científico”, mas onde prevalece ainda a crença e a opinião.

          No mundo das Ideias o terceiro estágio é ocupado por objetos matemáticos, correspondendo a uma transição do conhecimento sensível ao conhecimento inteligível. E o último estágio, finalmente, pertence às Ideias, e o conhecimento não sofre qualquer interferência dos sentidos, verificando-se apenas pela via da intelecção.

            Vemos assim que os prisioneiros da caverna são, na verdade, uma clara alusão de Platão à condição humana, pois os homens encontram-se absorvidos por suas crenças e opiniões mas, muito longe do verdadeiro conhecimento e da sabedoria. E aquele que se libertou dos sentidos e alcançou o conhecimento absoluto é a concretização da excelência humana, o homem em sua areté.

            E aqui a Alegoria da Caverna converge com um outro Mito: o Mito da Linha Dividida. Na realidade a Alegoria da Caverna é que surge como uma forma simplificada de explicar este outro Mito em que Platão apresenta de forma mais detalhada e aprofundada sua teoria do conhecimento, dividindo o conhecimento a partir de quatro modos de relação com a realidade (sensível e inteligível): para conhecer em detalhes o Mito da Linha Dividida acesse o link: Mito da Linha Dividida. Com efeito, ao terminar a explicação sobre os diferentes níveis de conhecimento usando como imagem a “linha dividida” e para tornar ainda mais claro e compreensível o entendimento de seus interlocutores é que Sócrates irá propor no diálogo a imagem do Mito da Caverna que se inicia no Livro VII de A República.

            A Alegoria da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância, isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que busca as respostas para as grandes questões que afligem a condição humana.

 

 

Referências Bibliográficas

 

HADOT, Pierre. O que é a Filosofia Antiga? Tradução: Dion Davi Macedo. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

LARA, Tiago Adão. Caminhos da razão no Ocidente: a filosofia nas suas origens gregas. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1989. (Coleção Caminhos da Razão)

LAZARINI, Ana Lúcia. Platão e a educação: um estudo do Livro VII de A República. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Estadual de Campinas. Campinas-SP, 2007. Acessado em 24/03/2016.

MARROU, Henri Irénée. História da educação na antiguidade. São Paulo: EPU, 1990.

MENESCAL, Ana Alice M. A idéia de justiça e a formação da cidade ideal na República de Platão. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Departamento de Filosofia. Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2009.

OLIVEIRA, José Silvio de. A paideia grega. A formação omnilateral em Platão e Aristóteles. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de São Carlos. São Carlos-SP, 2015. Acessado em 24/03/2016.

RIBEIRO, Djalma. Conhecimento, amor e educação em Platão. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Católica de Goiás. Goiânia, 2005. Acessado em 24/03/2016.

RODRIGUES, Elza Maria. Um breve estudo sobre a educação na República de Platão. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Estadual de Campinas. Campinas-SP, 2007. Acessado em 24/03/2016.

SOARES, Antônio Jorge. O papel da educação no pensamento político de Platão. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Estadual de Campinas. Campinas-SP, 1995. Acessado em 24/03/2016.

 

 

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