Trechos onde se encontra referência sobre os povos da América nas obras de Hobbes, Locke e Rousseau

Trechos onde se encontra referência sobre os povos da América nas obras de Hobbes, Locke e Rousseau

Trechos onde se encontra referência sobre os povos da América nas obras: O Leviatã (Thomas Hobbes), Segundo Tratado sobre o Governo Civil (John Locke) e Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (J. J. Rousseau)

 

Leviatã – Thomas Hobbes

 

Os escudos e brasões hereditários, quando acompanhados de qualquer privilégio eminente, são honrosos. Caso contrário não o são, porque seu poder consiste nesses mesmos privilégios, ou em riquezas, ou outras coisas semelhantes que são igualmente honradas pelos outros homens. Esta espécie de honra, geralmente chamada nobreza, proveio dos antigos germanos. Pois jamais se conheceu tal coisa nos lugares onde se desconheciam os costumes germanos, nem hoje estão em uso nos lugares que os germanos não habitaram [...] Entre os povos da Ásia, África e América não há, nem jamais houve tal coisa. Só os germanos tinham esse costume, e foi daí que ele passou para a Inglaterra, França, Espanha e Itália, onde eles em grande número ajudaram os romanos, ou fizeram suas próprias conquistas nessas regiões ocidentais do globo (1983, p. 36 – Capítulo X – Do poder, valor, dignidade, honra e merecimento).

 

Poderá porventura pensar-se que nunca existiu um tal tempo, nem uma condição de guerra como esta, e acredito que jamais tenha sido geralmente assim, no mundo inteiro; mas há muitos lugares onde atualmente se vive assim. Porque os povos selvagens de muitos lugares da América, com exceção do governo de pequenas famílias, cuja concórdia depende da concupiscência natural, não possuem qualquer espécie de governo, e vivem em nossos dias daquela maneira embrutecida que acima referi. Seja como for, é fácil conceber qual seria o gênero de vida quando não havia poder comum a recear, através do gênero de vida em que os homens que anteriormente viveram sob um governo pacífico costumam deixar-se cair, numa guerra civil (1983, p. 47 – Capítulo XIII – Da condição natural da humanidade relativamente à sua felicidade e miséria).

 

[...] há aqueles que sustentam não existirem fundamentos nem princípios racionais que apóiem aqueles direitos essenciais que tornam absoluta a soberania. Porque se existissem, teriam sido descobertos em algum lugar, ao passo que vemos que até agora ainda não existiu nenhum Estado em que esses direitos tivessem sido reconhecidos ou discutidos. No que argumentam tão mal quanto os selvagens da América [...] Mas supondo que estes meus princípios não sejam princípios racionais, tenho contudo a certeza de que são princípios tirados da autoridade das Escrituras, como mostrarei quando falar do reino de Deus (administrado por Moisés) sobre os judeus, seu povo dileto por meio de um pacto (1983, p. 112-113 – Cap. XXIX – Do cargo do soberano representante).

 

Segundo Tratado sobre o Governo Civil – John Locke

 

37. [...] Porque eu gostaria que me respondessem se, nas florestas selvagens e nas terras incultas da América, abandonadas à natureza sem qualquer aproveitamento, agricultura ou criação, mil acres de terra forneceriam a seus habitantes miseráveis uma colheita tão abundante de produtos necessários à vida quanto dez acres de terra igualmente fértil o fazem em Devonshire, onde são bem cultivadas? (1994, p. 104).

 

49. Assim, no início, toda a terra era uma América, e mais ainda que hoje, pois em parte alguma se conhecia o dinheiro (1994, p. 111).

 

102. [...] E a se acreditar nas palavras de José Acosta, ele nos diz que em muitas partes da América não havia qualquer governo. “Há manifestamente grandes razões para se supor que esses homens”, diz ele referindo-se aos habitantes do Peru, “durante muito tempo não tiveram nem reis nem comunidades civis, mas viviam em bandos, como atualmente os habitantes da Flórida, os Cheriquanas, os povos do Brasil e de muitas outras nações, mas quando a ocasião lhes surgiu na paz ou na guerra, escolheram seus capitães como melhor lhes pareceu” (1994, p. 142).

 

105. [...] não há dúvida que usavam sua liberdade natural para escolher aquele que lhes parecia mais capaz e mais apto a governá-los bem. Assim encontramos os povos da América, que (vivendo fora do alcance das guerras de conquista e da dominação invasora dos dois grandes impérios do Peru e do México) desfrutavam de sua liberdade natural (1994, p. 144).

 

Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens – J. J. Rousseau

 

[...] os órgãos que não se aperfeiçoam senão pela moleza e a sensualidade devem ficar em um estado de grosseria que exclui em si toda espécie de delicadeza; e como os sentidos participam disso, terá o tato e o gosto extremamente rudes, a vista, o ouvido e o olfato mais sensíveis. Tal é ,o estado animal em geral, e é também, segundo as narrativas dos viajantes, o estado da maior parte dos povos selvagens. Assim, não é de admirar que os hotentotes do Cabo da Boa Esperança descubram a olho nu navios em alto mar de tão longe quanto os holandeses com binóculos; nem que os selvagens da América sintam os espanhóis na sua pista como o sentiriam os melhores cães; nem que todas essas nações bárbaras suportem facilmente a nudez, agucem seu gosto à força de pimenta e bebam licores europeus como água (1999, p. 172).

 

A metalurgia e a agricultura foram as duas artes cuja invenção produziu essa grande revolução. Para o poeta, foram o ouro e a prata; mas, para o filósofo, foram o ferro e o trigo que civilizaram os homens e perderam o gênero humano. Tanto um como o outro eram desconhecidos dos selvagens da América, os quais, por isso, sempre ficaram como tais; os outros povos parece mesmo que continuaram bárbaros enquanto praticaram uma dessas artes sem a outra (1999, p. 213-214).

 

O padre Du Tertre diz, sobre os selvagens das Antilhas, mais ou menos as mesmas coisas que se acabam de ler sobre os hotentotes do Cabo da Boa Esperança. Exalta, sobretudo, a sua precisão em atirar com suas flechas em pássaros voando e em peixes na água, que agarram, em seguida, mergulhando. Os selvagens da América setentrional não são menos célebres pela força e destreza, e eis um exemplo que poderá servir para avaliar a dos índios da América meridional (1999, p. 300 – nota “d”).

 

Os acadêmicos que percorreram as partes setentrionais da Europa e meridionais da América tinham por objeto visitá-las mais como geômetras do que como filósofos. Entretanto, como ao mesmo tempo eram uma coisa e outra, não se podem olhar como absolutamente desconhecidas as regiões que foram vistas e descritas pelos La Condamine e os Maupertuis [...] Suponhamos um Montesquieu, um Buffon, um Diderot, um Duclos, um d'Alembert, um Condillac, ou homens dessa têmpera viajando para instruir seus compatriotas, observando e descrevendo, como sabem fazer [...] o México, o Peru, o Chile, as terras magelânicas, sem esquecer os patagões verdadeiros ou falsos, o Tucumã, o Paraguai, se possível, o Brasil; enfim, os caraibas, a Flórida, e todas as regiões selvagens (1999, p. 315-316 – nota “h”).

 

Muitas vezes, têm-se trazido selvagens a Paris, a Londres e a outras cidades, e tido pressa em lhes expor o nosso luxo, as nossas riquezas e todas as nossas artes mais úteis e mais curiosas: tudo isso lhes despertou uma admiração estúpida, sem o menor movimento de cobiça. Lembro-me, entre outras, da história de um chefe de alguns americanos setentrionais levados à corte da Inglaterra, há uns trinta anos: fizeram-lhe passar milhares de coisas diante dos olhos, para lhe fazerem presente do que lhe pudesse agradar, sem que se achasse nada que parecesse impressioná-lo. Nossas armas lhe pareciam pesadas e incômodas, nossos sapatos lhe feriam os pés, nossas roupas o incomodavam, e tudo ele recusava. Finalmente, percebeu-se que, tendo tomado um cobertor de lã, parecia sentir prazer em envolver com ele os ombros (1999, p. 324-325 – nota “n”).


 

Referências Bibliográficas

 

HOBBES, Thomas. Leviatã. Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).

LOCKE, John. Segundo Tratado Sobre o Governo Civil: ensaio sobre a origem, os limites e os fins verdadeiros do governo civil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. (Coleção Clássicos do Pensamento Político).

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.


Filosofia PolíticaFilosofia Política ModernaOs Contratualistas → Trechos onde se encontra referência sobre os povos da América nas obras de Hobbes, Locke e Rousseau