Literatura de Cordel e Política

Literatura de Cordel e Política

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em nov. 2015

 

            O que pensam e dizem os poetas populares sobre o cotidiano da Política e os rumos da sociedade? A literatura de cordel sempre teve como objeto de sua produção, entre outras coisas, a descrição de acontecimentos sociais ou críticas aos (des)caminhos da sociedade e seus governantes. Trata-se de poesia popular escrita quase sempre em versos de sextilhas (estrofes de seis versos) ou septilhas (estrofes de sete versos) e a maioria desses rapsodos do povo é de personagens sertanejas, iletrados, semialfabetizados e, com efeito, a política tem sido um manancial de inspiração para estes poetas populares em todas as suas nuances. De origem europeia, foi principalmente na região nordeste do Brasil que a literatura de cordel veio a florescer e se desenvolver (ALVES, 2001; LUYTEN, 2007; ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012), tratando de temas os mais variados como as secas periódicas, a fome, os bandos de cangaceiros, a organização da sociedade patriarcal, casos de raptos de moças, crendices, religião, servindo, inclusive, como fonte de acesso à informação para o povo do sertão nordestino (DIÉGUES JÚNIOR, 1973; ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012). “Nada é estranho à literatura de cordel” (BRANDÃO, 1991, p. 05). Originário dos romanceiros da França e da Península Ibérica, a literatura de cordel recebeu este nome porque em Portugal os folhetos ficavam expostos para a venda em barbantes ou “cordões” (ÂNGELO, 1996; PAGLIUCA et. al., 2007). No Brasil a “porta de entrada” da literatura de cordel foi pelo nordeste: “[o nordeste] revelou ser terreno fértil para o desenvolvimento dessa arte nascida da aridez, crescida na carência e que viceja na adversidade” (VASQUEZ, 2008, p. 12 apud ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012, p. 11).

 

A Literatura de Cordel faz parte do romanceiro popular do Nordeste e teve sua origem nos romances portugueses em versos, os quais surgiram em sua expressão oral, sendo depois passados para a escrita. Foi nessa região, local de menor letramento e de acesso mais difícil à imprensa, que o Cordel, essas narrativas em versos impressas em papel simples e penduradas num barbante, conhecido como cordel, encontrou terreno mais fértil para se propagar (GALVÃO, 2001 apud ALVES, 2008, p. 104).

 

            A literatura de cordel surge como uma possibilidade de debate sobre a realidade social, política e até mesmo econômica. Uma diversidade de assuntos abordados a partir de uma linguagem poética e literária: “[...] não é apenas ao imaginário que os cordelistas emprestam seus versos. Entre o conteúdo informacional dos folhetos estão assuntos ligados à política, educação, história, problemas sociais e de ordem pública e temas ligados à saúde e medicina preventiva” (ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012, p. 04). E através deste contato com a literatura de cordel é possível refletir de forma crítica sobre a realidade, fazendo-nos perceber nossa posição no mundo e dos diversos contextos sociais. Roberta Alves, destacando o papel que a literatura de cordel pode ter no contexto escolar afirma:

 

A Literatura de Cordel pode perfeitamente contribuir para uma educação voltada para a realidade, na medida em que apresenta ao aluno uma visão de mundo, que pode se assemelhar ou não à sua, mas que suscita variados questionamentos que podem levar o aluno a refletir sobre a sua posição social, política, econômica e cultural dentro do contexto em que vive, assim como sobre a posição do outro nesse mesmo contexto (2008, p. 108).

 

            E esta é a ideia a qual acreditamos poder dar destaque, que é o tema central deste website. Como as diferentes formas de conhecimento estão diretamente relacionadas com a política e, neste caso específico, como a literatura de cordel pode nos levar a perceber o mundo de forma crítica, estimulando a intervenção na realidade, a fim de transformá-la para melhor. Maria Silvia Louzada e Roberto Louzada (2012) fazem uma análise deste gênero a partir da análise de três cordéis nordestinos, mais precisamente de autores paraibanos[i]: A Palavra “Mensalão” escrito em 2005 por Vicente Campos Filho; Salário mínimo é do povo o máximo é do deputado, escrito e ilustrado por Vicente Campos Filho em 2006; e Esculhambação no Inferno nesta última eleição, escrito por João Bosco Dias em 2007. Maria Silva e Roberto Louzada examinam os modos como a literatura de cordel analisam e dão significado ao sentido de “ser político”, abordando acontecimentos políticos recentes, como no caso do primeiro cordel; fazendo uma sátira à situação social e política contemporânea brasileira no caso do segundo cordel; ou recriando episódios sociais e políticos brasileiros como no último cordel. Vejamos um trecho do primeiro cordel examinado:

 

Mensalão tem oito letras

Tem “M” de malfeitores

E a segunda letra é “E”

Da palavra enganadores

Tem o “N” de nojentos

S” de sanguinolentos

Feito bichos predadores.

 

Imaginem que o resto

Só pode ser de ladrão

Que começa com o “L”

E é terminado com “ão”

Larápio também tem “L

E o “ão” também está na pele

Da palavra canastrão.

 

 

 

            O terceiro e último cordel analisado é uma recriação literária, onde “seres humanos, animais excepcionais, monstros e seres fantásticos parecem habitar o imaginário dos autores e dos povos” (id., ibidem, p. 11). Nesta recriação o pleito eleitoral se passa no inferno, que surge como uma metáfora de um país mergulhado na corrupção não apenas no poder executivo ou legislativo, mas o próprio poder judiciário, vendendo sentenças para favorecer políticos, bandidos e quadrilhas.

 

*    *    *    *    *

 

            Embora seja conhecido mais como poeta (e um dos maiores poetas populares do Brasil) do que como cordelista, Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva), chamado por alguns de “Homero sertanejo” (em comparação ao poeta rapsodo grego), escreveu alguns poucos cordéis dos quais um deles se chama: Glosas Contra o Comunismo (e foge a regra geral da estrutura dos cordéis de sextilhas). Além deste cordel, sua poesia também tem algo intencional, de mostrar a realidade do homem sertanejo: “É um sertão de poesia [...] Percebemos que é esse o sentido maior da poesia de Patativa, uma poesia feita para todos, uma voz que vibra em nome do outro, numa linguagem que caracteriza o sertão” (PINHEIRO, 2006, p. 07). Como nosso objetivo aqui não é analisar tanto a poesia, mas especificamente a literatura de cordel, vamos expor alguns versos apenas de Glosas Contra o Comunismo.

 

MOTE

O comunismo fatal

Não queremos no Brasil

 

GLOSAS

Será muito natural

nossa pátria entrar em guerra

ao chegar em nossa terra

o comunismo fatal;

do sertão à capital

nosso povo varonil

há de pegar no fuzil

em defesa da nação:

que esta cruel sujeição

não queremos no Brasil

(ASSARÉ, 1999, p.27 apud PINHEIRO, 2006, p. 32; SILVA, 2006).

 

NOTA

Para ter acesso ao texto completo veja o link: Patativa do Assaré - Cordeis e outros Poemas

 

            Vemos assim como é possível fazer uma abordagem da Literatura de Cordel dando destaque através da cultura popular não apenas a aspectos referentes à identidade da cultura nordestina, mas a realidade política e social de todo um povo. Eis mais um exemplo de crítica política através da literatura de cordel:

 

PERFIL DO POLÍTICO BRASILEIRO

Autor: Varneci Nascimento

 

Ser enganador, mentir
Enrolar, ser trambiqueiro
Gostar de fazer promessa
Não pagar, ser trapaceiro
Eis os requisitos básicos
Do político brasileiro.

Fazer tudo por dinheiro
Detestar pessoa séria
Não importar se o povo
Tá morrendo na miséria
Quando escutar falar dela
Achar que isso é pilhéria.

Se a fome deletéria
Castiga um desempregado
Ao saber dessa noticia
Fingir-se penalizado
Porém, quando for comer
Não lembrar do esfomeado.

 

            De acordo com o autor, este cordel foi escrito em 2006, no contexto eleitoral e “[...] após tantos escândalos resolvi editá-lo, falando aos eleitores a respeito do perfil do político do Brasil, que, aliás, não é o mais desejável para nenhum país com o mínimo de seriedade”

 

NOTA

Para ter acesso ao Texto completo acesse: BLOG DO AUTOR

 

            E o que dizer da iniciativa de introduzir obras filosóficas na linguagem popular, o chamado “Cordel Filosófico”? É possível fazer uma análise de obras como: A Política de Aristóteles, O Leviatã de Thomas Hobbes, O Espirito das Leis de Montesquieu, O Contrato Social de Rousseau e o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels usando a literatura de cordel?

            Qualquer que seja a resposta a esta pergunta, o fato é que a literatura de cordel lida com o contexto cultural, político e social. Utiliza costumes e linguagens de um povo. E renunciar a esta análise de um ponto de vista digamos assim, mais filosófico, é renunciar a uma das formas mais populares de expressão da linguagem e da cultura popular.

 

FILOSOFIA EM CORDEL


Por Rosa Regis


Folheto 1

Nos disse o mestre dos mestres

do pensar, que foi Platão,

que as coisas só iam entrar

nos eixos neste mundão

quando este fosse mandado,

dirigido, governado,

por filósofos. E então?!...

...
Século VI antes de Cristo

na Grécia continental

as cidades-estado tinham

algo de especial

eram centros que cresciam

no setor comercial.

 

[...]

 

OS SOFISTAS(Grandes mudanças)


Enquanto que para os gregos

o interesse maior era

a unidade e a diferença,

o Universo... quem dera!

As grandes questões, agora?!

Isso era apenas quimera.

 

[...]

 

E assim sendo, os problemas,

fatalmente, vêm a tona.

Atenas, de incutidores

de maus costumes, os toma.

Sendo o cinismo um deles.

E os sofistas vão à lona.

[...]

 

NOTA

Para ter acesso ao Texto completo acesse: BLOG DA AUTORA RosadoCordel

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

ALVES, Roberta Monteiro. Literatura de cordel: Por que e para que trabalhar em sala de aula. Revista Fórum Identidades, Ano 2, Volume 4 – p. 103-109 – jul-dez de 2008. Acessado em 17/10/2015.

ÂNGELO, Assis. As origens do cordel. In: ____. Presença dos cordelistas e cantadores repentistas em São Paulo. São Paulo: IBRASA, 1996.

ASSARÉ, Patativa do. Cordéis. Fortaleza: UFC, 1999.

ASSIS, Regiane Alves de; TENÓRIO, Carolina Martins; CALLEGARO, Tânia. Literatura de cordel como fonte de informação. CRB-8 Digital, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 3-21, jan. 2012. Acessado em 20/10/2015.

BRANDÃO, Adelino. Crime e castigo no cordel: (crime e pena no folheto de cordel e no romanceiro folclórico do Brasil). Rio de Janeiro: Presença, 1991.

DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. A Literatura de Cordel no Nordeste. In: Literatura Popular em verso, 2 vol., Rio de Janeiro: Mec/Fundação Casa de Rui Barbosa, 1973.

GALVÃO, Ana Maria de O. Cordel: leitores e ouvintes. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

LOUZADA, Maria Silvia O.; LOUZADA, Roberto. Identidade política, literatura de cordel e interdiscurso. CASA,Cadernos de Semiótica Aplicada, Vol. 10.n.1, p. 1-16, julho de 2012. Acessado em 17/10/2015.

LUYTEN, Joseph M. O que é literatura de cordel. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Coleção Primeiros Passos; 317).

PAGLIUCA, Lorita Marlena Freitag [et al]. Literatura de cordel: veículo de comunicação e educação em saúde. Texto & Contexto Enfermagem, Florianópolis, v. 16, n. 4, p. 662-670, out./dez. 2007. Acesso em: 20/10/2015.

PINHEIRO, Maria do Socorro. A criação poética de Patativa do Assaré. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira). Programa de Pós-Graduação em Letras. Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2006. Acessado em 20/10/2015.

SILVA, Antônio Gonçalves da. Glosas sobre o comunismo. In: CARVALHO, Gilmar de. Cordéis e outros poemas: Patativa do Assaré. Fortaleza, 2006, p. 106-111.

 



[i] O Estado da Paraíba é uma referência quando se fala em literatura de cordel.  Em Campina Grande fica localizado o MAAP (Museu de Arte Popular da Paraíba): um espaço criado para preservar e difundir a cultura popular paraibana, com ênfase na sua musicalidade, artes manuais, literatura de cordel, xilogravura, cantorias etc.

 

O MAAP foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e também é conhecido como “museu dos pandeiros”, devido à forma circular que caracteriza cada uma de suas três salas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte e PolíticaLiteratura e Política → Literatura de Cordel e Política