Literatura Engajada

Literatura Engajada

por Alexsandro M. Medeiros

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            O conceito de literatura engajada tem sido alvo de debate e discussão no meio acadêmico, filosófico e literário e questiona-se inclusive o fato de se devemos considerar a literatura engajada como um “gênero literário”. Não é nossa intenção entrar neste debate e nesta discussão, entretanto, acreditamos poder considerar que a literatura também pode trazer a tona reflexões sobre temas sociais. Se partirmos do princípio de que a existência humana só pode ser pensada em sociedade então é natural que essa relação possa ser pensada também a partir de uma prática literária conhecida como literatura engajada. Essa relação entre literatura e engajamento foi inclusive tema do livro de Benoît Denis: Littérature et engagement – de Pascal à Sartre. E aqui tomamos o conceito de engajamento literário tal como entende Denis: “literatura engajada seria a escrita de um autor que ‘faz política nos seus livros’” (2002, p. 09)[1]; e do filósofo do existencialismo francês Jean-Paul Sartre[2]: “Falar é agir [...] a cada palavra que digo, engajo-me um pouco mais no mundo e, ao mesmo tempo, passo a emergir dele um pouco mais, já que o ultrapasso na direção do porvir [...] O escritor deve engajar-se inteiramente nas suas obras” (2004, p. 20 e 29)[3].

            Há escritores que escolhem “engajar-se” através de suas obras e escritos a partir dos quais expressam, entre outras coisas, o embate entre a arte e o realismo político. O engajamento implica numa reflexão do escritor sobre as relações que trava a literatura com a política e com a sociedade em geral. Esses escritores percebem que a sensibilidade estética pode se tornar um instrumento que convida o leitor a se entregar em um mundo de reflexões e pensamentos sobre os principais problemas da sociedade: o mundo das guerras, da luta das minorias, das desigualdades sociais etc. Há, por assim dizer, um compromisso do escritor com a sociedade.

 

Ao situar Sartre como inscrito na tradição da literatura engajada francesa é de capital importância problematizar as conexões entre a atividade literária em si e o papel que uma sociedade, num determinado tempo e espaço, atribui ao literato e à literatura. Nessa interconexão, é possível entrever como a literatura vai se misturando com as demais dimensões de sua realidade histórica (TEODOSEO, 2011, p. 12 – grifo nosso).

 

            Para Sartre um escritor “dirige o leitor”. Quando ele descreve uma cena, qualquer que seja, pode mostrar nela o símbolo das injustiças sociais, da miséria, provocar nossas emoções, nossa indignação, cólera, ódio. “O escritor é um falador, designa, demonstra, ordena, recusa, interpela, suplica, insulta, persuade, insinua” (SARTRE, 2004, p. 18 – grifo do autor). Desse modo podemos afirmar que Sartre era um “falador”, pretendia “dirigir o seu leitor”, falando sobre seu tempo, como afirma Teodoseo:

 

Ao nos debruçarmos sobre a produção literária de Sartre, sabemos que sua intenção enquanto autor era a de engajar sua escrita. Os sentidos históricos que analisamos em suas obras decorrem de sua ótica e dos vestígios do seu próprio tempo. Desse modo, acreditamos que a literatura, a escrita, “fala” sobre o mundo, sobre a história e que o texto de Sartre falava sobre seu tempo (2011, p. 17).

 

            Sartre, representando uma linha da literatura engajada francesa, introduz temas e debates próprios de seu momento histórico imediato, como a Guerra Civil Espanhola[4] (1936-1939), as tensões entre o intelectual e o partido comunista francês, os dilemas vividos nos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)[5], debate dilemas éticos e Ideológicos, crítica aos valores burgueses[6]: “[...] vemos suas obras literárias como fragmentos de uma realidade específica [...] Concebemos sua literatura como uma interpretação de sua época, e um testemunho histórico” (TEODOSEO, 2011, p. 14)[7]. Em suas obras vemos prisioneiros de guerra capturados pelos fascistas espanhóis, que aguardam o fuzilamento; soldados convocados para lutar nos campos de batalha europeus; militantes comunistas; desertores. É visível na produção literária de Sartre questões relacionadas ao seu contexto histórico, cultural e intelectual, com elementos de interlocução entre Filosofia, Literatura e História, misturando constantemente o mundo real e o mundo ficcional, personagens literários e acontecimentos reais.

 

A partir destas questões consideramos que Sartre possuía a intenção, enquanto escritor, de referir-se aos problemas de seu tempo “na ordem do verossímil”, engajando sua escrita, levando em conta também que, apesar da linguagem possuir características (uma estrutura) próprias, ela sempre se relaciona com o mundo, e que, se há algo de ficcional na escrita literária de Sartre, isso não significa dizer que ela esteja completamente desligada de seu contexto histórico, ou seja, podemos encontrar traços de sua época nos textos sartreanos, pelo estatuto da verossimilhança (TEODOSEO, 2011, p. 18).

 

            Ao comprometer-se com os dilemas históricos de sua época Sartre enseja um sentido histórico à sua obra literária. O romance sartreano não visa apenas o estético, mas visa os homens à sua volta: pretende ir na direção da realidade concreta (a história em seu movimento, em suas tramas). “Sartre, então, não é somente uma testemunha da história, mas, um sujeito histórico no sentido estrito da palavra, ou seja, não apenas vivencia sua historicidade, mas tenta nela intervir pela literatura” (TEODOSEO, 2011, p. 79). Há uma quase que necessidade do filósofo em engajar-se na reflexão/intervenção dos problemas de seu tempo, seja como intelectual ou escritor. Um exemplo concreto desta ideia que estamos tentando passar encontra-se, por exemplo, em sua trilogia Les Chemins de la liberté (Os caminhos da Liberdade) composta pelos romances L'age de raison (A idade da razão) (1945), Le Sursis (Sursis) (1947) e Le mort dans l'âme (Com a morte na alma) (1949). Vejamos um pouco do primeiro romance da trilogia e da noção de engajamento no ensaio crítico de Sartre Que é a literatura?

 

O engajamento nas obras de Sartre: A Idade da Razão e Que é a literatura?

 

            Um dos personagens do romance A Idade da Razão é Mathieu, um professor de filosofia (que só não representa literalmente Sartre por não ser escritor) que encarna a problemática do intelectual ciente dos dilemas sociais, mas que fica no impasse de envolver-se ou não na Guerra Civil Espanhola, buscando razões para tal. No romance também aparece a necessidade de “escolha” do intelectual considerando a divisão do mundo pós guerra em dois grandes blocos antagônicos, base da guerra fria. Há um encontro de Mathieu com seu amigo Brunet (intelectual marxista convicto), que tenta integrar, sem sucesso, Mathieu nos quadros do partido comunista.

            Mathieu se indignava com os fatos que se sucediam na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) mas não encontrava em si qualquer motivação para engajar-se nesses conflitos, mesmo vendo que outros sujeitos iguais a ele estão sendo mortos em violentos conflitos. A Guerra Espanhola era um “problema doméstico” dos espanhóis e por isso não haveria motivo para engajar-se. A preocupação de Mathieu não é a guerra. Mas o que lá acontecia poderia acontecer (como aconteceu) na França: bombas poderiam cair sobre a rua onde Mathieu morava e, caso acontecesse, alguém estaria lendo sobre o fato, vendo, indiferente, sua fotografia, possivelmente decapitado, esfacelado no meio de uma rua através de um jornal[8]. É possível ser indiferente frente à história?

 

“Por que não tive vontade de lutar? Poderia escolher outro mundo? Sou ainda livre? Posso ir aonde quero, não encontro resistência, mas é pior, estou numa gaiola, sem grades, separado da Espanha por...Nada, e no entanto esse outro mundo é intransponível” Olhou a última página do Excelsior: fotografia do enviado especial. Corpos estendidos sobre a calçada, junto de um muro. No meio da rua uma mulher gorda, de costas, as saias repuxadas até as coxas. Sem cabeça. Mathieu dobrou o jornal e jogou-o na sarjeta. (SARTRE, 1986, p. 127 apud TEODOSEO, 2011, p. 97)

 

            Mathieu está entrando, ou recusando entrar, na Idade da Razão, momento no qual, por volta dos trinta, trinta e cinco anos, abandonamos nossos sonhos, projetos, por uma vida estável, contínua, sem rupturas e incertezas.

            Além destas reflexões sobre a guerra e do conflito do “intelectual versus partido comunista”, A Idade da Razão traz como pano de fundo a questão da liberdade humana como condição originária do sujeito, não apenas ao enfocar tais conflitos, mas também no que diz respeito à decisões pessoais e individuais, como por exemplo, escolher casar, ter filhos, ou não. Mathieu vive um romance com Marcelle Dufet mas eles não moram na mesma casa; ele a visita três dias por semana: combinaram não se casar, nem ter filhos e o ponto de tensão entre ambos se dá justamente quando Marcelle engravida, desejando ter a criança, ao passo que Mathieu impõe o aborto. Somos livres, inteiramente livres (mesmo quando escolhemos “não-ser”),

 

com liberdade de ser um animal ou uma máquina, de aceitar, de recusar, de tergiversar, casar, dar o fora, arrastar-se durante anos com aquela cadeia aos pés. Podia fazer o que quisesse [Mathieu], ninguém podia aconselhá-lo. Só haveria para ele Bem e Mal se os inventasse. Em torno dele as coisas se haviam agrupado, aguardavam sem um sinal, sem a menor sugestão. Estava só em meio a um silêncio monstruoso, só e livre, sem auxílio nem desculpa, condenado a decidir-se sem apelo possível, condenado à liberdade para sempre. (SARTRE, 1986, p. 270-271 apud TEODOSEO, 2011, p. 102)

 

            Vemos assim, como Jean-Paul Sartre “dirige o leitor” do romance A Idade da Razão num intrincado conjunto de tensas relações entre a vivência concreta do indivíduo, seja em sua vida pessoal ou em suas aspirações abstratas de uma Ideologia, de um grupo, de um Partido Político, presentes em seu contexto histórico. Através de sua obra somos chamados a refletir, ainda que de passagem, sobre nossa própria relação e nossa vida em sociedade.

            Uma outra obra que merece destaque em nossa análise é a obra Que é a literatura? Pois a noção de engajamento e liberdade foi amplamente discutida e debatida neste ensaio crítico. A questão do engajamento é discutida desde o prefácio da obra que inicia da seguinte forma: “Se você quer se engajar...” (SARTRE, 2004, p. 07). E é diante de algumas críticas recebidas pelo autor sobre essa forma “engajada” de escrever que Sartre se propõe examinar a literatura a partir das seguintes questões: Que é escrever? Por que se escreve? Para quem se escreve? (que são, respectivamente, os capítulos 1 a 3 da obra). Para poder condenar e criticar é preciso entender o que é a literatura e por isso Sartre propõe tais questões.

            Não pretendemos fazer aqui um resumo da obra, mas apenas destacar alguns tópicos importantes a fim de poder considerar a possibilidade de engajar-se a partir da escrita literária como o faz Sartre. No caso do escritor engajado, poderíamos fazer a seguinte pergunta: com que finalidade você escreve?  “que aspecto do mundo você quer desvendar, que mudanças quer trazer ao mundo por esse desvendamento?” (SARTRE, 2004, p. 20). Um escritor que escolhe desvendar o mundo ele o faz para os outros homens, a fim de que estes assumam sua responsabilidade em face de um determinado objeto: “a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele” (SARTRE, 2004, p. 21). Além disso, “O escritor engajado sabe que a palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar. Ele abandonou o sonho impossível de fazer uma pintura imparcial da Sociedade e da condição humana” (SARTRE, 2004, p. 20-21).

            Cada pessoa tem sua razão para escrever e, segundo Sartre “é em nome da própria opção de escrever que se deve exigir o engajamento dos escritores” (SARTRE, 2004, p. 33). Seja para esclarecer, apoiar e despertar a consciência operária, a abolição dos regimes totalitários e da escravidão, colocar em cheque o etnocentrismo e a superioridade de uma raça sobre a outra, várias são as razões que podem levar um escritor engajado a desvendar a realidade uma vez que esta é “desvendante”: o homem é o ser pelo qual as coisas se manifestam e que dá sentido as coisas. Escrever é desvendar o mundo, recorrendo à consciência do Outro. “[...] existe coincidência, não só entre a liberdade formal de pensar e a democracia política, mas também entre a obrigação material de escolher o homem como tema permanente de meditação e a democracia social” (SARTRE, 2004, p. 112). Nesse sentido, a literatura coincide com uma certa antropologia no sentido mais restrito do termo. O escritor falar sobre o homem, mas não o homem “abstrato” das especulações metafísicas, mas o homem de sua época e seus contemporâneos. “Engajado na mesma aventura que os seus leitores e situado, como eles, numa coletividade sem divisões, o escritor, ao falar deles, falaria de si mesmo e, ao falar de si mesmo, falaria deles” (SARTRE, 2004, p. 118). Finalmente, a literatura engajada tem como principal objetivo superar a antinomia entre a palavra e a ação: “A obra escrita pode ser condição essencial da ação, ou seja, o momento da consciência reflexiva” (SARTRE, 2004, p. 120).

 

Segregação e Escravidão: Richard Wright e Solomon Northup

 

            Em sua obra Que é a literatura? Sartre toma como modelo de escritor engajado o caso do escritor negro americano Richard Wright que lutou contra o racismo nos Estados Unidos nos anos 20 por meio de suas obras. Um dos seus livros mais renomados foi escrito nos Estados Unidos, Black Boy, que é um romance autobiográfico publicado em 1945, sendo considerado como um dos primeiros romances escritos por negros retratando suas condições de vida na época, razão pela qual Richard Wright é considerado como um escritor que abriu o caminho, por assim dizer, para outros escritores negros. “Seria possível supor, ainda que só por um instante, que ele aceitasse passar a vida contemplando a Verdade, a Beleza e o Bem eternos, quando 90% dos negros do Sul [dos Estados Unidos] estão praticamente privados do direito ao voto?” (SARTRE, 2004, p. 62).

            Quando um negro, em um determinado contexto, se descobre escritor, ele descobre o seu tema: “ele é o homem que vê os brancos de fora, que assimila a cultura branca pelo lado de fora, e cada livro seu mostrará a alienação da raça negra no seio da sociedade americana” (SARTRE, 2004, p. 63). Ele poderia ter se tornado um compositor de blues, ou um panfletário, mas escolheu ser escritor. “Assim, na origem está a liberdade: sou escritor em primeiro lugar por meu livre projeto de escrever” (SARTRE, 2004, p. 62).

            A questão racial também foi o que motivou um outro escritor negro quase 100 anos antes de Richard Wright a usar a literatura para denunciar as condições humilhantes a que a escravidão pode submeter um homem. Recentemente (2013) foi lançado o filme 12 anos de escravidão, que se trata de uma adaptação da autobiografia homônima de 1853 de Solomon Northup, um negro livre que trabalhava como violinista, vivia com sua esposa e dois filhos no Estado de Nova Iorque que foi para Washington depois de uma oferta de emprego que lhe traria uma boa quantia em dinheiro, por duas semanas, como músico em um circo itinerante, sendo que na ocasião ele acaba sendo sequestrado e vendido como escravo. Depois de trabalhar em plantações e passar por várias humilhações após ser escravizado por 12 anos ele consegue se libertar e voltar a viver com sua família. Após o seu retorno tentou, sem sucesso, levar os responsáveis pelo seu sequestro à julgamento, se tornando um abolicionista, na luta contra a escravidão e ajudando escravos fugitivos.

            Este é um breve resumo do enredo do filme baseado, como dissemos, na obra de mesmo nome de Solomon Northup. O livro, naturalmente, trata com muito maior riqueza de detalhes os dados autobiográficos do autor, desde sua liberdade enquanto negro nascido livre no estado de Nova York, seu sequestro, o trabalho como escravo, denúncias de torturas e condições desumanas, e a reconquista da sua liberdade, podendo ser considerado como um dos livros mais importantes para os estudos históricos da Escravidão na América do Norte.

            Se o filme pode ser considerado uma obra denúncia sobre a crueldade da escravidão no mesmo sentido que a Lista de Schindler foi em 1993 para o Holocausto, com maios forte razão podemos dizer que o livro pode muito bem ser incluído na lista de uma literatura engajada, tal como a obra de Richard Wright e tal como o entende Jean-Paul Sartre. É evidente nestes dois casos como a literatura não somente imita uma realidade, mas surge como polo criativo e interpretativo dessa mesma realidade na qual se ancora. Falar de tais obras é falar, como Sartre, de um escritor engajado, de alguém que “quando fala, ele atira. Pode calar-se, mas uma vez que decidiu atirar é preciso que o faça como um homem, visando o alvo, e não como uma criança, ao acaso, fechando os olhos, só pelo prazer de ouvir os tiros” (SARTRE, 2004, p. 21).

            Falar sobre a ideia de uma literatura engajada é vislumbrar o engajamento em todo seu teor conceitual, evocando a condição original de “seres livres” ao qual estamos todos condenados segundo a filosofia existencialista. Se escolho me envolver em uma guerra ou me filiar a um partido político, se escolho me casar ou permanecer solteiro, ter filhos ou não tê-los, se escolho escrever sobre as trivialidades e superficialidades de uma classe burguesa que ostenta a todo custo seu poder ou se dou à minhas obras uma certa função social, é sempre em nome dessa liberdade que fundamenta a existência humana. Estamos condenados à liberdade. Quer dizer, cada pessoa pode, a cada momento, escolher o que fará de sua vida, sem que haja um destino previamente concebido. E é a liberdade que torna possível escolher, dentre todas as alternativas possíveis, aquela que vai nos levar a um caminho mais curto em direção ao projeto de vida que traçamos para nós mesmos.

 

 

Referências Bibliográficas

 

ARONSON, Ronald. Camus e Sartre: o polêmico fim de uma amizade no pós-guerra. Tradução de Caio Liudvik. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

DENIS, Benoît. Literatura e Engajamento: de Pascal a Sartre. São Paulo: EDUSC, 2002.

SARTRE, Jean-Paul, As Palavras. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. Tradução: J. Guinsburg, 20005.

____. Que é literatura? 3. ed. São Paulo: Ática, 2004.

____.  Apresentação de Tempos Modernos. Lisboa: Edições Europa-América, s.d. (Situações II).

TEODOSEO, Danilo Linard. Engajamento literário e sentidos históricos na literatura existencialista de Jean-Paul Sartre 1938-1960. Dissertação (Mestrado em História). Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande. Campina Grande-PB, 2011.

 

 

 


[1] É preciso enfatizar, como o faz Denis (id., ibidem, p. 17), a peculiaridade histórica de cada momento, afirmando que nem todo tipo de literatura que discuta aspectos sociais seja, de fato, uma literatura engajada, pois, assim, a literatura engajada seria onipresente, mas diluída em todo e qualquer tipo de obra literária.

[2] Sartre é, sem dúvida, um dos maiores ícones quando o assunto é literatura engajada e, por essa razão, vamos dar uma ênfase especial ao seu pensamento nesta seção.

[3] A ideia de um escritor engajado não esteve sempre presente no pensamento de Jean-Paul Sartre. Apesar de ter tomado contato com obras literárias muito cedo por causa do seu avô (Charles Shweitzer, seu avô, possuía uma vasta biblioteca e desde cedo Sartre teve contato com os grandes clássicos), é só a partir dos 33 anos que Sartre vai transformando sua ideia de literatura “antes marcada mais por preocupações estéticas, agora, voltando-se para temas éticos e históricos” (TEODOSEO, 2011, p. 57). De qualquer modo, a literatura representava para Sartre uma atividade única, singular. Sartre em suas memórias escreve: “eu achara a minha religião: nada me pareceu mais importante do que um livro. Na biblioteca eu via um templo.” (SARTRE, 2005, p. 43).

[4] Sobre o contexto da Guerra Civil Espanhola e suas consequências para a existência humana, veja-se a coletânea de contos do autor: O Muro.

[5] A Segunda Guerra Mundial foi declarada um ano após a publicação desta coletânea (O Muro). E Sartre será um ator da guerra conforme declara Annie Cohen-Solal (biógrafa de Sartre), o “recruta Sartre, matrícula 1991, mobilizado no posto de verificação A.D., setor 108, no regimento da 70ª divisão de artilharia, pertencente ao 11º grupo de tropas armadas” (apud TEODOSEO, 2011, p. 75). Mas sua participação foi, por assim dizer, secundária. Era um “soldado meteorológico”, sem nenhum combate ou ação corajosa que lhe rendesse alguma medalha e, apesar de tudo, depois da captura de seu batalhão pelos alemães, ficou preso durante um ano e depois foi solto, em decorrência de um atestado falso que lhe atribuíra cegueira parcial (id. ibidem).

[6] Como nos contos “Eróstrato” e “A Infância de um Chefe”.

[7] A geração de intelectuais franceses que tiveram como pano de fundo o contexto histórico a Segunda Grande Guerra, a Guerra Fria e a descolonização de países africanos sentiram a necessidade de discutir o papel dos intelectuais no processo de mudanças sociais, dentre eles Sartre e Albert Camus. Tanto para Sartre quanto para Camus, uma das formas válidas de ação é a escrita. Na apresentação da revista Les Temps Modernes da qual Sartre foi seu editor-chefe, ele afirma que cada palavra tem consequências e cada silêncio também. A ideia de Sartre é a de que o escritor e o intelectual devem engajar-se e intervir na sociedade em que vive. A literatura, através da escrita, compreende um meio fundamental de comprometimento e mudança social. Havia algumas divergências entre Sartre e Camus no que diz respeito a ideia de engajamento, dentre elas a ideia de que apesar de Camus também compreender a necessidade do engajamento e uma maior participação política do intelectual, ele não o pensava como uma obrigação. O fato é que Camus adquiriu a admiração de Sartre exatamente por unir escrita e ação, sendo ao mesmo tempo um “poeta da liberdade e ativista político” (ARONSON, 2007, p. 97). O sucesso que esses intelectuais e o existencialismo tiveram, incluindo aí Simone de Beauvoir, foi devido, segundo Benoît Denis, à “capacidade do existencialismo de extrair as conseqüências da experiência do passado e de dar sentido ao momento histórico presente” (2002, p. 267).

[8] “Cotidianamente vemos, pela mídia, o crescimento da violência gratuita, ora por crimes, ora em situações banais. Tomamos conhecimento, também, acerca de conflitos dotados de um “caráter” mais “histórico” (o conflito árabe-israelense, por exemplo). Porém, enquanto intelectuais, historiadores, filósofos ou escritores, que “papel” isso nos reserva: o de vítima, de observador? É possível algum tipo de intervenção? Essa é a angustia que corrói a consciência “infeliz” do intelectual Mathieu, e o debate que Sartre visa transmitir” (TEODOSEO, 2011, p. 96).

 

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