O Legado de Hannah Arendt para a política brasileira

O Legado de Hannah Arendt para a política brasileira

por João Vicente

Cátia Picanço Coelho

acadêmicos de Administração da UFAM

postado em mai. 2016

 

            Hannah Arendt viveu durante o século XX, podendo retratar fielmente tal período obscuro da sociedade em que prevaleceu o totalitarismo e os campos de concentração. Ela argumenta que tais fatos não são resultados de excesso de política, mas sim, pela falta de liberdade, que é o sentido principal da política.

            Para ela, a política não compreende gerenciamento e boa administração, uma definição tão comum hoje em dia, mas sim, que possui uma dignidade própria, não sendo apenas um meio para atingir determinado fim. Essa dignidade reside na ideia de que é na política que experimentamos o prazer de aparecermos de forma singular uns para os outros em ações e palavras dentro do âmbito público. Esse conceito de política impede que tratemos os cidadãos como simples consumidores.

            Percebe-se então que a política de Arendt é sinônimo de liberdade, pois para ela a política só tem sentido se a liberdade se fizer presente. Desse modo, a política é um fenômeno externo ao homem, acontecendo no espaço entre-os-homens pois a liberdade política corresponde a participação ativa dos cidadãos no mundo público, no cerne da garantia da pluralidade humana que consiste na convivência dos diferentes.

            Todavia, a compreensão de espaço político de Arendt comporta homens distintos em um mundo de aparências com ações, discursos, troca de opiniões mostrando e reafirmando sua singularidade. E é por causa dessas diferenças individuais (pluralidade humana) que a política não pode negligenciar o fato de o mundo ser composto de muitos seres singulares pois o fato de poder falar, de ser visto e ouvido, de poder participar de discussões e deliberações da gestão pública é a possibilidade que todos os cidadãos têm para mostrar sua identidade e opinião, e isso precisa ser respeitado pela política. Agentes com disposição e capacidade específica devem ter atuação prática em leis, convênios e acordos de natureza política. Sendo assim, ela preferia o sistema de democracia direta ou um sistema de conselhos em detrimento de formas de democracia representativa, pois, sempre adotava uma postura claramente crítica em relação a esta última.

            Arendt separa a liberdade em dois âmbitos: a liberdade interna ou filosófica, que corresponde a dimensão da vontade e a liberdade externa ou política, que diz respeito a dimensão da ação. Posteriormente, a liberdade existe onde a condição plural do homem dotado da capacidade de pensar ou de querer, não seja desconsiderada, sendo nada mais que ação. Torres (2007, p. 238) ressalta que “o indivíduo só é livre enquanto está agindo, nem antes, nem depois”.

            Por conseguinte, Arendt compreendendo a fragilidade da tradição ao buscar analisar os acontecimentos políticos do seu cotidiano, percebendo a realidade política do regime totalitário atestada pela capacidade humana de consentimento do mal e flagelo de milhares de seres humanos permitido pelo distanciamento da grande maioria dos indivíduos à dimensão política e que não mais concebe a política como o espaço da liberdade, considerado este, um dos grandes problemas do século XX.

            Segundo Arendt, a maioria da sociedade é composta de homem massa, ou seja, aquele ser isolado, atomizado e que não toma decisões sobre a sociedade que vive e nem assume responsabilidades. Contudo, voltam-se apenas para a valorização do labor, a produção e para consumismo deixando de lado o aspecto político em que estão inseridos.

            Esta sociedade de massa consiste no ser que compõem as sociedades totalitárias, criticada por ela. Pois, segundo ela, o totalitarismo só foi possível em virtude do afastamento dos seres humanos da vida pública.

            O totalitarismo só veio à tona pela incapacidade da maioria dos homens contemporâneos de distinguir individualmente o certo do errado; a fragilidade e a insuficiência da tradição de pensamento político e moral; a lealdade total de cada membro do movimento totalitário; a existência de indivíduos que se dizem injustiçados e que encontraram consolo nos inflamados sentimentos nacionais.

            Ao examinar os regimes totalitários, Arendt observa a destruição desse espaço político, uma vez que foi aniquilada e reprimida a liberdade destes homens, visto que o objetivo do regime era reduzir ao máximo a singularidade e a pluralidade da condição humana eliminando o espaço das atividades políticas, da ação que condicionam os indivíduos à aceitação passiva de tudo, assegurada pela ideologia através do terror.

            Arendt percebe que a política se tornou meramente um espaço que tem a função de garantir a subsistência e outras necessidades sociais. Ora, “se é verdade que a política não é mais nada além do que é infelizmente necessário para a preservação da vida da humanidade, então com efeito ela começou a ser liquidada, ou seja, seu sentido transformou-se em falta de sentido” (ARENDT, 1993, p.119 apud BRAGA, s/d, p. 156).

            Contudo, é evidente que não se tem fins legitimamente político pois a ação baseada na violência perde seu sentido e não corresponde à liberdade.

 

[...] uma esperança um tanto insensata em nosso século, uma vez que, desde a Primeira Guerra Mundial, cada um dos pratos que nos foram servidos consideravelmente mais quente do que aquela em que seus cozinheiros tiveram a ideia de prepará-los (ARENDT, 1993, p. 118 apud BRAGA, s/d, p. 150).

 

            Dessa forma, a política para Arendt é entendida como a criação do novo, o inesperado, resultado da ação plural e não como violência. Tomando-se do pressuposto que a política de Arendt se transformou na falta de sentido é inevitável não pensar em uma renovação desse espaço político visto que é a política que o dignifica enquanto ser humano. E como não pensar como uma alternativa, como algo realizável pela condição humana em prol da renovação desse novo cenário político. Sendo esta uma necessidade que constitui o indivíduo e da comunidade política-jurídica na qual se insere. De modo que, tudo aquilo que realiza a mediação entre os homens como as instituições, o direito, o mundo comum só pode ser construído se a política for sinônimo de liberdade.

            Portanto, apesar de não se viver em um regime totalitário de fato, torna-se evidente que a sociedade atual tem flagelos de uma sociedade de massa caracterizada pela falta de interesse no mundo público e que isso não é falta de informação pois informações tem-se a qualquer hora. Ao que argumenta Arendt, “as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto”. (ARENDT, 2009, p.361 apud BRAGA, s/d, p. 155)

            Tais ideias podem ser objetos de reflexão e análise considerando também a realidade da política brasileira, que passa por um momento de crise política e econômica. Desta forma, levando em consideração os conceitos e reflexões apresentados por Arendt pode-se notar a falta de interesse, pelos governados, e falta de responsabilidade, pelos governantes pela dimensão política que torna a política atual enfraquecida e desacreditada, configurada pela crise política em que vive o Brasil. Enfrenta-se, não a maior crise da história, mas sim uma das maiores, em que há dois lados políticos, forças que não representam mais ninguém a não ser eles mesmos, talvez, sendo resultado de décadas de analfabetos políticos, que trocam seu principal dever cívico por uma simples migalha. Vale atentar para o fato já conhecido que, muitas vezes, esse ato praticado por milhares de indivíduos, se dá por meio de situações em que o homem possui necessidades básicas e que estas precisam ser sanadas diariamente, e por isso, tal gesto vem se perpetuando ao longo de toda a história, convenhamos que não justifica tal ato, todavia, isso é resultado de gerações de “homens de massa”.

            Há então, uma questão simples a ser discutida, se a política é uma arma capaz de mudar totalmente a vida de toda uma comunidade, por que tal instrumento de poder tem sido governada de forma tão irresponsável? Sem que se possa reagir para que se mude algo, sem que a população, a qual possui o poder, garantido pelo regime democrático em que se vive atualmente, sendo assim, a ideia de que o poder está nas mãos do povo e não de seus representantes deveria desencadear em toda a sociedade o desejo de mudança, não de mudanças de partido, como se diz atualmente, mas sim, no sentido de levantar desejos em toda a população de participar da coisa pública, que vai além do mero ato de votar ou de uma simples época eleitoral.

          Arendt, ao perceber que a sociedade é constituída de homens de massa, e que estes não se interessam pela coisa pública, define uma sociedade formada por analfabetos políticos, facilmente manipulados, que não veem sentido na coisa pública ou na mera participação política. Sendo exonerados de sua singularidade e pluralidade humana.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BRAGA, Ana Carolina L. A Recusa da Política em Hannah Arendt. Acesso em: 16 de Março de 2016.

TORRES, Ana Paula Repolês. O Sentido da Política em Hannah Arendt. Trans/Form/Ação, (São Paulo), v.30(2), 2007, p. 235-246. Acesso em: 16 de Março de 2016.

 

Bibliografia Consultada

 

Revista Filosofia, Hannah Arendt – Pensadora da Política e da Liberdade. Acesso em 10 de abril de 2016.

Brasil Escola, Política e Direito em Hannah Arendt. Acesso em 10 de abril de 2016.

 

 

Filosofia PolíticaFilosofia Política ContemporâneaHanna Arendt  → O Legado de Hannah Arendt para a política brasileira