O que a sétima temporada de Game of Thrones trouxe de ensinamento para nós, brasileiros?

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em ago. 2017

Parafraseando o filósofo alemão Karl Marx, poderíamos dizer que a história da humanidade é a história da luta pelo poder e, nesse sentido, a produção áudio visual Game of Thrones é uma representação exata do que foi, e do que talvez ainda seja, a humanidade.

Uma história de lutas, guerras, conspirações, entre povos, reinos e nações, para conquistar o poder, onde o homem se torna o lobo do próprio homem, como diria o filósofo inglês Thomas Hobbes. Desde as conquistas de Alexandre, o Grande, passando pelo Império Romano até a Queda de Constantinopla; as revoluções burguesas do século XVII e XVIII: inglesa, francesa, americana; a revolução russa no século XX e as duas grandes guerras: o nazismo, o fascismo; e em pleno século XXI não podemos dizer que o poder não seja ainda o centro da atenção de homens e mulheres, em todo o mundo. Os métodos já não são mais os mesmos, mas o objetivo permanece.

Talvez isso explique o sucesso mundial de Game of Thrones. Todas as guerras travadas ao longo da história da humanidade estão, se assim podemos dizer, gravadas no inconsciente coletivo. E a luta entre os povos dos Sete Reinos resgata no nosso imaginário o que, de forma inconsciente, foi vivido pela humanidade ao longo das eras.

Mas será que a humanidade está destinada a viver em meio a guerras e a disputa em torno do poder? Será possível algum dia quebrar a roda, como deseja Daenerys Targaryen, a mãe de dragões?

Tyrion Lannister, o habilidoso estrategista, mão da Rainha Daenerys, acredita nessa possibilidade. No sexto episódio da sétima temporada ele diz a sua rainha: “Se queremos criar um mundo novo e melhor, conspirações e guerras não são a melhor maneira de começar. Mas esse mundo que se deseja criar não se constrói de uma única vez e talvez seja necessário mais de uma geração”.

A série Game of Thrones nos transmite essa mensagem, carregada de realismo e idealismo. Ao mesmo tempo em que ela nos apresenta uma imagem real do que foi a história da humanidade, por meio de alegorias, amplificação de signos, símbolos e aspectos sobrenaturais (em certo sentido não deixa de, igualmente, representar a nossa história, se lembrarmos como a idade média foi uma época fortemente caracterizada por um pensamento místico e mágico), ela inspira o desejo de buscar uma realidade melhor, ainda mais agora que se encaminha para sua última temporada, onde se espera que deverão ter fim as guerras e os Sete Reinos viverão, enfim, em harmonia.

Mas antes deste fim, a série nos transmite ainda uma outra mensagem. A necessidade de nos unirmos em torno de um objetivo comum, mesmo que façamos partes de reinos (grupos) diferentes.

Em um diálogo entre Jon Snow e Beric Dondarrion, este ressalta como o primeiro e último inimigo é a morte. Todos nós morremos. A morte é um inimigo contra o qual a batalha nunca será vencida. E mesmo assim é preciso combatê-la, para ajudar aqueles que, como nós, estão vivos. É preciso defender aqueles que não tem como se defender.

A missão, por assim dizer, suicida, de Jon Snow e seus companheiros para capturar um Vagante Branco tem esse objetivo. Encontrar uma prova para convencer seus maiores rivais, a casa Lannister, de que eles têm um inimigo comum e que precisam, de alguma forma, combatê-lo. E para isso, uma trégua se faz necessária.

Do nosso ponto de vista esse momento é carregado de um simbolismo extremamente significativo para nós, brasileiros, que vivemos tempos sombrios na nossa democracia. A sociedade brasileira se encontra extremamente dividida, polarizada, entre socialistas e liberais. Enquanto a sociedade briga entre si, não percebe que existe um inimigo comum, que está destruindo a nossa sociedade e todos os direitos que foram conquistados ao longo dos anos depois de intensas lutas.

Não pretendo aqui nomear qual é este inimigo, e talvez nem seja possível nomeá-lo pois não se trata de um indivíduo isolado, todavia, acredito que ele esteja bem visível e diante de nossos olhos, como o Rei da Noite que se aproxima da grande muralha. Resta saber se teremos condições de combater esse inimigo ou se seremos, mais uma vez, vencidos por ele. Para isso precisamos tanto de uma dose de idealismo quanto de realismo. Continuar acreditando que é possível viver em uma sociedade melhor e mais justa, e ao mesmo tempo se dar conta de que essa mudança não irá ocorrer sem luta e nem de uma hora para outra.

Não se trata de pretender unir grupos com ideologias e interesses tão distintos o que seria algo tão fictício quanto a união entre Cersei Lannister e Daenerys Targaryen. O momento exige uma trégua. 2018 se aproxima. O inverno chegou para a nossa democracia. A muralha foi derrubada. Vamos combater o inimigo?

Diante de todas as incertezas que o futuro nos reserva, qual céticos como Sandor Clegane, a única certeza que podemos ter é que, se nada for feito, nenhuma mudança será possível.

 

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