O que é Ética (resenha)

O que é Ética (resenha)

VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994. (Coleção Primeiros Passos, 177)[1].

 

OS PROBLEMAS DA ÉTICA

 

            Quando nós falamos em ética, nós não falamos apenas de teorias, prática, filosofia, teologia, mas também falamos da própria vida. A ética é sempre aplicada no nosso dia a dia, no trabalho, na escola, na família, etc. Ela está ligada diretamente ao caráter, à liberdade humana. Teoricamente, é o estudo das ações ou dos costumes, sendo também a própria realização de um tipo de comportamento, como afirma Valls:

 

Tradicionalmente ela [a ética] é entendida como um estudo ou uma reflexão científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas chamamos de ética a própria vida [...] A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento (p. 7).

 

            A ética é, portanto, um estudo (teoria) no que se refere à boa conduta humana, do bem e mal, do certo ou errado de acordo com cada costume, comportamento e cultura de cada região.  Outra questão importante no que norteia a ética, seria o fato de que os costumes mudam com o passar do tempo e o que hoje é aceito pela sociedade, futuramente poderá ser considerado errado. Assim como o que aqui a sociedade considera como errado, outra cultura considera certo. Um exemplo: a maconha, que em outros países a mesma não é proibida, ao contrário do Brasil.

 

ÉTICA GREGA ANTIGA

 

            “A reflexão grega neste campo surgiu como uma pesquisa sobre a natureza do bem moral, na busca de um princípio absoluto da conduta” (p.24).

            Mas em que consiste este bem moral? Qual é o maior dos bens? Seria a felicidade, o dinheiro, honras, o prazer? E o que é este Bem Supremo de que tanto falam os filósofos gregos? São questões que estão diretamente relacionadas com a ética grega pois, para a maioria destes pensadores, como Sócrates, Platão e Aristóteles, este Bem Supremo só pode ser alcançado mediante a prática de uma vida virtuosa, tendo a razão como guia de nossas ações.

            Para Sócrates, uma vida virtuosa depende do “conhecimento de si mesmo”. O filósofo acreditava que através da razão era possível alcançar um ideal de vida ético. Mas como a nossa vida é um constante conflito entre as paixões, os desejos, as emoções e a razão, nem sempre a razão consegue manter o domínio e o controle sobre nossas ações. Isso se deve ao fato, segundo Sócrates, de que nós não nos conhecemos a nós mesmos. O lema “conhece-te a ti mesmo” expressa toda a preocupação moral de Sócrates e não era um lema meramente teórico, “mas prático, pois não buscava um conhecimento puro e sim uma sabedoria de vida” (p. 35). Sócrates afirma que o mais importante está dentro de cada um de nós, que quanto melhor nos conhecemos maiores serão nossas virtudes e que em nosso interior está a pureza de viver pelas nossas próprias escolhas.

            Além de Sócrates, Aristóteles também trouxe grandes contribuições para o campo da Ética cujo pensamento também pode ser pensando a partir de uma “ética racionalista”. Uma das contribuições deste filósofo é a ideia de que as virtudes não são algo que se adquirem de uma hora para outra, mas são adquiridas através do uso da razão, do hábito e de ações virtuosas. “O homem precisa converter suas melhores disposições naturais em hábitos, de acordo com a razão” (p.33).

            Neste ponto Vall nos mostra o esforço de Aristóteles em produzir uma ética pautada na virtude. Ele nos diz que devemos exercitar a virtude para podermos então sermos mais críticos, mais éticos, agirmos de acordo com as nossas reflexões diárias. Agir eticamente é algo que para os gregos era voltado para uma atividade da razão: a razão como guia de nossas ações na busca do ideal de Bem. 

 

ÉTICA E RELIGIÃO

 

            A religião está de tal forma presente na vida das pessoas que uma boa parte da sociedade pauta suas ações (ou pelo menos orienta suas ações) em torno de mandamentos divinos que são, em sua essência, regras de conduta moral.

            Baseando-se na época medieval o comportamento religioso era a grande base da ética e da moral, pois o cristianismo pregava valores religiosos, perante a sociedade. A ética medieval “tem uma conseqüência profunda: quando o homem se pergunta como deve agir, não pode mais satisfazer-se com a resposta que manda agir de acordo com a natureza, mas deve adotar uma nova posição que manda agir de acordo com a vontade do Deus pessoal” (p.36).

            De alguma forma, acredita o autor que “A religião trouxe, sem dúvida alguma, um grande progresso moral à humanidade” (p.37). O autor compreende nesta frase que mesmo com seus diversos problemas morais que as religiões carregam em si, elas também manifestam no homem um autocontrole capaz de segurar seus anseios negativistas por meio de punições divinas como o pecado. Entretanto, ao permitir que as maiores atrocidades fossem admitidas sem nenhum pudor como a Inquisição, a religião predominante no ocidente na Idade Média não teve pulso firme para impor uma ética mais saudável à sociedade. Fato que não foi muito bem explorado pelo o autor.

 

OS IDEAIS ÉTICOS

 

[...] A reflexão ético-social do século XX trouxe, além disso, uma outra observação importante: na massificação atual, a maioria hoje talvez já não se comporte eticamente, pois não vive imoral, mas amoralmente. Os meios de comunicação de massa, as ideologias, os aparatos econômicos e do Estado, já não permitem mais a existência de sujeitos livres, de cidadãos conscientes e participantes, da consciência com capacidade julgadora. Seria o fim do indivíduo? (p.47).

 

            O autor introduz uma importante observação acerca do comportamento ético da sociedade após o século XX, onde a maior parte age sem a noção da moral e influenciado por ideias externas, tornando a ética, de certo modo, impraticável em todos os aspectos. E essa reflexão significa, de certa forma, a razão para a banalização da consciência humana, onde não existe mais espaço para a dúvida, para a busca por respostas e pelo livre desenvolvimento da consciência individual.

 

A LIBERDADE

           

            “Falar de ética significa falar de liberdade [...] não tem sentido falar de norma ou de responsabilidade se a gente não parte da suposição que o homem é realmente livre” (p. 48).

            Através da ética, o homem tem capacidade de decidir entre o bem e o mal. No entanto este é o problema da liberdade, o que pode ser bom para uns, pode não ser favorável a outros, dessa forma, as relações da ética ligam-se ao comportamento humano, pois o homem busca deveres que garanta o seu bem individual. A filosofia oferece à ética uma reflexão sobre o que é a pessoa humana, cuja autenticidade se expressa no projeto de humanização, ou seja, o homem traça os seus próprios valores. Como o filósofo Sócrates dizia, “conhece-te a ti mesmo”. Valls destaca em sua obra:

 

Falar de ética significa falar da liberdade. Num primeiro momento, a ética nos lembra as normas e a responsabilidade. Mas não tem sentido falar de norma ou de responsabilidade se a gente não parte da suposição de que o homem é realmente livre, ou pode sê-lo. Pois a norma nos diz como devemos agir. E se devemos agir de tal modo, é porque (ao menos teoricamente) também podemos não agir deste modo. Isto é: se devemos obedecer, é porque podemos desobedecer, somos capazes de desobedecer à norma ou ao preceito. (p. 48).

 

            Quando nós nos referimos à ética e ao comportamento humano, automaticamente nos referimos à liberdade, ela é a base para o pensamento de muitos filósofos, como por exemplo: Hegel e Schelling. Esses filósofos desencadeiam muitas discussões em relação a liberdade. A questão da liberdade, em Hegel, é muito discutida, e com razão, devido à profundidade com que este filósofo trata o tema, realmente central para o seu pensamento (p. 52).

 

A ÉTICA HOJE

 

Um mérito definitivo do pensamento de Kant é ter colocado a consciência moral do individuo como centro de toda a preocupação moral. Afinal de contas, o dever ético apela sempre para o indivíduo, ainda que este nunca possa ser considerado uma espécie de Robinson Crusoé, como se vivesse sozinho no mundo (p. 70- 71).

 

            Deve-se este mérito a Kant sobre seu método de pensar a ética como algo que surge da consciência humana como centro, como uma formadora determinante de princípios pessoais de acordo com a consciência de cada um. Como diz a citação, ainda que nunca possamos ser como um Robinson Crusoé, nos isolarmos da sociedade de forma que possamos viver de acordo com nossas regras e próprios conceitos, temos que concordar porém, que cada um pensa a sua maneira, a consciência de cada um se comporta a seu modo e define o que é certo ou errado individualmente.

 

Procurando superar o ponto de vista Kantiano, que chama de moralista, Hegel insistiu em outra esfera, que chamou de esfera da eticidade ou da vida ética. Nesta esfera, a liberdade se realiza dentro das instituições históricas e sociais, tais como a família, a sociedade civil e o Estado. Hegel não teme afirmar que ‘o Estado é a realidade efetiva da idéia ética’. Não ha dúvidas que a exposição de Hegel tem pelo menos o mérito de localizar onde se encontram os problemas éticos (p.71).

 

            Hegel se contrapôs ao pensamento individual de Kant e pensa os problemas éticos atuais de uma forma mais coletiva. Ele destaca a problemática da ética hoje em dia dividindo-a em três pontos no que ele chama de Eticidade ou vida ética: A Família, Sociedade civil e Estado. Hegel enfatiza o Estado como um exemplo do que seria a personificação do sentido da ética, e mesmo que não concordemos temos que valorizar que ele realmente soube localizar bem onde se encontra os problemas éticos da atualidade. Esses três fatores são determinantes na construção dos princípios educativos e morais de cada um, através dos primeiros laços familiares, da vida na sociedade civil e da submissão ao Estado, suas leis e sistemas políticos, o conceito de vida moral, e o pensamento ético atualmente é gerado e influenciado.

            São muitas as questões que evolvem a ética, poderíamos citar muitas delas, porém é um processo complexo, pois na corrida para a descoberta do conhecimento científico, a ética ficou para trás tornando-se difícil de definir. São muitos os filósofos que abordam sobre a mesma, Hegel, Platão, Aristóteles, etc. A partir daí podemos entender a riqueza que está no material exposto por Álvaro M. L. Valls em seu livro: O que é ética. Por fim, fica claramente subentendido, que agir eticamente, é agir de acordo com o bem.

 

Por mais que variem os enfoques filosóficos ou mesmo as condições históricas, algumas noções, ainda que bastante abstratas, permanecem firmes e consistentes na ética. Uma delas é a questão da distinção entre o bem e o mal. Agir eticamente é agir de acordo com o bem. A maneira como se definirá o que seja este bem, é um segundo problema, mas a opção entre o bem e a mal, distinção levantada já há alguns milênios, parece continuar válida (p. 67).

 



[1] Resenha publicada com a colaboração dos acadêmicos do primeiro período dos cursos de Serviço Social e Administração em Gestão Organizacional para a disciplina de Introdução à Filosofia.

 

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