Pedagogia da Esperança (Resenha)

Pedagogia da Esperança (Resenha)

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

 

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em nov. 2016

 

            O livro começa com um texto intitulado “Primeiras Palavras” onde Paulo Freire explica porque escrever uma Pedagogia da Esperança em um contexto marcadamente “sem esperança”, além de rebater algumas críticas que recebera por sua “politização exagerada” e até mesmo sua condição de educador. Além disso, nesta obra Freire relembra alguns fatos que marcaram a elaboração de sua Pedagogia do Oprimido, como a lembrança dos lugares em que escreveu esta que é talvez sua obra mais conhecida, do tempo que passou no Chile e nos Estados Unidos, ou a forma com que os capítulos foram escritos sendo que o quarto e último capítulo foi escrito tempos depois, após um período de afastamento em relação ao texto inicial com três capítulos.

            Os inúmeros problemas vividos no contexto político brasileiro que o levaram ao exílio não foram suficientes para ofuscar a sua esperança pois, como ele mesmo afirma, não é possível viver “[...] a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor, sem esperança e sem sonho. A esperança é necessidade ontológica; a desesperança, esperança que, perdendo o endereço, se torna distorção da necessidade ontológica” (p. 05). A esperança é um imperativo existencial e histórico. A desesperança é imobilizadora da ação, faz crer no fatalismo de que não é possível mudar ou recriar o mundo. Mas à esperança é preciso juntar a consciência e ação crítica, porque a “[...] esperança é necessária mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia” (p. 05). Por isso a esperança precisa apoiar-se em uma práxis. “Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica” (p. 05).

            É preciso sempre alimentar a esperança de que a mudança é possível. De que as injustiças, as desigualdades, a miséria, possam um dia senão desaparecer completamente, ao menos ser amenizada ou corrigida. Não podemos também nos acomodarmos, usando como pretexto a desesperança, e compactuarmos ainda que indiretamente com os escândalos e problemas sociais que nos afetam diretamente. Por isso a Pedagogia da Esperança é também um reencontro com a Pedagogia do Oprimido.

 

[... ] é um livro assim, escrito com raiva, com amor, sem o que não há esperança. Uma defesa da tolerância, que não se confunde com a conivência, da radicalidade; uma crítica ao sectarismo, uma compreensão da pós-modernidade progressista e uma recusa à conservadora, neoliberal (p. 06).

 

            É também um reencontro com a  Pedagogia do Oprimido  pois nesta obra Freire relembra momentos que marcaram sua experiência com o exílio, os fatos, projetos, experiências, “de sonhos rasgados mas não desfeitos” (p. 06), de novos fatos, novas tramas, novos saberes. De esperança de que a mudança é possível e crença em um sonho possível e na utopia, desde que aqueles que fazem a história assim o queiram.

 

            Depois de suas “Primeiras Palavras” Paulo Freire inicia a obra relatando um pouco de sua própria biografia. Faz um relato sucinto do momento em que decidiu abandonar a carreira de advogado para assumir um cargo no SESI – Serviço Social da Indústria –, na Divisão de Educação e Cultura, fato que, segundo ele, proporcionou um

 

[...] campo de experiência, de estudo, de reflexão, de prática se constitui como um momento indispensável à gestação da Pedagogia do oprimido [...] A Pedagogia do oprimido não poderia ter sido gestada em mim só por causa de minha passagem pelo SESI, mas a minha passagem pelo SESI foi fundamental. Diria até que indispensável à sua elaboração. Antes mesmo da Pedagogia do oprimido, a passagem pelo SESI tramou algo de que a Pedagogia foi uma espécie de alongamento necessário. Refiro-me à tese universitária que defendi na então Universidade do Recife, depois Federal de Pernambuco: Educação e atualidade brasileira que, no fundo, desdobrando-se em Educação como prática da liberdade, anuncia a Pedagogia do oprimido (p. 09).

 

            Foi a experiências com filhos e filhas de trabalhadores rurais e urbanos, a convivência com suas dificuldades e possibilidades de vida, as conversas que teve com pescadores e pais de família, que abriu os horizontes de Freire para as desigualdades sociais e de como a sociedade está estruturada a partir de uma contradição entre opressores e oprimidos.

            Nesta época também surgem as preocupações com o tema da democratização da escola pública, da reprodução de uma ideologia autoritária nas escolas que tem início na própria família, da aprendizagem mecanicista, da relação entre autoridade e liberdade, do castigo e do prêmio em educação.

            Freire relata ainda dois episódios que marcaram de tal forma sua pessoa que o acompanharam por toda sua vida. Uma se refere a fala de um operário em uma de suas palestras. De como a fala desse operário marcou profundamente seu saber sobre as desigualdades sociais e de como tais desigualdades se refletem em vidas tão diferentes como a dele, Paulo Freire, e o operário.

 

[...] veja, doutor, a diferença. O senhor chega em casa cansado. A cabeça até que pode doer no trabalho que o senhor faz. Pensar, escrever, ler, falar esses tipos de fala que o senhor fez agora. Isso tudo cansa também. Mas – continuou– uma coisa é chegar em casa, mesmo cansado, e encontrar as crianças tomadas banho, vestidinhas, limpas, bem comidas, sem fome, e a outra é encontrar os meninos sujos, com fome, gritando, fazendo barulho. E a gente tendo que acordar às quatro da manhã do outro dia pra começar tudo de novo, na dor, na tristeza, na falta de esperança. Se a gente bate nos filhos e até sai dos limites não é porque a gente não ame eles não. É porque a dureza da vida não deixa muito pra escolher (p. 13-14).

 

            A Pedagogia do Oprimido é a teoria “embutida” na prática, da experiência deste episódio “cuja memória eu trouxera para o exílio, ao lado da lembrança de outras tantas tramas vividas” (p. 14).

            É nesta obra que vamos encontrar umas das mais célebres ideias do autor, de que a educação sozinha não transforma o mundo, mas esta a implica. De que é preciso se alimentar de esperança para refazer o mundo em luta com os oprimidos. A esperança de quem viveu exilado e durante anos sentiu saudade de casa e a esperança de retornar a ela. “Paixão, saudade, tristeza, esperança, desejo, sonhos rasgados, mas não desfeitos, ofensas, saberes acumulados, nas tramas inúmeras vividas, disponibilidade à vida, temores, receios, dúvidas, vontade de viver e de amar. Esperança, sobretudo” (p. 18).

            A luta com os oprimidos é uma das tarefas da educação popular e democrática da Pedagogia da Esperança, possibilitando às classes populares a imersão na sua realidade por meio da linguagem e, nesse sentido, a linguagem se torna caminho de invenção da cidadania. Tarefa a que Paulo Freire se propôs quando da sua experiência como assessor do Instituto de Desarollo Agropecuario, do Ministerio da Educación, da Corporación de la Reforma Agraria, que permitiu a Freire viajar por quase todo o Chile, ouvindo e debatendo nos assentamentos de reforma agrária com camponeses, agrônomos, técnicos agrícolas quando discutiam o direito à terra, à liberdade de produzir, de viver decentemente, de ser respeitados como gente e como trabalhadores. Freire se ocupa ao longo de várias páginas de sua experiência de 4 anos e meio no Chile que, como ele mesmo afirma, lhe permitiu um profundo aprendizado e como essa experiência contribuiu para amadurecer em sua mente a ideia de uma educação popular democrática com as massas populares. “Tenho ainda hoje, na memória, bem vivos, retalhos de discursos de camponeses, de afirmações, de expressões de legítimos desejos de melhora, de um mundo mais bonito ou menos feio, menos arestoso, em que se pudesse amar” (p. 21).

            E assim os saberes que foram construídos criticamente desde o tempo da experiência no SESI se consolidam na prática chilena e a Pedagogia do Oprimido ia se transformando na Pedagogia da Esperança: a esperança de viver em um mundo melhor, onde homens e mulheres se encontrem em processo permanente de libertação.

 

            A Pedagogia da Esperança reafirma a posição assumida na Pedagogia do Oprimido 25 anos depois. Pedagogia do oprimido que estava em processo de redação no período de exílio no Chile cujas ideias são retomadas na Pedagogia da esperança “para re-ver, re-pensar, para re-dizer” (p. 28). Por isso Paulo Freire relembra os tempos de exílio no Chile, na companhia de Marcela Gajardo e José Luiz Fiori. Memórias que são ainda importantes para a compreensão e leitura do mundo. E ao reviver suas memórias Paulo Freire traz à tona também sua experiência nos Estados Unidos: a primeira visita e palestra em 1967, como uma sugestão de Ivan Ilich para quem as ideias de Paulo Freire eram parecidas com o que alguns educadores americanos faziam em Nova York com a população negra e porto-riquenha.

 

Em minhas andanças e visitas aos diferentes centros que mantinham em áreas de Nova York, pude comprovar, re-vendo, comportamentos que expressavam as “manhas” necessárias dos oprimidos. Vi e ouvi coisas em Nova York que eram "traduções" não apenas lingüísticas, naturalmente, mas sobretudo emocionais de muito do que ouvira no Brasil e mais recentemente estava ouvindo no Chile. A razão de ser do comportamento era a mesma, mas a forma, o que chamo de "roupagem", e o conteúdo eram outros (p. 28).

 

            Paulo Freire relembra os diálogos com Elza, sua esposa, primeira leitora da Pedagogia do Oprimido e ouvinte crítica e atenciosa. E como a Pedagogia do Oprimido chegou ao Brasil antes mesmo de ser publicada em português. Como conseguiu através de um professor e conseilleur national suíço (na época em que já estava em Genebra), fazer chegar às mãos de Fernando Gasparian, diretor da Paz e Terra (editora que futuramente publicaria a obra em português) o texto escrito no original.

            Paulo Freire relembra alguns fatos que o levaram a refletir sobre a obra Pedagogia do Oprimido, como algumas cartas recebidas que questionavam uma certa linguagem “machista” de Paulo Freire, no sentido de que ele sempre se referia aos “homens” lutando pela sua libertação e nunca às mulheres, ou seja, não havia lugar para as mulheres.

 

Me lembro como se fosse agora que estivesse lendo as duas ou três primeiras cartas que recebi, de como, condicionado pela ideologia autoritária, machista, reagi [...] mas, ao ler as primeiras críticas que me chegavam, ainda me disse ou me repeti o ensinado na minha meninice: “Ora, quando falo homem, a mulher necessariamente está incluída”. Em certo momento de minhas tentativas, puramente ideológicas, de justificar a mim mesmo, a linguagem machista que usava, percebi a mentira ou a ocultação da verdade que havia na afirmação: “Quando falo homem, a mulher está incluída" [...] Escrevi então, a todas, uma a uma, acusando suas cartas e agradecendo a excelente ajuda que me haviam dado. Daquela data até hoje me refiro sempre a mulher e homem ou seres humanos. Prefiro, às vezes, enfeiar a frase explicitando, contudo, minha recusa à linguagem machista. Agora, ao escrever esta Pedagogia da esperança, em que repenso a alma e o corpo da Pedagogia do oprimido, solicitarei das casas editoras que superem a sua linguagem machista (p. 35).

 

            Com isso Paulo Freire se dá conta o quanto a linguagem tem de ideologia e como é necessário recriar a linguagem em uma sociedade que pretende pôr um fim na ideologia machista. Se a ideia é uma transformação radical da sociedade essa transformação deve ocorrer também no campo da ideologia, apagando todos os resquícios de um passado patriarcal e machista e de dominação e subjugação da mulher. Para o mundo mudar radicalmente a linguagem deve acompanhar essa mudança e mudar o mundo inclui neste processo a mudança da linguagem.

 

            Algumas considerações são feitas ao longo da obra de críticas recebidas por Paulo Freire sobre seu pensamento pedagógico e das quais algumas de suas principais ideias estão contidas na Pedagogia do Oprimido (a obra Pedagogia da Esperança contém, inclusive, algumas citações daquela que Freire retoma para rebater as críticas recebidas). Algumas dessas críticas são pertinentes, como a do caso da “linguagem reprodutora do machismo” mencionada mais acima. Outras são leituras mal feitas de seu pensamento, seu método e de seus textos de quem: “me leu mal, incompetentemente, ou não me leu” (p. 44). E Freire segue analisando algumas dessas críticas, como as direcionadas à questão da subjetividade, dos conteúdos programáticos da escola, da valorização do saber do aluno, do saber popular, a relação entre o saber local e o saber nacional, o saber científico, bem como críticas marxistas endereçadas à Freire, como a que “estranhava que eu não fizesse referência às classes sociais, que eu não tivesse afirmado, sobretudo, que a ‘luta de classes é o motor da história’. Estranhava que, em lugar de classes sociais, eu trabalhasse com o conceito vago de oprimido” (p. 46).

            Ao responder as objeções feitas quanto ao papel da luta de classes como “motor da história”, Paulo Freire se detém um pouco mais na reflexão sobre o papel das classes trabalhadoras cuja motivação deve ser provocar um novo tipo de relação com as classes dominantes. A luta de classes não é algo que se aprende em um curso de especialização, mas no momento histórico e na cotidianidade da vida (como o momento histórico vivido no período em que fora escrita a Pedagogia do Oprimido). O que não significa dizer que o aprendizado das lutas operárias não possa acontecer através de cursos teórico-práticos de formação de lideranças operárias.

            Além disso a luta de classes, como projeto, não elimina o sonho e a esperança, pois o futuro libertador com o qual sonhamos não é inexorável e não está determinado. Antes devemos refazê-lo, produzi-lo, transformá-lo. E a educação tem um papel fundamental neste ponto: não só a educação escolar, mas uma educação das massas, uma educação popular que possibilite a passagem de uma “consciência ingênua” para uma “consciência crítica”.

 

É neste sentido que volto a insistir na necessidade imperiosa que tem o educador ou educadora progressista de se familiarizar com a sintaxe, com a semântica grupos populares, de entender como fazem eles sua leitura do mundo, de perceber suas “manhas” indispensáveis à cultura de resistência que se vai constituindo e sem a qual não podem defender-se da violência a que estão submetidos (p. 55).

 

            Uma educação popular que possa ser aplicada em cooperativas, na atividade sindical, na mobilização e organização de uma comunidade. Oferecer educação ao povo que não seja puro treinamento técnico e que só interessa à classe dominante. A formação técnica é uma prioridade sem dúvida

 

mas, a seu lado, há outra prioridade que não pode ser posta à margem. O operário que está aprendendo, por exemplo, o oficio de torneiro, de mecânico, de pedreiro, de marceneiro, tem o direito e a necessidade de aprendê-lo tão melhor quanto possível, mas tem, igualmente, o direito de saber a razão de ser do próprio procedimento técnico. Tem o direito de conhecer as origens históricas da tecnologia, assim como o de tomá-la como objeto de sua curiosidade e refletir sobre o indiscutível avanço que ela implica mas, também, sobre os riscos a que nos expõe (p. 68)

 

            Paulo Freire cita até o filme de Charles Chaplin, Tempos Modernos, para tomar como exemplo a ideia de que o operário é visto apenas como um trabalhador que “aperta parafusos” e nada mais. Mas a formação da classe trabalhadora deve oferecer ao trabalhador a possibilidade de conhecer como a sociedade funciona, conhecer a história da classe operária e dos movimentos populares, ter consciência de seus direitos e deveres, conhecer “A história de seu país. A geografia, a linguagem ou, melhor dito, a compreensão crítica da linguagem, em suas relações dialéticas com pensamento e mundo; linguagem, ideologia, classes sociais e educação” (p. 68). Uma educação não dicotomizadora entre o técnico e o político.

            É preciso formar tanto engenheiro quanto pedreiros, médicos ou enfermeiros, educadores ou mecânicos, com uma compreensão clara de que somos seres históricos, políticos, sociais e culturais e com uma compreensão clara de como a sociedade funciona.

            Além das experiências vividas por Paulo Freire, no Brasil e no Chile, o autor destaca também algumas vivências na Europa e em outros países, onde o mesmo teve oportunidade de participar de encontros com estudantes, professores, operários, em países como Alemanha, Inglaterra, Holanda, Suécia, países da África, da Ásia, Austrália, Caribe e tantos outros. E de como a experiência que o levou a escrever a Pedagogia do Oprimido de alguma forma era confirmada pela convivência com fatos que marcaram os diferentes países pelos quais passou. Ao entrar em contato com a realidade dos trabalhadores imigrantes na Europa: italianos, espanhóis, gregos, turcos. A experiência da discriminação racial, de classe e de sexo nestes países. Experiências que confirmavam e reforçavam as teses fundamentais da Pedagogia do Oprimido. Freire relata também alguns diálogos vividos em Genebra, como o que teve com um cartunista brasileiro Claudius Ceccon ou com um operário espanhol vivendo a situação de imigrante na Suíça e os desafios que esta situação provoca, com destaque para os encontros que teve em Genebra por parte do Conselho Mundial das Igrejas. “Durante a década de 70, raro era o mês em que alguém, filho ou não da África do Sul, mas vivendo na África do Sul, passando por Genebra, não viesse falar comigo da experiência trágica e absurda, impensável, do racismo” (p. 73). Eram pessoas que procuravam Freire após a leitura da Pedagogia do Oprimido e que pediam para conversar com ele sobre as ideias presentes na obra.

 

Os depoimentos que ouvi de sul-africanos e sul-africanas [...] me chocaram e continuam a chocar ainda hoje quando os rememoro como agora. A brutalidade do racismo é algo com que dificilmente um mínimo de sensibilidade humana pode conviver sem se arrepiar ou dizer que horror! (p. 74 – grifo do autor).

 

            Eram conversas que falavam da relação colonizador-colonizado, branquitude-negritude, que poderia igualmente ser expressa através da relação opressor-oprimido e por isso a procura para conversar com o autor da obra Pedagogia do Oprimido. E Paulo Freire afirma nunca haver negado um pedido desses. Sempre que o procuravam com um pedido similar, ele sempre marcava em sua agenda um horário que pudesse conversar sobre as ideias de seu livro.

            Freire fala também das visitas que fez à África: Zâmbia, Tanzânia, Luanda, Moçambique. Dos seminários para os quais foi convidado para falar da Pedagogia do Oprimido em universidades, grupos de estudos. Um desses encontros com o MPLA – Movimento para a Libertação da Angola –, onde pôde conversar sobre educação e luta, alfabetização nas áreas libertadas, prática educativa, guerras, formação técnica dos militantes. Foi por causa da Pedagogia do Oprimido que Freire recebeu tantos e inúmeros convites. A Pedagogia do Oprimido chegava primeiro, preparando a ida de Paulo Freire que relembra alguns desses encontros agora, na Pedagogia da Esperança:

 

“Há poucos anos”, dizia um professor tanzaniano, ao vir comigo ao bar do hotel em Dar [Tanzânia], “eu não poderia estar entrando neste bar, como o faço agora. As coisas eram diferentes. Incríveis os avisos em tabuletas expostas em nessas praias: Blacks and dogs, forbidden, Blacks and dogs, forbidden”, quase cantarolava baixinho, o meu antigo, professor da Universidade de Dar, junto à mesa do bar em frente a mim. “Blacks and dogs, forbidden”. Era como se, repetindo o mesmo discurso ofensivo do vergonhoso aviso, ele expressasse a justa ira de mulheres e de homens, mundo afora, em face do ultraje que o racismo significa (p. 76).

 

            Esse episódio relata, sob outra roupagem, a luta dos oprimidos africanos face aos seus opressores, em que o racismo esmaga e dilacera vida, desumanizando-as, no sentido mesmo abordado pela Pedagogia do Oprimido: uma desumanização que é distorção da vocação ontológica de homens e mulheres, independentemente de cor, raça ou sexo. E o tema do racismo voltou a estar no centro das atenções dos seminários que Freire participou também no Estados Unidos, percorrendo doze estados à convite de lideranças religiosas ligadas ao Conselho Mundial de Igrejas, onde mais uma vez Paulo Freire se viu diante do racismo não apenas como tema de discussão, mas de uma prática real e vívida, da qual ele mesmo presenciou algumas manifestações.

            A mesma situação aconteceu quando Freire visitou as ilhas do Caribe. “Mais uma vez, a leitura da Pedagogia do oprimido e a aplicação de algumas de suas sugestões me traziam ao campo onde me defrontava quase sempre com problemas idênticos, mas ‘vestidos’, como costumo dizer, com ‘roupa’ diferente” (p. 81). Sobre os episódios ocorridos no Caribe Freire destaca três momentos ricos de experiências: sua proibição de entrar no Haiti (p. 81) sob influência da embaixada brasileira em Port-au-Prince, na República Dominicana (p. 81-83) com um grupo de educação popular ligado à Igreja Católica onde ouviu depoimentos sobre trabalhos em áreas camponesas e urbanas e a visita à ilha de Dominica (p. 83-84). Em seu retorno ao Caribe por volta da década de 1980 Freire fala de suas experiências em Grenada (p. 85-89).

            Nos inúmeros países que Paulo Freire visitou estava sempre acompanhado das reflexões da Pedagogia do Oprimido: discussões, indagações, críticas refutadoras, análises, esclarecimentos. Em cada país uma nova oportunidade de discutir e defender a libertação dos oprimidos de sua condição desumanizante, recusando posições dogmáticas e sectárias, compreendendo a história como luta e possibilidade de transformação, discussões sobre temas como educação, democracia, identidade cultural, ideologia, classes sociais e até Teologia da Libertação, como ocorreu na Austrália (p. 92).

            Por fim Paulo Freire relembra algumas de  suas experiências na Argentina, no Chile e em El Salvador, sendo que as experiências vividas no Chile teriam sido, segundo ele, a que mais vivas marcas deixou em seu espírito, por certo pelo fato de não ter sido apenas uma palestra ou seminário de alguns dias como na maioria dos países, mas por ter vivido uma experiência cotidiana como consequência do seu exílio. Paulo Freire destaca alguns momentos como uma reunião com um grupo de educadores e educadoras marxistas onde foram debatidos questões em torno da luta de classes, o idealismo freireano por acreditar no diálogo o que dava à Pedagogia do Oprimido um certo ar igualmente idealista; o seu com Jorge Fiori em uma “invasão de terra” chamada Población Nueba Habana, onde Freire afirmar ter vivido e sentido

 

de perto a capacidade de organização e de governo das classes populares. A sabedoria com que a liderança não só detectava os problemas mas também com que os debatia com a população inteira da quase cidade. Nada se fazia na vida coletiva da "cidade" que não fosse submetido ao debate de todos. Acreditavam na democracia que estavam construindo juntos, no direito "popular” que começavam a codificar, na educação igualmente popular, progressista, democrática, a que iam dando forma. Acreditavam na solidariedade individual e social em que se sentiam e se sabiam crescendo (p. 97).

 

            A Pedagogia do Oprimido era o centro da trama destes encontros e vivências que são relembradas nas páginas da Pedagogia da Esperança.

 

Educação e Política → Paulo Freire → Pedagogia da Esperança (Resenha)