Regionalismo: estudo literário, artístico, histórico e de crítica social

Regionalismo: estudo literário, artístico, histórico e de crítica social

por Alexsandro M. Medeiros

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            Neste texto vamos dar ênfase a uma certa interpretação da literatura regionalista que, intencionalmente ou não, traduz peculiaridades locais, expressando os traços do momento histórico e da realidade social; nela, o local é abordado com amplitude e, por essa razão, podemos falar de um regionalismo que põe o seu foco em determinada região do Brasil, visando retratá-la.

            Não é nossa intenção entrar no debate contemporâneo de situar apenas o regionalismo como uma literatura produzida no período de 1880 até a primeira metade do século XX[1], um regionalismo romantizado, como afirma Antônio Cândido (1967), ou entrar na discussão da problematização em torno da perspectiva regionalista de autores contemporâneos que impõe que essa visão seja revista: não apenas a própria história do regionalismo no Brasil, mas também, e, sobretudo, os diferentes paradigmas de interpretação crítica dessa produção. Adotamos o ponto de vista de Ligia Chiappini, segundo a qual,

 

[...] o regionalismo, que setores da crítica literária brasileira consideravam uma categoria ultrapassada, continua presente e, até mesmo [...] tomado tema de pesquisas muito atuais, ganhando uma amplitude maior na intersecção dos estudos literários e artísticos, históricos e etnológicos (1995, p. 153).

 

            Na nossa interpretação do regionalismo na literatura brasileira sabemos que não podemos desconsiderar a origem do regionalismo no Romantismo aliado ao processo de formação da história literária brasileira e sua ligação com a representação da identidade nacional. Mas vamos considerar acima de tudo o regionalismo como instrumento de afirmação nacional/regional, crítica social, investigação da dimensão psicológica do componente nativista que lhe serviu como definição desde seu surgimento e o seu lastro com o real como necessidade fundadora e tributário do subdesenvolvimento econômico e social do país.

            O Brasil, que tem uma vasta dimensão territorial e tendo sido povoado por diferentes culturas (europeus, africanos e os povos ameríndios que já habitavam a região) possui uma infinidade de regionalismos. Além disso, o povoamento do país ocorreu de forma desigual e em várias áreas diferentes e distantes entre si (litoral nordestino, região amazônica e interior mineiro, por exemplo). O traço cultural de cada região influenciou o próprio desenvolvimento idiomático do português, ao longo da história.

            Com toda esta riqueza cultural diversos autores começaram a traduzir as peculiaridades regionais em suas obras. Em alguns momentos tais autores expressavam a realidade social e momentos históricos de determinada localização ou apenas retratavam de forma romântica, idealista e exótica tais peculiaridades. É o que se costuma chamar de um regionalismo com tendência realista ou romântica.

            De maneira geral o regionalismo é uma expressão literária que valoriza peculiaridades locais, tanto no aspecto geográfico quanto cultural. Como afirma Afrânio Coutinho, toda obra de arte é regional quando apresenta como pano de fundo um lugar ou quando parece brotar desse local particular, e em um sentido mais restrito, Coutinho afirma ser regional uma obra que não somente é localizada numa região, como também retira a sua “substância real” das particularidades deste lugar, quer dizer, “do fundo natural – clima, topografia, flora, fauna etc. [...] [e] das maneiras peculiares da sociedade humana estabelecida naquela região e que a fizeram distinta de qualquer outra” (COUTINHO, 1955, p. 146-7). O regionalismo “se manifesta em vários momentos da história do sistema literário nacional, agregando ao seu conceito noções como ‘localismo’, ‘pitoresco’ e ‘bairrismo’” (ARAÚJO, 2008, p. 119).

            Portanto, devemos pensar o regionalismo literário brasileiro não apenas sob a perspectiva no âmbito de uma manifestação estética. Estiveram associadas a ele manifestações políticas e sociais, tendo que ser analisado como uma das etapas históricas do Brasil[2]. Uma parcela considerável dos textos escritos por brasileiros de fins do século XIX e início do século XX se refere ao meio rural (seja na abordagem dos índios, negros, do sertanejo[3]), ao qual o regionalismo literário está vinculado historicamente, embora seja necessário considerar o significado dos textos vindos das diversas regiões na segunda metade do século XX, chegando aos dias atuais e, nesse caso, também é possível falar de um regionalismo urbano, principalmente a partir da década de 1950 quando se viu surgir uma realidade brasileira de concentração populacional em metrópoles (com o êxodo rural) que trouxe uma complexidade nas relações sociais ainda não vista nas cidades brasileiras.  É natural que esta mudança tenha gerado alterações significativas na forma de construção literária, tendo em conta que boa parte da literatura é devedora imediata da composição social, concebido por uma literatura que aborda conflitos de pequenas regiões metropolitanas.

            Uma das propostas de revisar os caminhos percorridos pela literatura regionalista brasileira à luz de motivações sócio-econômicas que determinaram diferentes contextos políticos no Brasil é de Ligia Chiappini (1994). O processo de modernização do país encontrou eco na literatura regionalista como uma crítica aos traços marginalizados do habitante interiorano de um homem que se mostra como um contraponto do desenvolvimento sendo o regionalismo um posicionamento de aceitação ou recusa das transformações sociais deste período, diante do novo, do processo de modernização do país, a partir de uma reação intelectual que tentou buscar na figura tradicional do habitante interiorano o representante de feições perdidas com o progresso e buscar no interior do país a imagem que representasse o sentido da nacionalidade.

            A construção do regionalismo como discurso crítico foi tocada por razões políticas desde o momento da passagem, no Brasil, do Império para a República. Desde o seu surgimento o regionalismo operou uma valorização tanto estética quanto moral e social das tradições populares e fez crescer o debate sobre as identidades regionais e inclusive sobre a identidade nacional.

            Além disso, o regionalismo é uma forma literária tributária do subdesenvolvimento econômico, marcado por traços distintivos, tanto do ponto de vista sócio-econômico, quanto da perspectiva simbólica, cultural e imaginária de sua configuração e, por isso, alguns estudiosos afirmam que atualmente o mesmo sustenta-se na incorporação estética de regiões em que a Globalização não se realizou de modo homogêneo. Por isso vários teóricos caracterizam o regionalismo por uma certa tendência que se nutre da tensão dialética (para um melhor entendimento do que seja a dialética veja a seção ue fala sobre o filósofo alemão Karl Marx) entre o local e o universal, o particular e o geral (ARAÚJO, 2008; CANDIDO, 1987; PELLEGRINI, 2008). Enquanto houver subdesenvolvimento, afirma Antônio Cândido, haverá novas manifestações regionalistas que manifestam a seu modo, contradições, ressentimentos, desigualdades e lutas políticas, embora a questão do subdesenvolvimento não seja suficiente para explicar o regionalismo e que outras características não exclusivamente econômicas o determinam interna e externamente.

 

 

Dez teses sobre o regionalismo na literatura[4]

 

1. A obra literária regionalista tem sido definida como “qualquer livro que, intencionalmente ou não, traduza peculiaridades locais”, definição que alguns tentam explicitar enumerando tais peculiaridades (“costumes, crendices, superstições, modismo”) e vinculando-as a uma área do país: “regionalismo gaúcho”, “regionalismo nordestino”, “regionalismo paulista” etc. Tomado assim, amplamente, pode-se falar tanto de um regionalismo rural quanto de um regionalismo urbano. No limite, toda obra literária seria regionalista, enquanto, com maiores ou menores mediações, de modo mais ou menos explícito ou mais ou menos mascarado, expressa seu momento e lugar.

Historicamente, porém, a tendência a que se denominou regionalista em literatura vincula-se a obras que expressam regiões rurais e nelas situam suas ações e personagens, procurando expressar suas particularidades linguísticas.

2. Há quem vincule o regionalismo literário à tradição greco-latina do idílio e da pastoral. Mas é em meados do século XIX, com George Sand, na França, Walter Scott, na Inglaterra e Berthold Auerbach, na Alemanha, que essa tradição é retomada na forma de romance regionalista que, daí para a frente, começa a viver da tensão entre o idílio romântico e a representação realista, tentando progressivamente dar espaço ao homem pobre do campo, cuja voz busca concretizar paradoxalmente pela letra, num esforço de torná-la audível ao leitor da cidade, de onde surge e para a qual se destina essa literatura.

[...]

3. Regionalismo na literatura, como tema de estudo, constitui um desafio teórico, na medida em que defronta o estudioso com questões das mais candentes da teoria, da crítica e da história literárias, tais como os problemas do valor; da relação entre arte a sociedade; das relações da literatura com as ciências humanas; das literaturas canônicas e não-canônicas e das fronteiras movediças entre clãs. Estudar o regionalismo hoje nos leva a constatar seu caráter universal e moderno. Surgindo como reação ao iluminismo e à centralização do Estado-nação, hoje se reatualiza como reação à chamada globalização [...] nos faz considerar que a questão regional e a defesa das particularidades locais hoje se repõem com força, quanto mais não seja como reação aos riscos de homogeneidade cultural, à destruição da natureza e às dificuldades de vida e trabalho no “paraíso neoliberal”. (Por isso o regionalismo literário hoje, em muitos países, inclusive aqui, reaparece discutindo questões de identidade problemática e de ecologia.)

4. Com a modernização das técnicas agrícolas, o êxodo rural, o desenvolvimento das cidades e de uma literatura urbana, o regionalismo tem sido visto como ultrapassado, retrógrado, localismo estreito e reacionário tanto do ponto de vista estético quanto do ideológico. Essa crítica esquece, no entanto, que ele é um fenômeno eminentemente moderno e universal, contraponto necessário da urbanização e da modernização do campo e da cidade sob o capitalismo. Por isso, continua a existir e a dar frutos como uma corrente temático-formal [...]

5. Do ponto de vista dos estudos literários, o regionalismo é uma tendência temática e formal que se afirma de modo marginal à “grande literatura”, confundindo-se freqüentemente com a pedagogia, a etnologia e o folclore. Certos autores de textos de reconhecida qualidade estética não tinham intenção de ir além do testemunho, do registro de contos e lendas orais, ou, quando muito, de fazer história [...].

Os críticos costumam menosprezar o regionalismo por essa impureza, julgando-o também conservador tanto do ponto de vista estético quanto do ponto de vista ideológico [...].

6. É compreensível o esforço da crítica para excluir da tendência os grandes autores, já que nela o número de obras literariamente menos expressivas talvez seja maior que em outras, porque é proporcional ao grau de dificuldade que a especificidade da empresa do regionalismo literário implica. O argumento da crítica para assim fazer é que a qualidade literária de suas obras os elevaria do regional ao universal. Mas freqüentemente ela esquece que é o seu espaço histórico geográfico,
entranhado e vivenciado pela consciência das personagens, que permite concretizar o universal [...]

7. Só se pode sustentar que um Faulkner ou um Guimarães Rosa são regionalistas, se entendermos que o regionalismo, como toda tendência literária, não é estático. Evolui. É histórico, enquanto atravessa e é atravessado pela história [...].

8. É importante distinguir o regionalismo como movimento político, cultural e, mesmo, literário, das obras que decorrem deste direta ou indiretamente. Muitas vezes programa e obra mantêm uma relação tensa, quando não se contradizem abertamente, exigindo uma análise das distintas mediações que relacionam a obra literária com a realidade natural e social. O regionalismo, lido como movimento, período ou tendência fechada em si mesma num determinado período histórico em que surgiu ou alcançou maior prestígio, é empobrecedor: um ismo entre tantos. O regionalismo lido como uma tendência mutável onde se enquadram aqueles escritores e obras que se esforçam por fazer falar o homem pobre das áreas rurais, expressando uma região para além da geografia, é uma tendência que tem suas dificuldades específicas, a maior das quais é tornar verossímil a fala do outro de classe e de cultura para um público citadino e preconceituoso que, somente por meio da arte, poderá entender o diferente como eminentemente outro e, ao mesmo tempo, respeitá-lo como um mesmo: “homem humano”.

9. O defeito que muitas vezes a crítica aponta no escritor regionalista, do pitoresco, da cor local, do descritivismo, foi a seu tempo uma dura conquista. [...] o grande escritor regionalista é aquele que sabe nomear; que sabe o nome exato das árvores, flores, pássaros, rios e montanhas. Mas a região descrita ou aludida não é apenas um lugar fisicamente localizável no mapa do país. O mundo narrado não se localiza necessariamente em uma determinada região geograficamente reconhecível, supondo muito mais um compromisso entre referência geográfica e geografia ficcional.

Trata-se, portanto, de negar a visão ingênua da cópia ou reflexo fotográfico da região. Mas, ao mesmo tempo, de reconhecer que, embora ficcional, o espaço regional criado literariamente aponta, como portador de símbolos, para um mundo histórico-social e uma região geográfica existentes. Na obra regionalista, a região existe como regionalidade e esta é o resultado da determinação como região ou província de um espaço ao mesmo tempo vivido e subjetivo, a região rural internalizada à ficção, momento estrutural do texto literário, mais do que um espaço exterior a ele.

10. Se o local e o provincial não são vistos como pura matéria mas como modo de formar, como perspectiva sobre o mundo, a dicotomia entre local e universal se torna falsa. O importante é ver como o universal se realiza no particular, superando-se como abstração na concretude deste e permitindo a este superar-se como concreto na generalidade daquele. Desse modo, as “peculiaridades regionais” alcançam uma existência que as transcende. Assim, espaço fechado e mundo, ao mesmo tempo objetivos e subjetivos, não necessitam perder sua amplitude simbólica. A função da crítica diante de obras que se enquadram na tendência regionalista é, por isso, indagar da função que a regionalidade exerce nelas; e perguntar como a arte da palavra faz com que, através de um material que parece confiná-las ao beco a que se referem, algumas alcancem a dimensão mais geral da beleza e, com ela, a possibilidade de falar a leitores de outros becos de espaço e tempo, permanecendo, enquanto outras (mesmo muitas que se querem imediatamente cosmopolitas, urbanas e modernas) se perdem para uma história permanente da leitura.

 

 

Referências Bibliográficas

 

ARAÚJO, Humberto Hermenegildo. A tradição do regionalismo na literatura brasileira: do pitoresco à realização inventiva. Revista Letras, Curitiba, n. 74, jan/abr, 2008, p. 119-132.

CANDIDO, Antônio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

____. Literatura e cultura de 1900 a 1945. In: Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 7. ed. São Paulo: Nacional, 1967, pp. 131-165.

CHIAPPINI, Ligia. Do beco ao belo: Dez teses sobre o regionalismo na literatura. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995, p. 153-159.

____. Velha praga? Regionalismo literário brasileiro. In: PIZZARRO, Ana. (Org.). América latina: palavra, literatura e cultura. São Paulo: Memorial; Campinas: Editora da UNICAMP, 1994. p. 665-702. v. 2.

COUTINHO, Afrânio. O regionalismo na prosa de ficção. In: A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: São José, 1955, pp. 145-226. vol. II.

PELLEGRINI, Tânia. Despropósitos: estudos de ficção brasileira contemporânea. São Paulo: Annablume; FAPESP, 2008.

 

 


[1] Através das obras A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, Inocência, de Visconde de Taunay, O Sertanejo, de José de Alencar e as poesias indianistas de Gonçalves Dias, por exemplo. O regionalismo também pode ser visto metamorfoseado no Romance de 30 de escritores como o baiano Jorge Amado, o gaúcho Erico Verissimo, o paraibano José Lins do Rego e o alagoano Graciliano Ramos. Aqui, o autor realista descreve sua terra e sua gente não com exaltação, mas de maneira mais centrada e reflexiva, numa tentativa de compreender o momento presente, as desigualdades sociais, a formação da elite etc. Traços de regionalismo também podem ser observados entre os Modernistas, ao buscar no interior do país a síntese do próprio Brasil. Como é o caso de Macunaíma, de Mário de Andrade, que transpõe a linguagem do brasileiro – no caso, do nortista e do nordestino – com termos indígenas e expressões populares.

[2] Nesse sentido, podemos considerar o regionalismo com traços de uma certa Literatura Engajada, ainda que de forma não intencional.

[3] Autores sertanistas cujo foco de suas obras está no sertão, em oposição à cidade, focalizando o homem do sertão e fazendo deste o símbolo do autêntico brasileiro. São vários os romances que tematizam o cangaço e o banditismo originário das peculiaridades do Nordeste: a seca, o latifúndio, a miséria. As grandes obras nacionais sobre o cangaço, contudo, só iriam ser escritas no século 20: “Cangaceiros”, de José Lins do Rego, e “Seara Vermelha”, de Jorge Amado. Este último, marcado por um caráter de propaganda comunista (o autor era filiado ao Partido Comunista Brasileiro, pelo qual foi deputado), apresenta o cangaceiro como um herói revolucionário.

[4] Reproduzido de: CHIAPPINI, 1995, p. 155-158.

 

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