Tipologias da Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em dez. 2017

            Veja as imagens abaixo para entender como os tipos de pesquisa se dividem quanto à sua natureza ou origem, abordagem, objetivos ou  níveis (imagem 1), procedimentos ou delineamento (imagem 2) e métodos (imagem 3).

            Quanto à natureza as pesquisas se dividem em pura e aplicada. A pesquisa pura é um tipo de pesquisa teórica sem uma preocupação direta com suas aplicações e consequências práticas, que é o que a distingue da pesquisa aplicada, orientada para uma aplicação prática.

              Quanto à abordagem as pesquisas si dividem em quantitativa, qualitativa e quanti-qualitativa.

          A pesquisa quantitativa parte do pressuposto de que é possível mensurar ou quantificar um determinado fenômeno. Uma outra principal característica além da mensuração é a objetividade. “A objetividade [...] trata da usual aplicação de modelos matemáticos e estatísticos para análise dos resultados experimentais, sejam eles obtidos por meio de um ensaio de laboratório, de um questionário ou entrevista que envolva variáveis quantificáveis” (CASARIN; CASARIN, 2012, p. 37).

            A pesquisa qualitativa, nas Ciências Sociais, “trabalha com o universo de significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes. Esse conjunto de fenômenos humanos é entendido aqui como parte da realidade social, pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações dentro e a partir da realidade vivida e partilhada com seus semelhantes” (MINAYO, 2009, p. 21). A pesquisa qualitativa é difícil de ser traduzida em números e indicadores quantitativos pois trabalha com o mundo das relações humanas, de suas representações, significados e intencionalidades, aos quais é necessário sempre um processe hermenêutico-interpretativo por parte do pesquisador. Devido a complexidade histórica e social do objeto de pesquisa nas ciências sociais, não é incomum haver uma multiplicidade de opiniões acerca de um mesmo fenômeno em função da subjetividade presente nos resultados e análises dos dados, da forma como alguns fatos são interpretados, já que a diversidade de interpretações é uma consequência direta da subjetividade presente na pesquisa. Os instrumentos mais comuns para coleta de dados nesse tipo de pesquisa são: observação, entrevista, estudos de caso, grupos focais, etnografia.

            Quando a abordagem qualitativa procura trabalhar com dados estatísticos tem-se a intenção de representar em números uma determinada realidade social e, nesse caso, temos uma pesquisa de tipo quanti-qualitativa.  

              Quanto aos objetivos, que Gil (1987, p. 44-46) também chama de níveis da pesquisa, as pesquisas se dividem em: exploratórias, descritivas e explicativas.

            A pesquisa exploratória corresponde a “uma pesquisa preparatória acerca de um tema pouco explorado ou, então, sobre um assunto já conhecido, visto sob nova perspectiva, e que servirá como base para pesquisas posteriores” (CASARIN; CASARIN, 2012, p. 40) ou, ainda, quando o próprio pesquisador precisa explorar melhor um determinado fenômeno par aprofundar seu estudo em análises posteriores. “A pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses” (DIEHL, TATIM, 2004, p. 53).

            A pesquisa descritiva tem como objetivo principal a descrição de um determinado objeto de estudo, como descrever as características de um determinado grupo de acordo com os parâmetros de sexo, idade, nível de escolaridade etc., ou pesquisas eleitorais que visam descrever a preferência de um eleitorado.

            A pesquisa explicativa é aquela que procura “identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos” (GIL, 1989, p. 46), procura explicar a razão e o porquê das coisas.

            Quanto aos procedimentos que também podem ser chamados de delineamento da pesquisa (GIL, 1987, p. 71-78), embora a primeira nomenclatura seja mais exata, as pesquisas se dividem em:

            A pesquisa bibliográfica utiliza como base as teorias já publicadas em livros, artigos científicos, dissertações de mestrado, teses de doutorado. “Na pesquisa bibliográfica o investigador irá levantar o conhecimento disponível na área, identificando as teorias produzidas, analisando-as e avaliando sua contribuição para auxiliar a compreender ou explicar o problema objeto da investigação” (KÖCHE, 2015, p. 122). A pesquisa bibliográfica ajuda a ampliar o conhecimento sobre um determinado objeto de pesquisa, a ter um maior domínio e conhecimento sobre o assunto, descrever o estado da arte, daquele momento, do tema em questão.

            A pesquisa documental, à maneira da pesquisa bibliográfica, se atém a material impresso ou digital, com a diferença de que a pesquisa documental baseia-se em material ainda não publicado ou documentos oficiais como reportagens de jornais, relatórios de empresas, publicações em diários oficiais, fotografias, filmes.

            A pesquisa experimental, como o próprio nome sugere, trabalha com a experimentação científica para observar um determinado fenômeno, analisar as variáveis envolvidas, construir hipóteses e corroborar (ou não) teorias.

            A pesquisa ex post facto, à maneira da pesquisa experimental, realiza procedimentos semelhantes ao da experiência, só que “depois dos fatos” e, via de regra, de modo espontâneo, já que o pesquisador não controla o experimento e o observa após ter sido concretizado. Diehl e Tatim (2004, p. 59) ressaltam como os procedimentos lógicos de delineamento da pesquisa ex-post-facto são semelhantes aos da pesquisa experimental, com a diferença de que no primeiro caso “são tomadas como situações experimentais situações que se desenvolveram naturalmente e trabalha-se sobre elas como se estivessem submetidas a controles”.

            A pesquisa participante caracteriza-se pela interação entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados. O pesquisador ao realizar o processo de observação participa, de alguma forma, no campo de pesquisa com o objeto investigado. Schmidt (2006) situa a pesquisa participante como uma variante da pesquisa etnográfica derivada da Antropologia (que veremos logo a seguir):

O termo participante sugere a controversa inserção de um pesquisador num campo de investigação formado pela vida social e cultural de um outro, próximo ou distante, que, por sua vez, é convocado a participar da investigação na qualidade de informante, colaborador ou interlocutor. Desde as primeiras experiências etnográficas, pesquisador e pesquisado foram, para todos os efeitos, sujeitos e objetos do conhecimento e a natureza destas complexas relações estiveram, e estão, no centro das reflexões que modelam e matizam as diferenças teórico-metodológicas (SCHMIDT, 2006, p. 14).

            A pesquisa ação tem a mesma característica da pesquisa participante, ou seja, se baseia na interação pesquisador-pesquisado, envolvidos de modo cooperativo e participativo, e “concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo” (DIEHL, TATIM, 2004, p. 62).

Michel Thiollent (1999), autor de referência no debate sobre metodologias qualitativas em ciências humanas, faz a distinção entre pesquisa participante e pesquisa-ação, valendo-se desta identificação da pesquisa participante com o modelo da observação participante praticado nas experiências inaugurais da investigação antropológica e etnográfica. Assim, se, por um lado, a pesquisa-ação constitui-se num tipo de pesquisa participante porque, em alguma medida, se serve da observação participante “associada à ação cultural, educacional, organizacional, política ou outra”, por outro, dela se separa quando focaliza “a ação planejada, de uma intervenção com mudanças dentro da situação investigada”, priorizando a participação do pólo pesquisado (THIOLLENT, 1999, pp. 83-84 apud SCHMIDT, 2006, p. 17).

 

Disponível em Slideplayer, slide 7 (Acesso em 03/12/2017)

            A pesquisa etnográfica tem origem na Etnografia (do grego ethnos, que significa nação e/ou povo e graphein, que significa escrita) e na Antropologia Social, onde o principal foco é o estudo da cultura e o comportamento de determinados grupos sociais, que envolve um exame aprofundado (intenso e prolongado) de tais comportamentos, costumes, crenças, entre outras coisas compartilhadas dentro daquela comunidade e que por isso consolidou a pesquisa participante como disciplina científica. Baseia-se no contato inter-subjetivo entre o pesquisador e o seu objeto, seja ele um grupo indígena ou qualquer outro grupo social sob o qual o recorte analítico seja feito. O etnógrafo se envereda em uma cultura ou situação social para explorar, coletar e analisar dados.

            Bronislaw Malinowski marcou a história da antropologia moderna ao escrever em 1922 o clássico estudo Os Argonautas do Pacífico Ocidental. Outros autores se destacam no campo da pesquisa etnográficas como: Gregory Bateson, James Clifford (2002), Clifford Geertz, Eduardo Viveiros de Castro.

            O estudo de caso é um estudo profundo e exaustivo de um objeto específico ou, no máximo, de alguns poucos objetos de modo a permitir uma compreensão mais detalhada sobre um determinado fenômeno. O estudo de caso tem a limitação de impossibilitar uma maior generalização sobre um determinado fenômeno, já que se limita a estudar um ou poucos objetos.

            A pesquisa por meio de levantamentos “se caracterizam pela interrogação direta das pessoas cujo comportamento se deseja conhecer [...] procede-se à solicitação de informações a um grupo significativo de pessoas do problema estudado” (GIL, 1989, p. 76) a partir das quais se reflete sobre os dados, mediante análise quantitativa, para se chegar a uma conclusão.

            Quanto ao método científico utilizado nas ciências sociais, Gil (1987, p. 28-36) divide em gerais e específicos: entre os gerais estão o método hipotético dedutivo, dialético e fenomenológico (aos quais é preciso acrescentar o método indutivo e dedutivo, próprios das ciências naturais, sendo que o método hipotético dedutivo, a rigor, corresponde basicamente ao método dedutivo); entre os específicos, que possibilitam os meios técnicos e operacionais da pesquisa, estão o método experimental, observacional, comparativo, estatístico e clínico.

            O método indutivo foi defendido como o método mais adequado ao conhecimento científico pelo filósofo inglês Francis Bacon e ganhou destaque com o empirismo da escola inglesa e as descobertas dos fenômenos e leis da física empreendidas por Galileu Galilei. O método indutivo coloca a observação dos fenômenos como o ponto de partida para a investigação científica e a elaboração de hipóteses. Da observação de casos particulares, pretende-se construir uma teoria geral. “De acordo com o raciocínio indutivo, a generalização não deve ser buscada aprioristicamente, mas constatada a partir da observação de um número de casos concretos suficientemente confirmadores da suposta realidade” (GIL, 1989, p. 29).

            O método dedutivo parte de uma teoria que se pretende geral para só então realizar a observação de casos particulares e, assim, testar a teoria. A rigor, não nos parece que exista uma diferença significativa entre o método dedutivo e o hipotético-dedutivo e, por isso, vamos tratá-los aqui de modo similar, embora Gil (1989, p. 28) ressalte que o método hipotético-dedutivo seja apresentado à ciência como tentativa de superar os métodos indutivo e dedutivo. No método dedutivo ou hipotético-dedutivo as teorias criadas se apresentam como modelos hipotéticos ideais que devem ser rigorosamente testados através da experimentação científica, que podem validar (ou não) a teoria inicial, como podemos perceber na imagem abaixo:

(KÖCHE, 2015, p. 70).

            Como pondera Köche (2015, p. 72), apoiado nos trabalhos de Karl Popper, a “ciência não é a mera observação de fenômenos [...] A percepção de problemas é uma percepção impregnada de fundo teórico”. Ao identificar um problema que pode ser tratado de maneira científica, o pesquisador começa a conjecturar sobre possíveis soluções e alternativas para explicá-lo. Nesse momento a hipótese está sendo elaborada de forma dedutiva e depende “da capacidade criativa de propor ideias que sirvam de hipóteses, de soluções provisórias que deverão ser confrontadas com os dados empíricos através de uma testagem” (id., ibidem, p. 72).

        As teorias são construídas, em primeiro lugar, no cérebro do investigador e não obedecem, necessariamente, a nenhuma regra lógica formal, senão aquelas regras próprias da imaginação criativa da mente do pesquisador. Mas uma vez elaborada a teoria, é preciso seguir uma lógica de validação da hipótese, através da experimentação.

            Se se prefere fazer uma distinção entre o método dedutivo e o método hipotético-dedutivo, este geralmente é associado as ideias do filósofo Karl Popper, a partir das teorias desenvolvidas pelo filósofo em sua obra A Lógica da Pesquisa Científica, que propõe a teoria do falsificacionismo ou, em outras palavras, a ideia de que formuladas as hipóteses sobre um determinado problema ou teoria, estas devem ser testadas com o objetivo de torná-las falsas. Se a hipótese resistir aos testes de falseamento a teoria continua verdadeira, senão, uma vez tornada falsa, deixa de ser válida a teoria.

             O método dialético aplicado às ciências sociais se baseia em pelo menos três princípios (GIL, 1989, p. 32): o princípio da unidade e da luta dos contrários, segundo o qual os aspectos contraditórios do real (luta dos contrários) se apresentam organicamente unidos (unidade); o princípio da transformação das mudanças quantitativas em qualitativas segundo o qual a quantidade e a qualidade “são características imanentes a todos os objetos e fenômenos, e estão inter-relacionados” (GIL, 1989, p. 32) e onde as mudanças quantitativas geram mudanças qualitativas; o princípio da negação da negação, segundo o qual certos aspectos do estágio inferior são repetidos em estágios superiores.

            O método fenomenológico parte da premissa fundamental de que é preciso avançar na direção do próprio fenômeno, entendido como algo que é dado a perceber pela consciência. Para  mais detalhes sobre o método dialético e fenomenológico, veja em nosso site o texto: Epistemologia e Ciências Sociais/Política.

            Através do método experimental submete-se o objeto de estudo à influência das variáveis da pesquisa para observar os seus resultados e a partir de então chegar as conclusões. O método observacional propõe a observação do fenômeno sem submetê-lo a qualquer tipo de influência, no que difere do método experimental. O método comparativo propõe um estudo comparando diferentes grupos de indivíduos, culturas, fenômenos, fatos ou padrões de comportamento. O método estatístico “fundamenta-se na aplicação da teoria estatística da probabilidade e constitui importante auxílio para a investigação em ciências sociais” (GIL, 1989, p. 36), através do qual é possível determinar a probabilidade de acerto (nunca uma certeza absoluta), para que um determinado fenômeno ocorra. O método clínico é próprio da psicologia e psicanálise e apoia-se em uma estreita relação entre o pesquisador e o objeto pesquisado, no caso, o paciente.

 

Referências

CASARIN, Helen de Castro S.; CASARIN, Samuel S. Pesquisa científica: da teoria à prática. Curitiba: Ed. Intersaberes, 2012.

CLIFFORD, J. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2002.

DIEHL, Astor A.;  TATIM, Denise C. Pesquisa em Ciências Sociais Aplicadas: métodos e técnicas. São Paulo: Prentice Hall, 2004.

GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1989.

KÖCHE, José Carlos. Fundamentos de Metodologia Científica: teoria da ciência e iniciação à pesquisa. 34. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

MINAYO, Maria Cecília de S. O desafio da pesquisa social. In: ____ (org.); DESLANDES, Suely F.; GOMES, Romeu. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 28. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 9-29.

SCHMIDT, Maria Luisa S. Pesquisa participante: alteridade e comunidades interpretativas. Psicologia USP, 17(2), p. 11-41, 2006. Acesso em 02/12/2017.

THIOLLENT, M. Notas para o debate sobre pesquisa-ação. In: BRANDÃO, C. R. (Org.). Repensando a pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 1999, pp. 82-103.

 

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