Uma outra globalização é possível?

Uma outra globalização é possível?

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em set. 2016

 

            O processo de globalização tem suscitado várias reflexões e críticas, que apontam para o fato de que a globalização tende a aumentar ainda mais as desigualdades sociais, fazendo com que a concentração da riqueza mundial esteja cada vez mais nas mãos de poucos, aumentando a situação de pobreza e miséria social. Dentre os críticos podemos situar Milton Santos, autor da obra: Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, em torno do qual se baseiam as reflexões presentes neste texto.

 

Arquidamea Dunice. Disponível em: Slideshare, slide 2

Acessado em 20/08/2016

 

            Para Santos a globalização é o resultado das ações de um mercado dito global, baseado na tirania do dinheiro, aliado a existência dos novos sistemas de tecnologia, como por exemplo, o da informação. “Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas resulta em uma globalização perversa” (SANTOS, 2000, p. 24).

            A tirania do dinheiro e do capital se impõe como resultado de um motor único que, aliado as novas técnicas permitiram às empresas fazer crescer sua produtividade e seu lucro gerando uma “mais-valia universal”. A produção se dá em escala mundial, por intermédio de empresas mundiais, gerando uma mais-valia em escala mundial, que se torna o único motor do processo de globalização. A lógica do dinheiro se impõe à vida social, econômica e política. O dinheiro global é despótico como afirma Milton Santos.

            E o poder do Estado está subordinado à esse despotismo financeiro. “São o Banco Central e o Ministério da Fazenda, em combinação com instituições financeiras internacionais, que orientam as grandes reformas ora em curso” (SANTOS, 2000, p. 105). A globalização necessita de um Estado flexível a seus interesses. O Estado deve se tornar “mais forte, mais ágil, mais presente, ao serviço da economia dominante” (SANTOS, 2000, p. 66).

        Anthony Giddens (2006) destaca que a globalização parece ser um fenômeno de ocidentalização ou até de americanização, já que a maioria das gigantescas empresas multinacionais tem sede nos Estados Unidos, ou em algum grande país europeu, onde “os países em desenvolvimento do Sul têm um papel discreto ou não têm nenhum papel. O pessimista poderá ver na globalização a maneira de destruir culturas locais, de aumentar as desigualdades do mundo e de piorar a sorte do empobrecidos” (2006, p. 26). Mas essa análise considera a globalização apenas do ponto de vista econômico, quando na verdade a globalização é um fenômeno de natureza bem mais ampla. A globalização não é apenas um fenômeno de natureza econômica, mas política, tecnológica, cultural, mas que tem, de alguma forma, seus efeitos de forma global sobre a humanidade.

            Aliado a tirania do dinheiro temos o domínio da técnica. As atividades hegemônicas estão todas fundadas na técnica. Cada técnica propõe uma maneira particular de comportamento trazendo novas formas de relacionamento. Desde o século XVIII, com as técnicas das máquinas, as relações entre indivíduos, países e sociedade tem se alterado significativamente. Quando o progresso da técnica alcança um nível superior, a globalização se realiza, mas na forma como se deu, ela devolveu o homem à sua condição primitiva do cada um por si, do homem como lobo do homem hobbesiano. “O período atual tem como uma das bases esse casamento entre ciência e técnica, essa tecnociência, cujo uso é condicionado pelo mercado [...] a ciência passa a produzir aquilo que interessa ao mercado, e não à humanidade em geral, o progresso técnico científico não é sempre um progresso moral” (SANTOS, 2000, p. 65).

          Edgar Morin também nos proporciona importantes reflexões epistemológicas sobre o uso da técnica, embora não necessariamente relacionada ao processo de globalização.

 

[...] sabemos que existe uma relação que vai da ciência à técnica, da técnica à indústria, da indústria à sociedade, da sociedade à ciência etc. E a técnica aparece como um momento nesse circuito em que a ciência produz a técnica, que produz a indústria, que produz a sociedade industrial; circuito em que há, efetivamente, um retorno, e cada termo retroage sobre o precedente, isto é, a indústria retroage sobre a técnica e a orienta, e a técnica, sobre a ciência, orientando-a também” (2005, p. 107).

 

            Por isso já não se pode isolar o uso da técnica e separá-la da ideia de ciência e da sociedade industrial. O mundo da técnica promoveu uma maior fluidez e rapidez nas relações sociais. Mas uma fluidez que não é para todos, mas para os agentes que têm a possibilidade de utilizá-la. E a “compartimentação dos territórios ganham esse novo ingrediente [...] tudo hoje está compartimentado; incluindo toda a superfície do planeta” (SANTOS, 2000, p. 84). É dessa forma que se potencializa a força das grandes empresas em detrimento de outras, que são forçadas em suas formas “de ser e agir” a adaptar-se ao “epicentro” das empresas hegemônicas. “Com a globalização, o uso das técnicas disponíveis permite a instalação de um dinheiro fluido, relativamente invisível, praticamente abstrato” (SANTOS, 2000, p. 100).

 

Ideologia e Ethos

 

            O processo atual de globalização também tem sua ideologia. Ideologicamente a globalização é justificada como o único caminho histórico possível, um processo irreversível, mas que se tornou “perverso”, nas palavras de Milton Santos, porque se funda na tirania do dinheiro e da informação. Dentro deste contexto Milton Santos nos alerta sobre a ideologia por trás dessa globalização. A principal construção dos mitos da globalização é feita diariamente e incessantemente e o principal agente desta construção miraculosa são as tecnologias de comunicação: a mídia e os sistemas de comunicação.

            A informação como ideologia cria o mito, a fábula de uma “aldeia global”, com a difusão instantânea de notícias, informando as pessoas, encurtando distâncias, criando a ideia de que o mundo está ao alcance de nossas mãos. Enquanto nos é passado a ideia de que a informação está ao alcance de todos, oculta-se a forma como a informação é oferecida à humanidade, controlada por um punhado de atores em função de seus objetivos e interesses particulares, apropriados pelo Estado e pelas empresas: “o que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada” (SANTOS, 2000, p. 39). A informação é usada por alguns poucos atores para interesses próprios, com o objetivo de manipular e convencer a população global de seus interesses. Afinal, a informação que chega para as massas é totalmente manipulada, que em vez de esclarecer, confunde.

            A ideologia da globalização está fundada em um novo ethos que determina as relações sociais e interpessoais e se baseia na competitividade, estimulada pela produção e pelo consumo: estímulo do culto ao consumo e à competitividade; sociedade do consumo; e “consumo ideologizado” são a tônica da sociedade dita global. A competitividade comanda nossa forma de ação. A concorrência é a regra no capitalismo. Uma competitividade que “tem a guerra como norma. Há, a todo custo, que vencer os outros, esmagando-o, para tomar seu lugar” (SANTOS, 2000, p. 46). Reforçando a ideia de um estado de “guerra de todos contra todos” hobbesiana, como já frisamos.

            A áurea de competitividade acirrada gera a chamada “violência estrutural” que tem como base o fato de todos serem chamados a competir sob a lógica global da reprodução capitalista: “Num mundo globalizado, regiões e cidades são chamadas a competir e diante de tais regras atuais de produção e dos imperativos atuais de consumo, a competitividade se torna também uma regra de convivência entre as pessoas” (SANTOS, 2000, p.57). A globalização tem levado as pessoas a se comprometerem ideologicamente com o capital gerando uma competitividade excessiva entre as pessoas destruindo toda a solidariedade social.

        A ideologia da globalização funda, portanto, um novo ethos: uma “ética pragmática individualista”, “ética da competitividade”, ética do mercado. Que justifica o individualismo. Tudo tem o seu valor: cada objeto, cada indivíduo, cada relação, cada lugar. É o que Milton Santos chama de “lei ideológica do valor”.

            E até a política de Estado é influenciada por essa ideologia quando se submete à política empresarial, que é uma política sem preocupações éticas: “a própria lógica da empresa global sugere que funcione sem nenhum altruísmo” (SANTOS, 2000, p. 67), com ênfase na competitividade, na individualidade. E nesse jogo o poder público passa a ser subordinado e arrastado ao poder empresarial.

            Com base nestes pressupostos, Milton Santos problematiza que essa globalização perversa impõe uma nova forma de totalitarismo, o globalitarismo, fundado na tirania do dinheiro, do capital, da informação, na ideologia da competitividade, na ética individualista e do mercado.

 

Limites à globalização perversa e a transição em marcha

 

            O próprio sistema ideológico que sustenta o processo de globalização é um limite à sua expansão. A ideologia do consumo oculta a realidade de que não há o bastante para todo o mundo. Essa ideologia divide o mundo em “possuidores” e “não-possuidores”. O outro consome e não eu. Eu consumo e não o outro. “Viver na esfera do consumo é como querer subir uma escada rolante no sentido da escada” (SANTOS, 2000, p. 130). Por isso o processo de expansão da racionalidade capitalista se torna limitado.

            O livro Por uma outra globalização nos leva de fato a entender a globalização como uma “outra globalização” no sentido de que é possível transformar o que hoje está aí. A realidade não é um fato dado, mas uma construção contínua que tem re-arranjos diários e semanais e daí a intensa força que o sistema faz para manter o curso das coisas. Milton Santos acredita que estamos vivendo um novo período.

        Os limites do processo atual de globalização e a possibilidade de pensar um novo processo de globalização nos conduzem a pensar o que Danilo Streck chama de um novo contrato social, face à globalização. Pensar uma alternativa para a globalização com vistas à construção de um novo contrato social (STRECK, 2003). Os problemas impostos pela globalização impõe uma nova forma de “contrato social”.

          Este novo contrato tem como uma de suas características importantes, segundo Danilo Streck, conservar “um tom contestatório dentro da globalização econômica comandada por empresas transnacionais e os governos e Estados a elas relacionados (2003, p. 59-60). Um novo tipo de regulamentação das relações sociais se faz necessário pois “o atual contrato social é ineficaz para resolver os problemas de convivência entre os povos num mundo globalizado” (STRECK, 2003, p. 61).

          Um contrato social mundial alternativo, “planetário”, que leve em consideração pelo menos um conjunto de quatro grandes crises, segundo Susan George: “crise ambiental, crise da pobreza e da desigualdade, crise da democracia e crise econômica [...] um contrato planetário que faça frente a estas quatro crises é imprescindível para evitar o tipo de conflito que o mundo vive hoje” (apud STRECK, 2003, p. 63).

 

A dinâmica tecnológica e econômica que se afirma como parte das tendências novas da globalização não autorizam qualquer otimismo no que se refere à sua eventual contribuição para melhorar esse quadro de desigualdade. Ao contrário, o que temos com ela, mesmo nos países economicamente mais avançados, são o aumento da desigualdade social, níveis inéditos de desemprego, a "nova pobreza", o aumento da violência urbana (REIS, 1997, p. 49).

 

            Precisamos produzir as condições de realização de uma nova história. Outra globalização e outro mundo, a partir de um outro uso da técnica e recolocando o homem no seu lugar central, ao invés do despotismo do dinheiro, da tirania da informação, da competitividade e da concorrência.

 

Uma outra globalização supõe uma mudança radical das condições atuais, de modo que a centralidade de todas as ações seja localizada no homem [...] Nas presentes circunstâncias, conforme já vimos, a centralidade é ocupada pelo dinheiro, em suas formas mais agressivas, um dinheiro em estado puro sustentado pela informação ideológica, com a qual se encontra em simbiose [...] Com a prevalência do dinheiro em estado puro como motor primeiro e último das ações, o homem acaba por ser considerado um elementos residual (SANTOS, 2000, p. 147).

 

            Precisamos produzir as condições de realização de uma sociedade mais humana, pautada na solidariedade. E, nesse aspecto, o filósofo, sociólogo, antropólogo e epistemólogo francês Edgar Morin também tem contribuições importantes a oferecer, quando nos propõe pensar a ciência com consciência e como a subjetividade humana foi excluída do saber científico. A ideia do homem foi desintegrada pelas ciências, sobretudo da natureza. Mas não se pode eliminar um dos problemas mais fundamentais da vida, a saber: O que é o homem? Qual o seu sentido? Qual é seu lugar na sociedade? Qual é seu lugar na vida? Qual é seu lugar no cosmo? (MORIN, 2005 – capítulo 6 – Teses sobre ciência e ética).

 

A primazia do homem supõe que ele estará colocado no centro das preocupações do mundo, como um dado filosófico e como uma inspiração para as ações [...] o interesse social suplantaria a atual precedência do interesse econômico e tanto levaria a uma nova agenda de investimentos como a uma nova hierarquia nos gastos públicos, empresarias e privados. Tal esquema conduziria, paralelamente, ao estabelecimento de novas relações internas a cada país e a novas relações internacionais (SANTOS, 2000, p. 147 e 148).

 

            E em tempos de mudanças e transformações, vale destacar o que Maria da Glória Gohn chama de movimentos alter ou antiglobalização, como movimentos de resistência ao processo de globalização. “Um dos fundamentos que dão base aos movimentos altermudialistas iniciados nos anos 1990 está na economia, especialmente nos efeitos perversos da globalização econômica” (2014, p. 14). E se a técnica por um lado tem o seu uso condicionado pelo interesse do mercado, ela também ser utilizada à serviço da humanidade, ajudando no processo de mudança, já que a cibercultura também altera as formas de mobilização social, pois a “ação coletiva de movimentos alterglobalização” (GOHN, 2014, p. 19) também é impulsionada pelas novas formas de comunicação e informação.

            Benjamín Tejerina, et. al. (2006) analisam em seu artigo o nascimento de processos de mobilização social na Espanha em favor de uma justiça global e uma globalização alternativa, abordando as características desses movimentos, motivações, interesses e identidade política, por exemplo. “O que vamos tentar desenvolver nas páginas que se seguem são as linhas transversais desse território, uma cartografia que mostra os caminhos pelos quais transitam os ativistas do movimento” (2006, p. 45). E, no caso dos movimentos alterglobalização, podemos perceber através da análise das tabelas abaixo, que pelo menos 37% dos entrevistados tem como motivação para participar de mobilizações sociais a ideia de impulsionar uma globalização diferente (tabela 13) e aproximadamente 20% o de conscientizar sobre os riscos da globalização (tabela 16):

 

(2006, p. 45).

 

(2006, p. 48).

 

            Os autores da pesquisa concluem, enfim, que os ativistas de movimentos alterglobalização parecem ter em mente:

 

a) que com a sua ação querem construir um movimento o mais amplo possível; b) que se mobilizam pessoalmente para opor-se ao domínio econômico, para afirmar princípios morais de igualdade e justiça e para transformar as estruturas políticas e a democracia; c) que o interesse para se unirem a outros descansa na possibilidade de mudar uma realidade social não desejada, gerar solidariedade, construir com outros interesses comuns e partilhar das reivindicações; d) que o movimento alterglobalização é eficaz porque está contribuindo para a consciencialização dos riscos da globalização e para mudar a perspectiva sobre ela; e, e) que o que provoca maiores problemas de gestão em qualquer movimento (pluralismo, diversidade) parece ser o que mais atrai aos ativistas: pluralidade dos componentes, caráter horizontal e democrático do movimento e o fato de se referir a questões que transpõem as fronteiras culturais (TEJERINA, et. al., 2006, p. 60).

 

 

Referências Bibliográficas

 

GIDDENS, Anthony. O mundo na era da globalização. Tradução de Saul Barata. 6. ed. Lisboa : Editorial Presença, 2006.

GOHN, Maria da Glória. Sociologia dos Movimentos Sociais. 2. ed. São Paulo: Cortez Editora, 2014. (Questões da nossa época, 47).

MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

REIS, Fábio W. O nacional e o social em tempos globais. In: GERSCHMAN, S.; VIANNA, MLW., (orgs). A miragem da pós-modernidade: democracia e políticas sociais no contexto da globalização [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1997.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

STRECK, Danilo R. Educação para um novo contrato social. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

TEJERINA, Benjamín [et. al.]. O movimento pela justiça global na Espanha: ativistas, identidade e cartografia política da alterglobalização. Sociedade e Estado, Brasília, v. 21, n. 1, p. 29-66, jan./abr. 2006. Acessado em 22/08/2016.

 

 

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